Marcha de abertura reúne 200 mil pessoas

26 de janeiro de 2005 • 18h50 • atualizado às 18h50
O presidente nacional do PT, José Genoino, participa da marcha
O presidente nacional do PT, José Genoino, participa da marcha
26 de janeiro de 2005
Carolina Bolsson/Terra

A marcha de abertura do Fórum Social Mundial 2005, em Porto Alegre, começou por volta das 18h30 desta quarta e reuniu cerca de 200 mil pessoas. As críticas ao governo Lula e ao presidente norte-americano George W. Bush marcaram a manifestação, na qual estavam presentes o ex-governador Olívio Dutra, o presidente nacional do PT, José Genoino, e o ministro da Reforma Agrária, Miguel Rossetto.

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    Genoino caminhou entre os manifestantes usando uma camisa do partido. Ele lamentou a saída do evento de Porto Alegre no ano que vem, mas ressaltou que isso faz parte do caráter democrático. Sobre as críticas ao governo Lula por alguns participantes, Genoino disse que "há erros e acertos, e as críticas são inevitáveis".

    Já Olívio, responsável pela realização do primeiro Fórum Social Mundial na capital gaúcha, vê com bons olhos a descentralização planejada para 2006. "O Fórum é uma conquista da humanidade e a internacionalização é natural", afirmou.

    Rossetto acredita que a internacionalização do FSM, que tem o PT entre um dos fundadores, é positiva por promover a cidadania a outras regiões do mundo. O ministro da Reforma Agrária prevê que o Fórum volte a Porto Alegre, porque "faz parte do perfil da cidade".

    Lula vira alvo
    Críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se somaram aos protestos contra o norte-americano George W. Bush e o neoliberalismo. "Que traição, que coisa triste, ex-operário governando para a elite", entoavam militantes do PSTU.

    O desempenho de Lula frente ao governo brasileiro foi criticado por diversos grupos de manifestantes, principalmente por dissidentes do PT, reunidos no P-SOL, e militantes do PSTU, cujas as bandeiras e faixas dominavam o espaço.

    Para o holandês Winnie Overbeek, 39 anos, as críticas ao presidente Lula são procedentes, mas acredita ser perigoso fazê-las de forma muita aberta, para não abrir espaço à direita. "O importante é dar um recado a Lula, que não concordamos com algumas políticas dele", disse o militante de um grupo ambientalista que luta contra a monocultura.

    As críticas, contudo, não intimidaram os petistas. "Nem militar nunca me assustou, imagina se vou me assustar com ex-companheiros", disse o funcionário público gaúcho Paulo Barbosa Coimbra, 53 anos, que segurava um pôster com a foto do presidente brasileiro.

    Mas se as críticas a Lula foram uma novidade em termos de Fórum Social, ainda havia manifestantes que demonstravam seu apoio incondicional ao presidente, como alguns que vestiam uma camiseta vermelha com os dizeres "100 % Lula".

    O outro chefe de Estado criticado, e representado em cartazes, bonecos e faixas foi o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. As críticas à administração Bush atingiram principalmente a política de guerra no Iraque e o "imperialismo" norte-americano ao redor do mundo. O presidente reeleito foi satirizado num cartaz em que aparecia com um bigode igual ao do ditador alemão Adolf Hitler.

    Participantes vêm de longe
    A carioca Beatriz Costa, que participou das edições de 2002 e 2003, pôde observar durante a marcha de abertura desta quarta-feira uma maior variedade de movimentos e vozes. "Este ano teve uma diversidade de grupos e de manifestações maior do que nos outros anos ou que nos outros anos não apareceram. Observamos integrantes dos movimentos pela água, dos palestinos, anarquistas, feministas e outros tantos grupos menores que só qualificam a complexidade da problemática", disse a educadora de trabalhadores.

    Questionada sobre a realização do evento no exterior, Beatriz considera a troca positiva. "A única vantagem que vejo com o evento sendo no Brasil é que nossos problemas e mazelas podem ser expostos e com isso ficam evidentes para o mundo inteiro", completou.

    Para Alan Alencar, estudante de Direto da Universidade da Amazônia (UNAMA) e Léslie Batista, estudante de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA), a Caminhada pela Paz abre um evento singular de protesto e de exposição de idéias. "É uma pena que são poucos dias, pois temos muitas reivindicações a fazer e gostaríamos poder participar de mais reuniões do Fórum", afirmou Alan, que, assim como Leslie, participa pela primeira vez do evento. "Isso aqui é um sonho, desde o início do Fórum eu quis poder participar e hoje eu consegui", disse a estudante dando os primeiros passos ao som do reggae à espera dos shows de abertura.

    Victoria Maneci, representante da Federação Comunista Argentina, percorreu todo o trajeto da marcha empunhando um mastro com duas bandeiras, uma da Argentina, e outra com o rosto do líder guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara. "Somos sete pessoas e está é a segunda vez que viemos. A marcha estava ótima e linda", afirmou sentada no gramado entre os companheiros.

    A professora aposentada uruguaia Dinorah Brune elogiou a pluralidade da marcha. "O movimento estava muito simpático, gracioso, alegre, querido, com diferentes reivindicações e variadas bandeiras".

    Representante da Frente Ampla Uruguaia, coalizão de partidos que elegeu em 2004 Tabaré Vasquez como o primeiro presidente de esquerda no Uruguai, ela participa do evento junto ao marido pela terceira vez e mostrou que esperança não tem idade: "Somos uma dupla de velhos incansáveis", disse deitada no colo do marido que lia tranqüilamente jornais em meio a centenas de jovens que aguardavam aos shows de abertura no Anfiteatro Pôr-do-sol.

    Assim como os trabalhadores rurais, mulheres, jovens e ativistas de vários movimentos sociais participaram da caminhada. De acordo com a Polícia Militar, não houve incidentes, embora a marcha tenha tumultuado o trânsito no centro da cidade.

    O final da marcha foi no anfiteatro Pôr-do-Sol, onde aconteceram os shows de abertura do Fórum, com a presença de Manu Chao e Gilberto Gil. A programação oficial de debates e oficinas do Fórum Social Mundial - criado como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça - inicia-se nesta quinta-feira, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no lançamento de uma campanha mundial de combate à pobreza.

  • Redação Terra
     
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