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Não tenho medo de ser vilã, diz Flávia Alessandra

31 de julho de 2005 11h00 atualizado às 13h54

Flávia Alessandra vive a vilã de  Alma Gêmea. Foto: TV Press

Flávia Alessandra vive a vilã de Alma Gêmea
Foto: TV Press

Flávia Alessandra aguardava ansiosa o retorno à TV. Tanto que não pensou duas vezes na hora de aceitar o convite para "encarnar" a cruel Cristina de Alma Gêmea, da Globo. Aos 31 anos de idade e 16 de carreira na televisão, estava afastada da telinha desde O Beijo do Vampiro, de 2002, e já sentia falta do corre-corre das gravações.

"Há algum tempo pedia para entrar numa comédia ou fazer uma vilã. E isso acabou acontecendo", confessa, orgulhosa.

Apesar da impressionante frieza da personagem, a atriz ressalta que Cristina não é uma vilã comum, que vive apenas para fazer o mal. Pelo contrário. "Ela também sabe ser amiga. Ainda guarda uma certa dose de bondade, devidamente escondida. Não é uma vilã o tempo todo", avalia.

Mas a tal "bondade" da pérfida personagem parece que está realmente muito bem escondida. Tanto que, há cerca de duas semanas, a atriz estava no "playground" do prédio de uma amiga quando uma pedra de gelo se espatifou bem próximo, enquanto alguém gritava o nome de Cristina. "A sorte foi que não nos acertou, ainda mais porque minha amiga estava com a filhinha dela", conta.

Assustada com inusitada "crítica", Flávia espera que os telespectadores não confundam realidade com ficção. Ainda mais quando a novela está apenas começando. "Ela ainda nem aprontou tanto. Imagina quando ela realmente passar a colocar em prática todas as sua maldades...", espanta-se.

Enquanto a dissimulada Cristina não amplia ainda mais seu espectro de malvadezas, Flávia Alessandra revela que, sempre que perde a "essência" da personagem, costuma rever trechos de filmes protagonizados pelas atrizes Bette Davis e Gloria Swanson. "Elas interpretaram personagens que oscilavam entre a vilania e a loucura. E faziam com maestria", derrama-se a mãe de Giulia, de cinco anos, fruto do casamento com o ator e diretor Marcos Paulo, de quem a atriz se separou em 2002.

É mais atraente interpretar mocinhos ou vilões?
Acho que o mais importante é fazer bons papéis, independentemente de ser uma mocinha ou uma vilã. Se a personagem é interessante, tem uma história legal, fica tudo mais fácil. O que me importa é fazer uma personagem que tenha um bom "recheio" para ser explorado. Mas as vilãs, geralmente, dão uma liberdade maior para interpretar, pois a gente pode utilizar todas as nuances que elas apresentam. Dá para brincar muito mais. A minha primeira vilã, a Lívia de Meu Bem Querer, nem era uma "vilãzona" realmente. Ela era, antes de tudo, uma antagonista, que, por conseqüência da trama, foi ganhando mais espaço e se tornando uma vilã mais apurada. Já a Cristina é uma vilã nata, que faz tudo para se dar bem, mas que guarda algumas surpresas, como o fato de também ter um resquício de bondade.

As vilãs criam reações de amor e ódio nos telespectadores. Em algum momento você ficou preocupada com a reação do público?Não tenho medo de interpretar uma vilã. A reação do público, é claro, sempre vai ser de ficar contra, o que é natural, mas também vão existir as pessoas que vão torcer pela Cristina. Se for para ser odiada, eu quero ser odiada. Mas espero que não esqueçam que é apenas uma personagem e que não confundam as coisas, como já aconteceu recentemente.

E o que aconteceu?
Um dia desses, estava no "playground" do prédio de uma amiga e, de repente, escutei um barulho muito próximo da gente. Logo em seguida, gritaram "Cristina!". Foi, então, que percebi que jogaram uma pedra de gelo de algum dos apartamentos. Isso é um pouco assustador, porque estávamos eu, ela e a filhinha dela, de um ano e alguns meses. Se, por acaso, o gelo atingisse uma de nós, iria machucar bastante. É o tipo de atitude que, claro, me preocupa. Espero que não confundam, porque não quero ser agredida e também não quero que ninguém que esteja comigo venha a se machucar. Que torçam a favor ou contra a personagem, tudo bem, não tem problemas. Mas não se pode passar dos limites que separam a realidade da ficção.

