inclusão de arquivo javascript

 
 

"Me deixo levar pelo coração", diz Eriberto Leão

04 de outubro de 2004 08h05

Eriberto Leão encara a vida de uma forma nada cética . Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

Eriberto Leão encara a vida de uma forma nada cética
Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

Eriberto Leão impressiona pela forma nada cética com que encara a vida. Frases como "As coisas acontecem na hora certa", "Não era para ser" ou "me deixo levar pelo coração" surgem com freqüência quando ele fala sobre a sua trajetória profissional. O trabalho em Cabocla só o faz levar essa filosofia ainda mais a sério.

Veja as fotos do ator!
Leia o resumo de Cabocla

Aos 32 anos de idade e 12 de carreira, Eriberto acha que atingiu a maturidade necessária para interpretar um tipo de forte carga dramática como o sensível peão Tomé. Tanto que ele é, disparado, seu personagem de maior destaque na tevê e marca sua volta para a Globo depois de sete anos - Eriberto só tinha feito uma novela na emissora, O Amor Está No Ar, de Alcides Nogueira. "Fiz testes na Globo nesse tempo e não passei. O de Cabocla foi o melhor, por isso só voltei agora. A hora era essa", confirma com ar profético.

O perfil do personagem também leva Eriberto a acreditar que era o melhor ator para interpretá-lo. A simplicidade, uma das características mais marcantes em Tomé, é a que o ator mais busca apresentar no dia-a-dia. "A pior coisa é se iludir com o sucesso e achar que já sabe tudo. O filósofo Baruch Espinosa falava que se você vive com ética e humildade entra em sintonia com um destino bom", explica Eriberto, que vê no colega de elenco Tony Ramos, que interpreta o Coronel Boanerges, o melhor exemplo desse comportamento na sua profissão.

"Ele é a grande estrela da novela e o mais humilde. Então acaba influenciando os outros atores. Quero ser um exemplo para as pessoas assim como o Tony é", derrama-se.

Nos bastidores de Cabocla, segundo Eriberto, todos foram "contagiados" pelo comportamento de Tony Ramos. "Todos se dão bem, não tem competição. É uma novela feita com amor, verdadeira e simples, por isso agrada o público", empolga-se o ator, que nunca foi tão abordado nas ruas quanto agora.

São constantes os elogios pelo seu desempenho e a torcida para que Tomé se acerte de vez com Tina, vivida por Maria Flor. "Mas é impressionante como falam da novela em si. Todo mundo gosta", valoriza. Leia a seguir a entrevista com o ator:

P ¿ Na versão original da novela, o Tomé morre numa emboscada e agora ele vai terminar feliz, provavelmente ao lado da Tina. Você atribui essa mudança a empatia do seu personagem com o público ou a do casal?
R ¿ Acho que as duas coisas contribuíram para que o Tomé não morresse. E também a cara que eu e o Malvino Salvador, que faz o Tobias, demos para esses peões. Eles são rudes e rústicos, mas sensíveis ao mesmo tempo. Acredito que isso tenha feito com que eles conquistassem as pessoas.

P ¿ Outro acontecimento que não existia na versão original da novela é a volta da Rosa, que já foi anunciada. Você se envolve com a história ponto de torcer por esse ou aquele desfecho para o personagem?
R ¿ Queria mesmo que a Rosa voltasse e o Tomé tivesse que optar entre ela e a Tina. Não sei qual das duas eu prefiro, preciso ver o que a Rosa vai falar e que atriz vai fazer. Mas acho difícil que eu funcione melhor em cena com outra atriz do que com a Maria Flor. Desde que fizemos o teste juntos percebi que ia dar certo. Temos a mesma maneira de interpretar, com o coração. Não combinamos nada antes da cena, deixamos fluir e tudo acontece na maior facilidade. É a primeira vez que tenho essa sintonia com alguém, nas outras novelas era normal.

P ¿ Você diz que se identifica com o Tomé pela simplicidade. Que outros valores tem em comum com ele?
R ¿ Lealdade e idealismo, que não é político, mas de vida. Busco o tempo todo ser uma pessoa honrada, justa e acreditar em códigos de ética. Mas tem um lado dele que não concordo, que é o de ficar sofrendo tanto por amor. Ele esperou pela Rosa, que fugiu da cidade, mais de dois anos. Jamais faria isso.

P ¿ Você fez muitos personagens dramáticos no teatro, como Jesus Cristo na peça O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Acredita que isso o ajudou a conseguir o papel em Cabocla?
R ¿ Não me considero um ator dramático. Adoro fazer comédia, me acho engraçado, mas realmente minha trajetória no teatro é de peças fortes. Acho que isso ajudou, mas estou aprendendo diariamente ainda. Sou muito autocrítico, fico o tempo todo me observando, vendo aonde posso melhorar minha maneira de atuar. Mas não sou de assistir minhas cenas e achar tudo ruim. Poucas vezes nessa novela vi cenas minhas que não gostei. Estava preparado para fazer uma novela dessa qualidade, tanto que está dando certo. Recebi uma resposta positiva tanto do público quanto da direção. Isso é natural, a gente vai amadurecendo, já tenho 12 anos de carreira. Se você tem vocação e tenta fazer o melhor, sempre as coisas dão certo.

P ¿ Quando você percebeu que tinha vocação?
R ¿ Na infância e na adolescência era uma peste, embora fosse tímido para certas coisas. Então minha mãe me botou para fazer teatro no colégio, achando que poderia me ajudar. Logo peguei gosto pela coisa, mas fui expulso do curso de teatro no mesmo ano em que entrei. Tinha 15 anos. Quando acabei o colégio me matriculei no Instituto Célia Helena, uma das escolas de teatro mais conceituadas de São Paulo. Um ano depois, quando acabou o curso, prestei vestibular para a EAD, Escola de Artes Dramáticas, em São Paulo. