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"América" causa polêmica entre brasileiros nos EUA

08 de abril de 2005 16h47 atualizado às 16h47

A novela  América   tem o desafio de repetir a alta audiência de  Senhora do Destino .. Foto: Márcio de Souza/Divulgação

A novela América tem o desafio de repetir a alta audiência de Senhora do Destino.
Foto: Márcio de Souza/Divulgação

A novela América está causando polêmica entre os brasileiros que vivem em Miami. Um grupo se vê retratado no drama da protagonista Sol para entrar nos Estados Unidos, enquanto o outro critica o que considera um exagero nas dificuldades enfrentadas pela personagem.

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"Estou achando a novela ótima porque muitos brasileiros que moram no Brasil não sabem o que as pessoas realmente passam para chegar até aqui", diz Cristina, que pediu que o seu verdadeiro nome não fosse publicado porque está ilegalmente no país.

"Eu acho que não existe alguém que esteja aqui que não se identifique com ela porque a intenção é a mesma. Todo mundo quer chegar (porque) tem um sonho", diz Mafalda, que saiu do Brasil há 12 anos.

Já Maria Rocha, de 51 anos, diz ter ficado decepcionada com o fato de a protagonista ainda não ter conseguido atravessar a fronteira para os Estados Unidos. "Achei meio exagerado."

Na realidade, a maioria dos imigrantes que está aqui ilegalmente entrou com visto temporário e acabou ficando.

Mas com as leis de imigração cada vez mais mais rígidas por causa do medo do terrorismo, histórias como a da personagem de Deborah Secco, que em uma das tentativas de entrar nos Estados Unidos pelo México se esconde dentro do painel de um carro, acontecem também na vida real.

Deserto
Depois de ser mandado de volta ao tentar entrar legalmente por Miami, Carlos resolveu ir pelo México. Diferentemente de Sol, ele não saiu do Brasil com um "coiote", como são chamados os agentes do esquema ilegal. Ele apenas consultou um como se fosse contratá-lo, para obter as informações.

"Ele me cobrou US$ 7,5 mil dólares e eu não tinha esse dinheiro para vir para cá", conta. "Ele me disse como eu fazia para descer na Cidade do México, para qual cidade eu ia, em que hotel eu ficava hospedado e onde tinha pessoas que faziam o contato para atravessar brasileiros."

Uma vez no México, Carlos pagou US$ 350 para um coiote mexicano que acompanhou ele e um grupo de imigrantes ilegais, incluindo cinco brasileiros, na travessia pelo deserto de Sonora, que faz fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Ele conta que andou 16 horas no meio do deserto, conseguiu se esconder dos helicópteros de patrulha, mas ainda assim acabou preso, depois de denunciado pelo funcionário de um posto de gasolina.

Carlos acabou conseguindo se legalizar porque pediu asilo alegando que estava sendo perseguido no Brasil, mas na maioria dos casos, a pessoa é simplesmente deportada para o seu país.

Vida de Ilegal
Mais do que o grau de fidelidade da novela à realidade, os brasileiros se dividem na discussão sobre se compensa ou não a experiência de viver ilegalmente no país.

A maior queixa dos ilegais é a perda do direito de ir e vir. Com os novos controles impostos pelas autoridades americanas, poucos se arriscam a deixar o país, com medo de não serem admitidos na volta.

A maioria fica anos sem ir ao Brasil, embora mantenha a cultura brasileira, falando português, comendo pratos nacionais e, agora, até assistindo às novelas pela Globo Internacional ou outras emissoras de olho nas comunidades de brasileiros mundo afora.

Eu acho que vale à pena, todo mundo que chega aqui consegue trabalho, se tiver disposição para trabalhar.

Cristina, que mora em Nova Jérsey com o marido e os três filhos, se ressente de não poder ir ao Brasil desde que chegou, há quatro anos, mas se diz satisfeita com o que conseguiu nos Estados Unidos.

"Com relação a trabalho, financeiramente, a gente está indo bem, agora falta a gente conseguir se legalizar. A gente espera que o (presidente George W. Bush) abra as portas de alguma forma", diz a brasileira. Cristina trabalha com limpeza de casas e o marido instala pisos, dois trabalhos bem remunerados em território americano.

Mas, com o cerco aos ilegais está se fechando ainda mais, a vida de quem está irregular no país está ficando mais difícil. O governo americano, por exemplo, impôs novas restrições para tirar carteira de motorista, exigindo que o candidato prove que está legalmente no país.

"Prisioneiro"
Já Mafalda lembra com rancor os tempos em que ficou ilegal no país, quando mantinha dois empregos e "gelava da cabeça aos pés" ao ouvir falar em Imigração.

Embora a sua situação já esteja regularizada, ela prefere não divulgar o sobrenome para evitar problemas com as autoridades.

"Eu passei seis anos sem poder ir ao Brasil ou, melhor, para lugar nenhum. Você fica como prisioneiro aqui. E eu tenho muitos amigos que ainda não podem viajar para fora dos Estados Unidos, têm que ficar aqui ilegalmente e sem direito a nada, se sujeitando a trabalhar no que for."

Mafalda, que atualmente trabalha em um banco, casou-se duas vezes apenas para conseguir o Green Card, visto de permanência. No primeiro caso, o "marido" que havia cobrado US$ 1,5 mil para cada entrevista na Imigração desapareceu quando ela precisava dele e depois passou a ameaçar denunciá-la às autoridades.

Segundo Mafalda, o personagem Alex, interpretado por Tiago Lacerda na novela, é apenas um dos vilões que aparecem na vida do imigrante ilegal.

"Tem um monte de gente aqui tentando tirar proveito dos ilegais. Não só no sentido da documentação, mas abusando da confiança e da necessidade das pessoas. Eu tive que pagar muito cartão de crédito por causa disso."

Fátima, que vive nos Estados Unidos há 13 anos, acha que, ao mostrar a vida próspera dos brasileiros que conseguiram entrar no país, "América" transmite a idéia de que as dificuldades terminam quando se atravessa a fronteira.

Ela chegou a ficar ilegalmente no país por cinco anos e, ao contrário de Cristina, acha que a experiência não vale à pena.

"Você sai do Brasil com aquela idéia de que aqui é tudo maravilhoso, de que consegue tudo. Quando você chega, você descobre que o sonho não é todo aquele porque o salário é de seis dólares, sete dólares a hora. Aí você acaba trabalhando para pagar conta. Se você ganha menos de US$ 25 mil por ano, é muito difícil aqui", diz o marido de Fátima, John.

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