O que você acha que faz com que as pessoas fiquem tão furiosas com a Cristina?
Ela é um leque de sensações. É uma vilã que não é 100% vilã o tempo todo. Ela não é apenas uma pessoa seca, amargurada ou mal-humorada, que vive fazendo maldades. A Cristina também consegue ser sensível, engraçada e, quando tem que ser amiga, ela é. A personagem tem de tudo um pouco, são várias as facetas. Isso é o mais bacana. Está sendo uma delícia interpretá-la, porque posso explorar essas diversas nuances e sentimentos. É muito bom poder oscilar entre a vilania e o resto de bondade que ela também tem.

Durante o tempo que foi casada com o diretor Marcos Paulo, você fez algumas novelas dirigidas por ele. Chegou a ouvir comentários de que estava em determinada produção por ser "a mulher do diretor"?
Acho que todo mundo tem um pouco de Cristina dentro de si. Por mais que a gente tente superar, sempre resta uma pontinha de maldade. É claro que comentavam que eu estava fazendo novela por causa dele. Mas o mais engraçado é que essas mesmas pessoas que falavam isso pelas costas não se lembravam que eu já estava fazendo televisão antes de me casar com ele. Já havia iniciado minha carreira, viemos a nos conhecer algum tempo depois. Ficamos juntos enquanto ele ainda era ator também.

Mas ele nunca escalou você para uma novela?
Ele não tinha esse "poder" todo. O Marcos nunca mandou me escalar para o elenco de qualquer novela. Se as pessoas achavam e acreditavam que isso poderia ser verdade, estavam completamente enganadas. Conquistei meu espaço ao longo dos anos. Não foi o casamento que me proporcionou isso.

Os outros diretores não ficavam melindrados na hora de dirigir a esposa do diretor de núcleo?
Eles nunca se incomodaram com o fato de ser mulher do Marcos Paulo. Além disso, muitos desses diretores já haviam me dirigido antes de ser esposa dele. Sempre recebi o mesmo tratamento dado as outras atrizes e atores.

Você disse que todas as pessoas têm um pouco de Cristina dentro de si. E você, qual o seu ponto em comum com ela?
Não deixo aflorar esse meu lado mau. Consigo evitar que a maldade faça parte da minha vida. Não tenho nada mesmo a ver com a Cristina. E isso é que é o mais legal. É muito mais interessante fazer personagens distantes da nossa realidade e que não tenham pontos semelhantes com a gente. É um exercício a mais, é estimulante e dá muita satisfação em fazer. Ela é completamente diferente de mim e está sempre à minha frente, me encarando. É uma outra "persona" mesmo: tem gestual e pensamentos próprios, além de uma maneira de agir única, que difere da minha por completo.

Ao longo desses 16 anos na tevê, qual personagem era mais próxima da sua realidade?
Ao contrário da Cristina, todas as outras personagens que interpretei continham algum ponto parecido comigo. A Dorothy de A Indomada, por exemplo, era uma aprendiz de vilã, mas que tinha uma certa doçura que coloquei nela. Tirei essa doçura de mim mesma.

E qual delas você acha mais interessante?
É muito difícil dizer. Sempre gosto da personagem que estou interpretando no momento. A Dorothy, mais uma vez, foi muito importante na minha carreira, pois foi com ela que passei a ser notada e observada com mais atenção pelo público. As pessoas viram que existia algo por detrás daquele patinho feio que vivia sendo rejeitada. Foi através desse trabalho que conquistei a minha primeira protagonista, a Lívia de O Beijo do Vampiro.

Sua carreira é marcada por personagens na televisão. Não sente falta de fazer teatro e cinema?
É claro que sinto, porque fiz poucos trabalhos nessas duas áreas. No palco, atuei mais em infantis. Mas também participei de dois espetáculos grandiosos, como a Paixão de Cristo, em 2002, e o Auto de Natal, em dezembro do ano passado. Foram experiências únicas, mas que não têm aquele contato muito direto com a platéia como nos teatros convencionais. Já em cinema, vou estrear meu primeiro longa, No Meio da Rua, do Antonio Carlos Fontoura, até o final do ano. Espero receber mais convites e assim que terminar de gravar a novela, quero voltar à telona. Tive de recusar uma proposta, pois não dava para conciliar as gravações de Alma Gêmea com o dia-a-dia num set de cinema.

