Enquanto isso, Wu Lihong, 39 anos, está preso há três meses na cidade vizinha, Yixing. Com dezenas de fábricas de produtos químicos, más estradas e pequenos caminhões de três rodas sobrecarregados de material, Yixing é uma cidade-satélite de Wuxi, a metrópole industrial de Jiangsu, no coração do delta do rio Yangtze.
Wu Lihong vem combatendo há 10 anos os poluidores de Yixing, em sua maioria antigas empresas municipais hoje privatizadas e protegidas por fortes interesses locais. Os resíduos não tratados dessas empresas são os principais responsáveis pela poluição do terceiro maior lago da China. Xu Jiehua, mulher de Wu Lihong, vive sob vigilância de quatro homens a paisana que a acompanham em todos os seus trajetos. Não vê seu marido, ou fala com ele, desde que foi detido, em 13 de abril.
"Eram 50 policiais a paisana, e chegaram às 21h30min. Tiveram medo de vir de dia por medo de que as pessoas protestassem", ela diz. No final de maio, quando o ecossistema do lago Taihu entrou em colapso e as algas mal-cheirosas o recobriram por inteiro, invadindo até os encanamentos residenciais, privando dois milhões de moradores de Wuxi de água, os camponeses de Zhoutie comentaram: "É isso que acontece quando Wu Lihong não está mais lá para vigiar a poluição".
O cúmulo do paradoxo é que o militante foi acusado, pela imprensa oficial, de chantagear as empresas que ameaçava denunciar às autoridades de controle da poluição. Na verdade, de acordo com Xu Jiehua, o juiz tomou interesse por uma comissão que Wu recebeu em 2003 como agente de uma sociedade que vende material de medição de poluentes. A queixa das autoridades não é que essa comissão tenha sido paga ilegalmente, mas que ela não corresponde aos termos do contrato. A verdade é que o militante está sujeito, há anos, a assédio constante da polícia e investigações de magnatas locais.
Nascido em Zhoutie, na mesma casa em que hoje vive com sua mulher e filha, Wu rapidamente se mobilizou para a defesa do meio ambiente. "De tanto ver os cursos d¿água poluídos, ele sempre se questionava o que seria possível fazer. Foi assim que começou", conta sua mulher. Em 1998, as autoridades anunciaram uma campanha de "poluição zero" no lago Taihu, e a imprensa visitou o local. Wu auxiliou os jornalistas na visita. A ação deles e do militante resultou no fechamento de uma fábrica de produtos químicos onde sua mulher trabalhava; por meio dela, ele estava bem informado sobre o que acontecia na empresa.
Wu terminou por abandonar o trabalho como especialista em material de isolamento acústico e se dedicou em tempo integral à defesa da ecologia. Apesar de não ser formado, começou a devorar estudos e livros ¿sua escrivaninha ainda está recoberta por eles. Wu começou a percorrer toda região, recolhendo amostras e conversando com os moradores. Ele tirou fotos de arrozais envenenados, acompanhados dos testemunhos de camponeses analfabetos que assinaram os papéis com impressões digitais em tinta vermelha.
Em 2002, os camponeses, irritados com a falta de atenção das autoridades, se rebelaram. Wu terminou detido por 15 dias. Passou a ser figura freqüente na delegacia local, depois disso. Também foi espancado por operários. Mas a população comum sempre o apoiou.
Wu escreveu artigos, participou de seminário. Em 2005, foi premiado pela Fundação Ford e apontado pelo governo central, em Pequim, como um dos 10 militantes ecológicos do ano. Ele jamais conseguiu permissão para criar uma organização não governamental. Sua mulher afirma que, "diante da comédia das ONGs de Pequim, ele preferia ser um soldado de linha de frente".
Em 2006, Wu ficou indignado quando Yixing foi considerada "cidade modelo de proteção ambiental" pela Agência Nacional de Proteção Ambiental chinesa. Tentou impedir que o prêmio fosse entregue, recorrendo à Justiça, mas fracassou. Com a ajuda de outro ativista, criou um site para prevenir as autoridades sobre casos de poluição que constatava. No segundo trimestre, quando 80 mil habitantes da região ficaram um mês sem água, ele anunciou que o desastre estava próximo.
Pouco se fala do assunto, que não envolve um centro urbano importante, mas o ardor do militante incomodava, e por isso terminou preso. Depois que o desastre do lago Taihu provou que ele tinha razão, diversos jornais chineses, ONGs e até mesmo dirigentes da agência ambiental declararam apoio a ele de maneira mais ou menos abertas. Algumas autoridades de Zhoutie, e o responsável pela proteção ambiental em Yixing, terminaram punidos, ainda que simbolicamente, por fracassarem em suas responsabilidades de combate à poluição.
Se Wu continua na prisão, sua situação ilustra as contradições de um sistema colocado à prova quando os cidadãos se envolvem diretamente em assuntos que os concernem. "Esperamos que o caso de Wu sirva de exemplo e que a luta cívica pelo lago Taihu continue. Ninguém mais pode negligenciar a opinião pública quanto a essas ações", afirmou Dushi Bao, em artigo para o jornal progressista ¿Nanfang, instando mais pessoas a combater como Wu, de maneira prática, para se opor aos grupos de interesses.
Le Monde
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