La Vanguardia

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Quinta, 5 de julho de 2007, 11h57

Pacientes solitários são cada vez mais freqüentes

Antonia, 84 anos, foi operada de uma fratura e sofre de outras doenças crônicas. Passará pelo menos 10 dias no hospital, e ficará sozinha por boa parte desses dias. O caso é fictício, mas ilustra algo que vem se repetindo com cada vez mais freqüência nos últimos anos.

O fato é que a sociedade não pôs fim ao carinho familiar ou à compaixão pelos que sofrem, mas muita gente não tem ninguém, ou seus familiares e amigos dispõem, de tempo limitado para lhes fazer companhia, devido às mudanças sociais. A situação tem se agravado, mas começam a surgir soluções como voluntários ou pessoas contratadas para executar esse tipo de serviço.

Que haja pessoas doentes que não contam com companhia nunca, ou pela maior do tempo, preocupa Marina Geli, conselheira do serviço de saúde, segundo a qual essa é uma circunstância que desumaniza ainda mais o setor. Mas não considera que uma solução seja possível sem ajuda da sociedade - há alguns meses, Geli se lamentava porque as dificuldades de conciliação de horários de trabalho enfrentadas por pais e mães tornam mais difícil organizar as consultas pediátricas das crianças.

Nos hospitais, o pessoal de enfermaria, que convive de mais perto com os pacientes, não hesita em confirmar que há alguns anos vem crescendo o número de pacientes sozinhos por todo ou quase todo o tempo. Porque não têm família - muitas mulheres de idade avançada vivem sozinhas, por exemplo; porque são idosos e seus cônjuges ou filhos crescidos enfrentam problemas de saúde tão graves quanto os seus, ou mais, o que dificulta a estes estarem presentes à cabeceira do leito do enfermo dia e noite; porque têm filhos, netos ou irmãos, mas estes não conseguem fazer visitas nos horários em que trabalham; porque vivem ou trabalham longe; ou porque muitas famílias já não são tão grandes ou mantêm tanto contato quanto no passado.

"É preciso acrescentar ao envelhecimento da população os horários de trabalho que hoje condicionam a disponibilidade de muitas mulheres, as quais no passado eram as principais responsáveis por cuidar dos dependentes em suas famílias, e a diluição da rede social familiar, especialmente nas regiões urbanas", avalia Pilar Llompart, professora de enfermagem e coordenadora dos voluntários do hospital Vall d¿Hebron, em Barcelona.

Hospitais de grande porte como o Vall d'Hebron, o Clínic ou Bellvitge, em Barcelona, são centros de referência para algumas patologias e recebem pacientes de outras cidades e províncias. Ocasionalmente, as internações são longas. Mesmo que o paciente esteja acompanhado por um familiar que deseje estar sempre com ele, é comum que o acompanhante precise se ausentar, dizem Llompart e Encarna Martín, assistente social do departamento de medicina interna do Clínic. Em certos casos, funcionários do avião ou voluntários tiveram de acompanhar um enfermo em uma viagem de avião, por exemplo.

Llompart e Martín afirmam que, na maioria dos casos em que o doente tem família, esta se esforça por acompanhá-lo por meio de visitas e estadias noturnas - apesar do desconforto da maioria dos quartos de hospital -, sobretudo em caso de doenças graves ou pacientes pós-operatórios. Mas há também pacientes que passam muitas horas sozinhos a cada dia. E a situação se complica quando o paciente precisa passar por internações repetidas - o que acontece cada dia mais, com o envelhecimento da população e o aumento do número de pacientes crônicos.

Os acompanhantes noturnos que trabalham enfrentam dificuldades em suas vidas cotidianas caso passem muitas noites mal acomodados. Isso acontece com pacientes de todas as idades, por exemplo jovens acidentados que passam semanas internados no hospital.

Muitos imigrantes também estão sozinhos do país, ou contam com famílias pequenos. É claro que, no extremo oposto, pessoas de algumas nacionalidades ou de etnia cigana têm famílias imensas que ocupam o hospital ou, se há limites à presença de acompanhantes no quarto, acampam do lado de fora, contam profissionais da saúde.

Martín recorda que, quando uma pessoa está hospitalizada, a instituição é responsável não só por sua saúde como pela higiene e por ajudá-la a comer, se necessário. Além disso, os hospitais contam com assistentes sociais. A ajuda de um familiar seria mais pessoal, no entanto, preservando um elo psicológico e emocional insubstituível.

De toda maneira, os hospitais criaram mecanismos para enfrentar esse tipo de situação. Converteram-se em instituições mais abertas que no passado, para facilitar visitas. É raro o hospital que não conta com a colaboração de organizações de voluntários, que ajudam os doentes a passar o tempo durante a internação. O objetivo não é substituir a família, mas compensar sua ausência e criar um clima mais humano para os internados. No hospital de Bellvitge, além dos voluntários, existe também o que o diretor adjunto Francesc Rillo define, em tomo jocoso. Serviço VIP.

Funcionários do atendimento visitam os pacientes sozinhos ou com necessidades especiais, como a mulher idosa que vive só e cujo serviço social municipal alertou ao hospital não ter família, ou outra paciente, igualmente sem família, que não aceitava tratamento e pedia alta. Em uma conversa com um funcionário, o hospital descobriu que ela queria voltar para casa porque seu papagaio estava sozinho. A situação foi resolvida com um telefonema do hospital a uma vizinha.

Os doentes que vivem sós também causam problemas aos serviços de saúde porque poderiam receber alta mais cedo, em certos casos, mas continuam no hospital ou são transferidos a clínicas porque não conseguem se cuidar sozinhos (por exemplo, se precisarem fazer curativos). As unidades de atenção domiciliar, que devem ser estimuladas pela nova lei de dependência, ajudarão quanto a isso.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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