Mocinha reincidente
A carreira de Flávia Alessandra na televisão é marcada por mocinhas. A primeira delas foi aos 15 anos de idade, quando interpretou a adolescente Tânia em Top Model, de 1989. Escolhida num concurso promovido pelo Domingão do Faustão, Flávia surgiu na mesma novela em que foram lançadas as atrizes Gabriela Duarte, Adriana Esteves e Drica Moraes, além do ator Marcelo Faria. "Era tudo muito novo. Fiquei deslumbrada", lembra.

Com 16 anos de carreira, Flávia Alessandra tem um dado curioso no "currículo": já interpretou três Lívias. A primeira delas foi em Meu Bem Querer. As outras duas Lívia foram vividas na minissérie Aquarela do Brasil e na novela O Beijo do Vampiro. "É uma feliz coincidência", comenta.

O sucesso, porém, somente veio a acontecer na novela A Indomada, de 1997, onde a atriz "encarnou" a personagem Dorothy. Flávia Alessandra conta que foi na trama de Aguinaldo Silva que o público passou a observar com mais atenção a sua atuação. "Foi o verdadeiro divisor de águas na minha carreira. Agradeço muito o papel que recebi. A personagem era o patinho feio da história", compara.

Empolgada com o atual momento profissional, a atriz não esconde que ainda tem muito o que aprender. Ela garante, contudo, que gostaria de interpretar personagens cômicos. "Também tenho uma vontade imensa de fazer uma Helena do Manoel Carlos", avisa.

Trajetória televisiva
Alma Gêmea, de Walcyr Carrasco, 2005, Globo, Cristina.
O Beijo do Vampiro, de Antonio Calmon, 2002, Globo, Lívia.
Porto dos Milagres, de Aguinaldo Silva, 2001, Globo, Lívia.
Aquarela do Brasil, de Lauro César Muniz, 2000, Globo, Beatriz.
Meu Bem Querer, de Ricardo Linhares, 1998, Globo, Lívia.
A Indomada, de Aguinaldo Silva, 1997, Globo, Dorothy.
História de Amor, de Manoel Carlos, 1995, Globo, Soninha.
Pátria Minha, de Gilberto Braga, 1994, Globo, Cláudia.
Sonho Meu, de Lauro César Muniz, 1993, Globo, Inez.
Mico Preto, de Marcílio Moraes, 1990, Globo, Francisca.
Top Model, de Antonio Calmon, 1989, Globo, Tânia.

Entre dois amores
Apesar de uma carreira consolidada na televisão, Flávia Alessandra fez poucas participações em espetáculos teatrais e em cinema. Os principais empecilhos eram os cursos de Direito e de Comunicação Social, que a atriz começou a estudar assim que completou 18 anos. "Num primeiro momento, eu pensava que queria ser jornalista", relembra.

Flávia ressalta que nos dois primeiros anos de faculdade, tinha de se dividir entre as aulas de Direito pela manhã, estágio na parte da tarde e, à noite, no curso de Comunicação. "Mas abandonei a Comunicação. E, mesmo assim, só dava para estudar e fazer novela. Tanto que apenas fiz teatro infantil, pois os espetáculos eram aos sábados e domingos", entrega a atriz, que se formou em Direito.

Somente em 2002, Flávia Alessandra voltou aos palcos. O retorno foi grandioso, já que a atriz foi convidada para viver a arrependida Madalena na Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, interior de Pernambuco, onde interpretou para um público de cerca de 11 mil pessoas. Em dezembro de 2004, Flávia participou de outro espetáculo de grande porte. No Auto de Natal, realizado no Rio Grande do Norte, a atriz deu vida à Maria. "Somente se eu fosse cantora poderia ter contato com um público tão grande", compara.

Na tela grande, por sua vez, Flávia participou do curta-metragem O Pato Laranja. Rodado em 2002 e dirigido pelos alunos do curso do cineasta Zelito Viana, Flávia dividiu a cena com o colega Alexandre Borges, com quem havia trabalhado no mesmo ano em O Beijo do Vampiro. Em 2005, Flávia Alessandra vai estrear seu primeiro longa, No Meio da Rua, de Antonio Carlos Fontoura, que chega ao circuito até o final do ano. "Foi uma experiência muito diferente. Pretendo fazer novos filmes assim que terminar de gravar a novela", confessa.

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