Gil foi bastante aplaudido e virou a estrela do seminário |
Eva Mothci
Brasil
Entenda-se, por hacker, alguém que cria tecnologia pela paixão de inventar, pelo prazer de criar e compartilhar. Tal foi a definição do sociólogo e economista da sociedade de informação Manuel Castells, que integrou a mesa na qual, além do ministro, estavam também o co-fundador da Electronic Frontier Foundation John Barlow, o advogado Lawrence Lessig e Christian Ahlert, do Oxford Internet Institute, da Universidade de Oxford. Todos entusiastas do software livre, dos programas de inclusão digital, das redes de troca, do exercício da liberdade de conhecimento, expressão, criação e difusão.
As iniciativas do governo brasileiro em relação ao uso do software livre e à inclusão digital foram muito citadas e elogiadas. Barlow chegou a chamar Porto Alegre de "a capital mundial da esperança", e disse que foi "um momento maravilhoso" a fala do presidente Lula em Davos, no Fórum Econômico Mundial. "Bill Gates tem medo do Brasil, porque o governo quer mudar para o software livre", destacou. Barlow declarou-se um "comunista, pois acredito em comunidades da mente" e profetizou: "qualquer um, em qualquer lugar desta planeta, terá acesso a tudo que qualquer um produza". É, declarou ele, seu ideal.
Mas o acesso de todos a tudo levanta novamente a questão dos direitos autorais. Com a palavra, o muito lúcido Lawrence Lessig, advogado que defende a reapropriação das obras culturais pelos seus autores, sem intermediários, e que criou o que se considera uma primeira iniciativa para um novo sistema de licenciamento válido, o Creative Commons (CC). Longe de defender a pirataria ("não defendo que alguém lucre com o trabalho de outra pessoa"), o CC protege os direitos do autor da obra de distribuí-la livremente, ou restringir apenas em parte seu uso por terceiros. Ou seja, transforma o criador em "dono real" do seu trabalho, e entrega a ele a decisão de como se dará a distribuição.
Aspectos técnicos e legais também foram abordados: Barlow lembrou o problema da largura de banda, que deve ser considerado, Gil a necessidade de um novo marco legal para a radiodifusão e a lei geral das comunicações. "A batalha da Internet livre e das conexões livres é a mais interessante e a mais atual das discussões políticas hoje", disse o ministro Gil.
A discussão de alternativas de produção, distribuição e criação de obras culturais a partir da revolução digital atraiu muita gente e o público superou a capacidade do armazém A601 do Cais do Porto, que é de 600 pessoas. Havia gente sentada no chão e muitas, muitas pessoas de pé nas entradas do galpão. Do lado de fora, intenso movimento de gente que chegava perto das portas, se esticava um pouco para poder ouvir, mãos espichadas com máquinas digitais, filmadoras...
Do lado de fora, Dani Castro, uma estudante carioca, pedia a alguém pelo celular: "Vai pra mim, por favor, eu vim aqui só pra ver o Gil mas a palestra tá muito boa, por favor". Depois, explicou: ela só queria um autógrafo e uma foto com o ministro, mas achou tão interessante o assunto que resolveu ficar - e pedia a uma das companheiras para ir até a barraca no acampamento acordar alguém.
A liberdade de conhecimento é um dos temas principais desta edição do Fórum Social Mundial. O eixo "Pensamento Próprio, reapropriação e socialização dos saberes, conhecimentos e tecnologias" abrange mais de 20 seminários debatendo o uso do software livre, a propriedade intelectual, a liberdade de criação e a inclusão digital.
Redação Terra