Chávez palestra no Fórum Social Mundial em Porto Alegre |
Chávez falara mais cedo, em entrevista à imprensa, que o presidente Bush é um "superman lutando pela justiça", referindo-se à guerra contra o terrorismo que Washington lidera no mundo. "O que acontece é que nós temos criptonita vermelha e da boa", ironizou. "A maior força negativa deste mundo chama-se Estados Unidos", declarou.
À noite, no Gigantinho, afirmou que "algum dia a podridão interna vai botar abaixo o império" e que "emergirá o povo livre de Martin Luther King". Citou como exemplos dessa podridão interna a repressão crescente nos Estados Unidos e a Lei Patriótica.
Muito carismático, chegou a cantar para o público - um trecho de uma música sobre Che Guevara, falou dos netos, fez outras brincadeiras, homenageou as mulheres ("las tipas") e citou líderes como Jesus Cristo, Mao Tsé Tung, Che Guevara, Fidel Castro, Bolivar e Sandino, entre outros.
Ele reiterou para a platéia de 12 mil pessoas no Gigantinho que é um revolucionário. "A cada dia me convenço mais de que o único caminho para romper o domínio das elites sobre esta terra é a revolução", disse.
Chávez começou a falar depois do diretor do Le Monde Diplomatique, Ignácio Ramonet, e foi ovacionado pelos presentes durante todo o tempo. Foi logo anunciando que ia falar lentamente, para que todos pudessem entendê-lo melhor. "Não aprendi ainda o 'portunhol'. E o 'English', muito menos", brincou.
"Se não fizermos o que temos de fazer - construir um mundo melhor -, se não houver força suficiente no Sul para resistir ao imperialismo de Bush, o mundo vai rumar direto para a destruição", alertou Chávez.
Ele citou o MST como "um exemplo de luta para todo o continente", e disse que o movimento tem servido de modelo para os venezuelanos. Ao falar sobre sua viagem ao Rio Grande do Sul e os compromissos que cumpriu depois da chegada contou, em tom de brincadeira, que o líder do MST, João Pedro Stédile, disse-lhe que acompanhá-lo (Chávez) era "mais difícil que invadir terras".
O presidente venezuelano afirmou que foi a Porto Alegre porque o Fórum Mundial é o movimento social e político mais importante hoje e tornou-se, nestes cinco anos, uma plataforma sólida para o debate. Ele completou dizendo que a delegação venezuelana foi ao FSM para "aprender e apreender", encher-se de paixão e energia no evento que "reúne e dá voz a todos os excluídos do mundo". E agradeceu toda a solidariedade à Venezuela sempre demonstrada pelos ativistas.
O companheiro Lula
Durante a palestra de Chávez, houve algumas vaias ao governo Lula, e num momento em que o presidente venezuelano falou sobre líderes que, ao chegar ao poder, não cumprem o que o povo espera, sucumbem ao medo, parte da platéia gritou "Lula, Lula". Também havia um revezamento nos gritos entre manifestantes que gritavam contra o governo brasileiro e os que cantavam "Lula lá", defendendo o presidente.
Chávez falou, em determinado momento, que daria um recado, pediu atenção, disse que "para bons entendedores poucas palavras bastariam" e afirmou: "no primeiro capítulo de seu primeiro livro, Mao Tsé Tung ensina que, na revolução, é preciso ver bem quem são os verdadeiros amigos e quem são os reais inimigos".
O recado ficou ainda mais claro ao final do evento, quando o presidente venezuelano afirmou que não poderia falar da situação interna (referindo-se ao Brasil). Mas disse que nos seus dois primeiros anos de governo, muitos dos seus próprios companheiros reclamavam, tinham pressa, queriam radicalizar, e ele sentia que não era o momento. Disse que Lula é um bom companheiro, um homem de bem. "A revolução exige paciência, constância, trabalho e consciência", disse Chávez.
Vaias e aplausos
Junto a Chávez, estavam no palco o ministro das Cidades, Olívio Dutra, Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e integrante do Comitê de Organização Internacional do Fórum, o presidente da CUT, Luiz Marinho, e o diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, Ignácio Ramonet. Assim como Chávez, Olívio Dutra foi ovacionado e aplaudido, levando algumas vaias apenas quando citou - e defendeu - o governo Lula. Já Luiz Marinho não teve a mesma recepção. Ao ser anunciado seu nome, foi bastante vaiado, e durante os cerca de cinco minutos em que falou, teve que gritar para ser ouvido em meios às vaias e gritos de "pelego".
Ramonet também agradou, dizendo que o presidente venezuelano é um novo tipo de líder democrático e revolucionário. O diretor do Ibase saudou a candidatura da Venezuela a sede do Fórum Social Mundial nas Américas em 2006. A próxima edição do evento será realizada em mais de um continente e, em 2007, na África.
Público
Inicialmente marcado para 17h, o evento começou, mesmo, pouco antes das 20h. Mas por volta das 18h, a fila de gente para entrar no estádio ainda tinha cerca de cinco quilômetros. Ficaram do lado de fora do Gigantinho 13 mil pessoas, de acordo com a Brigada Militar. Dentro, 12 mil.
Encerrada a palestra, pouco depois das 22h, o presidente venezuelano iria dirigir-se ao Hotel Sheraton, para um jantar com o governador do Estado, Germano Rigotto.
Redação Terra