NY Times

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Sexta, 13 de abril de 2007, 14h24 Atualizada às 14h31

Surfe com remo atrai praticantes na Califórnia

Os altos penhascos e as colinas verdejantes de La Jolla, na Califórnia, são inegavelmente lindos, mas o espetáculo que acontece nas águas abaixo é que deslumbra. Peixes Garibaldi de corpos dourados nadam entre as folhas ondulantes de kelp; arraias e um pequeno tubarão movimentam pequenas nuvens de areia. Um recife escuro se revela por sob as ondas imponentes, enquanto nos aproximamos da terra.

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Eu estava passando por minha primeira experiência bem sucedida de remar em pé sobre uma prancha de surfe, e a sensação de remar ereto pelo oceano vítreo, sem a energia de uma onda, me fez sentir como um astronauta flutuando pelo espaço. Ficar em pé por sobre o mundo aquático faz do surfe uma experiência completamente nova.

A idéia de surfar com um remo me intrigou desde que vi pela primeira vez as fotos do lendário surfista de grandes ondas Laird Hamilton, de Maui, navegando dessa forma por entre as ondas perfeitas da Surfrider Beach, em Malibu. Depois, descobri um surfista que remava em pé em uma praia perto de Melbourne, na Flórida, e ele disse que essa prática o ajudou muito em termos de equilíbrio e o ajudou a ganhar mais velocidade quando rema com sua prancha para alcançar uma onda. Ele também disse que era mais fácil avistar tubarões, dessa forma.

Depois que observei invejosamente esse surfista apanhando ondas em um ponto muito além do atingido pelos demais, decidi que encomendaria um remo leve para uso em pé, o remo tem pá única, dois metros de comprimento, é feito de fibra de carbono, e foi produzido por uma empresa havaiana. Eu o experimentei com uma prancha de três metros, densa e estável, nas águas gélidas próximas a Charleston, Carolina do Sul.

Logo se tornou evidente que ou eu não sabia o que estava fazendo ou a longboard que eu escolhi talvez fosse pequena demais para um novato. Uma semana mais tarde, me juntei a uma talentosa turma de surfistas remadores, em San Diego. Eles estavam na cidade para a feira Action Sports Retailer. Os eventos que estavam atraindo mais atenção na celebração de tudo que relaciona ao surfe e skate, este ano, se relacionavam às incursões de fabricantes de pranchas como C4 Waterman, Surftech, Infinity e outros ao segmento do surfe com remo.

Havia remos de alta tecnologia em exposição, e longboards quase comicamente compridas, criadas especificamente para esse esporte emergente. O surfe com remo ao que sabe foi criado nos anos 20 e 30, quando surfistas na praia de Waikiki como o grande Duke Kahanamoku remavam suas imensas pranchas de madeira koa, porque remar em pé permitia que eles mantivessem secas as câmeras que usavam para fotografar os turistas que tentavam surfar. Mas como quase todas as pessoas hoje envolvidas com a modalidade, o pessoal que estava tentando me ensinar a técnica pratica o surfe com remo há pouco tempo.

Meus instrutores incluíam o renomado surfista havaiano Brian Keaulana; Scott Bass, editor da revista Surfer; e o mais experiente surfista com remo do grupo, Rick Thomas, de San Diego. Keaulana disse que, quando menino, costumava ver a família de Leroy Achoy, contemporâneo de Kahanamoku, remando pelas ondas de Waikiki. Mas ele preferiu se concentrar no trabalho como salva-vidas, dublê, e surfista de ondas gigantes.

Keaulana decidiu experimentar o surfe com remo no Taiti, alguns anos atrás, e disse que ficou atônito com a paisagem das montanhas e dos recifes, e com o exercício. "Eu me queixava de que meu corpo todo doía", disse. "Antes, surfava oito ou dez horas por dia mas nunca senti nada igual".

Thomas iniciou suas experiências na Califórnia, usando uma longboard e um remo de caiaque, alguns anos atrás. Ele surfava com remo no Cardiff Reef, perto de San Diego, e atraiu a atenção de Scott Bass e alguns outros amigos. Na opinião de Bass, remar em pé é uma prática que vai explodir em breve, e ele se converteu fervorosamente. "Nem uso mais minha longboard comum", disse. "Na verdade, essa aqui é minha longboard".

Quando Thomas me emprestou a prancha Laird Hamilton de 3,6 m, com espessura de 13 centímetros e largura de 80 centímetros, fiquei espantado com o seu tamanho imenso e peso leve. No mar, o espanto cresceu ainda mais. Ajoelhei-me na prancha e remei com facilidade para além do ponto de quebra das primeiras ondas. Quando Keaulana me encorajou a tentar remar em pé, depois de passar a rebentação, eu me levantei e fiquei lá, parado, meio atônito. A prancha não adernou. E ainda que eu não tivesse equilíbrio perfeito, consegui começar a remar sem cair.

Meus colegas diagnosticaram minha postura rapidamente. Se eu dobrasse os joelhos, endireitasse as costas e me posicionasse um pouco mais à frente na prancha, o equilíbrio se tornaria mais fácil. Alternar golpes leves de remo de um e de outro lado da prancha também ajudaria a manter o equilíbrio, enquanto eu estivesse parado à espera de uma onda. Ah, e outra coisa: eu estava segurando a pá do remo na posição errada.

Nós avançamos lentamente em direção ao sul, a cerca de 270 metros da costa, e remar se tornou mais fácil. Keaulana me mostrou como fazer curvas rápidas usando o remo de um lado da prancha e transferindo meu peso mais para trás. Ainda que o balanço do mar fosse forte, só caí algumas vezes.

Meus instrutores usaram os remos para girar as pranchas ao encontro das ondas que se aproximavam. Em uma onda longa, Keaulana usou o remo como apoio de manobra para uma curva radical. Depois de esforços intensivos de treinamento nas águas mais rasas, eu passei 20 minutos tentando apanhar uma onda. Comparado ao passeio que me levara até além da rebentação, navegar e escolher a onda certa foi um desafio. Com a queda da maré, as ondas translúcidas quebravam rápido, e só consegui apanhar uma delas: um percurso cheio de emoção. Agora, estou faminto por mais.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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The New York Times Surfistas remam sobre as pranchas na praia de La Jolla Surfistas remam sobre as pranchas na praia de La Jolla

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