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Bovespa se descola de economia real e pode ocultar nova bolha

27 de setembro de 2009 15h16

Peter Fussy
Direto de São Paulo

A recuperação da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e da economia brasileira frente a crise financeira surpreendeu analistas e economistas, mas as duas podem estar caminhando em ritmos diferentes. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do País saiu do negativo no segundo semestre mas deve ficar estável no ano, o principal índice acionário do mercado nacional já avançou 61% em 2009. De acordo com economistas, a valorização é uma aposta no futuro da economia brasileira, mas pode esconder também uma possível "bolha", com preços altos demais.

Segundo levantamento da consultoria Economatica, o Ibovespa avançou 61,1% de 31 de dezembro de 2008 até 23 de setembro deste ano. Na América Latina, a recuperação da bolsa paulista só ficou atrás da verificada no Peru, onde o índice IGVBL subiu 118,9%, e da Argentina, onde o Merval registrou alta de 87,4% - valores em moeda local. Na Europa, o FTSEurofirst 300 acumula alta de quase 21% em 2009, enquanto nos Estados Unidos as bolsas ainda não mostraram recuperação expressiva - o Dow Jones valorizou apenas 11,1% e o Standard & Poor''s 17,5%.

Para o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP Manuel Enriquez Garcia, não há racionalidade no aumento dos preços das ações em comparação com o andamento da economia real. "Simplesmente o preço das ações está aumentando porque todo mundo acha que vai continuar aumentando. Não há uma relação forte entre o lado físico da produção e o mercado de ações. Está subindo muito rápido. Pode ser uma bolha que acabará estourando", afirmou.

Ao longo do ano, bancos e agências foram obrigados a revisar as estimativas de pontos do Ibovespa à medida que ele foi superando as expectativas. É o caso do Credit Suisse, que já elevou duas vezes a projeção para o final do ano, na última para 64 mil pontos. O Citigroup revisou a previsão de 60 mil para 65 mil pontos. Para o final do ano, uma onda de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) ainda promete aumentar o volume de negócios na bolsa paulista.

"De fato, no contexto dos emergentes, o Brasil tem mostrado bons fundamentos. Isso tudo promoveu uma alta da bolsa até surpreendente. Agora é o momento de a gente parar um pouco e analisar. Se for o início de uma bolha, ela pode ser furada com a alta da taxa de juro. Sugiro que em vez de fazer posições, o investidor deva observar as já feitas e, se o lucro tiver bom, sair da bolsa agora", aconselhou o economista Celso Grisi, do Instituto de Pesquisas Fractal.

Expectativa
O professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo Samy Dana explica que o preço de qualquer ação na bolsa de valores se dá pela expectativa futura e não pelo resultado atual das empresas. Segundo ele, as companhias brasileiras não tiveram prejuízos tão grandes quanto poderiam ter em decorrência da crise e isso criou um otimismo no investidor estrangeiro, que agora vê o País como um local mais seguro para colocar seu dinheiro.

"O ser humano é um pouco míope nestes casos. Quando você vê notícia boa, começa a projetar um cenário maravilhoso. Às vezes você tem só uma dor de dente e acha que vai morrer. Isso acontece também na bolsa. É claro que a economia não está esse sucesso todo, mas podemos ver que essa mudança reflete otimismo para o futuro. As empresas ainda não geram os lucros esperados, mas começam a mostrar sinais de que podem", disse Dana.

No entanto, a expectativa de lucros na Bovespa está reduzida agora e correções para baixo podem ocorrer, segundo o gestor da DLM Invista, Luiz Iani. Para ele, pode haver uma troca de setores em alta, com alguns subindo e outros descendo, mas na média a margem para quem quer investir agora é bem menor do que no início do ano, quando a bolsa chegou a atingir o fechamento mínimo de 36,7 mil pontos (9 de março).

"A economia real já deu sinais fortes de recuperação, e o mercado está precificando uma recuperação mais forte para ano que vem. Vamos ter que observar em breve se a economia vai responder por esses preços nos próximos meses. Não tem muito espaço para alta. O setor de varejo como um todo subiu expressivamente, assim como o próprio (setor) imobiliário. Podem ter correções", afirmou Iani.

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