Jerry Garrett
Alguns adeptos puristas da marca Porsche continuam horrorizados pelo fato de a montadora de carros esportivos ter decidido ampliar suas atividades ao segmento dos utilitários (SUV). Mas sejamos honestos: se as necessidades de transporte de um "Porschófilo" requerem um veículo desse tipo, por que ele deveria procurar outra marca?
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O Porsche Cayenne, que acaba de passar por uma reformulação de design, surgiu inicialmente como um modelo 2003, e continua a representar um estudo em contrastes. Com minhas desculpas aos devotos do 914, o Cayenne é o Porsche mais feio de todos os tempos. Mas, já que se trata de um utilitário esportivo, não deixa de ser atraente. Talvez isso explique a sua popularidade entre as mulheres.
Plenamente equipado, um Cayenne 2008 talvez seja o utilitário esportivo mais caro do planeta. Mas, ao peso de 2.356 kg, não se pode comprar mais Porsche do que isso - especialmente no caso do modelo básico, que tem preço inicial de apenas US$ 44.295, incluído o frete. Na verdade, é possível comprar dois Cayennes básicos pelo preço do Turbo de topo de linha, e ainda guardar dinheiro.
Mas qual seria a faixa de preço real de um Cayenne plenamente equipado? Eu contei 107 opcionais possíveis no modelo (alguns dos quais, como múltiplas escolhas de rodas, representam duplicações). Existem também 10 cores de tinta, pelo menos quatro combinações de couro para o interior e três conjuntos de motor-transmissão. Assim, se consideramos tudo isso, até onde o preço pode chegar?
"Não tenho um número", disse Gary Fong, o encarregado da frota de modelos de teste da Porsche. "Mas, porque o Cayenne Turbo vem equipado de linha com diversos itens opcionais em outros modelos, não há muitos acessórios a acrescentar. Configurei alguns Cayennes Turbo com amplo número de opcionais, ao longo dos anos, e o preço nunca ultrapassou os US$ 109 mil. Calculando de cabeça os preços dos opcionais e ignorando acessórios personalizados, eu diria que o máximo deve ser de US$ 110 mil a US$ 115 mil".
É seguro presumir que a Porsche está obtendo um lucro decente com seu utilitário, mesmo que lhes faltem alguns opcionais, embora ninguém saiba ao certo quanto. Os compradores recentes dos modelos 2006 finais (não houve ano-modelo 2007) informam ter obtido descontos de até US$ 30 mil sobre o preço de tabela. Isso indica que o preço é negociável. Testei duas versões do novo modelo Cayenne. Meu Cayenne Turbo, carregado com modestos US$ 13 mil em opcionais, tinha preço final de US$ 106.595. Isso excluía extravagâncias como teto de vidro panorâmico (US$ 3,9 mil), interior de couro em dois tons (US$ 1,51 mil), saídas de ventilação com acabamento em couro (US$ 2,16 mil) e um chaveiro de couro que combina com o interior do carro (US$ 95).
Também testei o modelo mais barato, chamado simplesmente Cayenne. Os potenciais compradores devem estar cientes de que essa versão não vem equipada com o motor V8 do modelo S ou com o V8 duplo turbo do Turbo, mas com um V6 fornecido pela Volkswagen. Embora o modelo de seis cilindros pareça destinado àquelas pessoas divididas cujo objetivo é ter um Porsche que ande devagar, seu desempenho é competente, se não espantoso.
Ao menos o V6 melhorou bastante ante a versão que equipava o modelo anterior. A versão de 3,2 litros e desempenho modesto do Cayenne original foi substituída por um propulsor de 3,6 litros e potência de 290 cavalos de potência. Essa potência, aliás, supera a anunciada na publicidade do Mitsubishi Lancer Evolution, o "foguete" dos rallies.
Outro fator que ajuda a melhorar a situação é o fato de que os Cayennes com motor V6 são os únicos disponíveis com transmissões manuais (de seis velocidades). O câmbio manual não tem custo adicional, mas o comprador precisa lembrar-se de indicar a opção em seu pedido.
Isso aparentemente indicaria que a transmissão Tiptronic S de seis velocidades, a única disponível para o Turbo e o S, seria o equipamento de linha no modelo básico. Mas não é assim: a Porsche cobra US$ 3 mil a mais por ela em seu modelo de preço mais baixo. Difícil de entender.
Nos meus testes, o Cayenne básico foi relativamente econômico (9,3 km por litro), mas mostrou pique, boa resposta aos comandos e mais agilidade do que seus irmãos de preço mais alto - especialmente em manobras de baixa velocidade, tais como estacionar. Ele é de longe o modelo mais divertido de dirigir da linha Cayenne.
O Cayenne continua a se basear na estrutura do Volkswagen Touareg, e esse utilitário não muito amistoso continue a existir em apenas um tamanho, e não muito adequado, com duas fileiras de assentos e acomodação para cinco pessoas. O espaço para pernas no assento traseiro continua apertado. O porta-malas é relativamente pequeno, com 0,53 metro cúbico, ainda que se possa expandi-lo dobrando os bancos traseiros. O utilitário não dispõe de terceira fileira de assentos, porque o piso do porta-malas é alto demais.
Mas ainda que não seja muito bom para carregar cargas, o Cayenne certamente carrega emoção.
A soberba tração nas quatro rodas com duplo ajuste, a condução precisa e os freios robustos propiciam destreza surpreendente ao Cayenne, na estrada e fora dela. Os pneus de perfil baixo e configurados para velocidade impedem o uso em terreno rochoso, mas o Cayenne é capaz de atravessar toda espécie de terreno no qual uma pessoa sensata jamais usaria um carro de US$ 100 mil.
As mudanças resultam em um Cayenne mais apimentado. Se você tem dinheiro suficiente para não ligar para os esquemas de preço da Porsche, o Cayenne 2008 é um carro excelente. Meu conselho seria comprar o ágil modelo básico, e esconder o preço dos amigos.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times
Plenamente equipado, um Cayenne 2008 talvez seja o utilitário esportivo mais caro do planeta
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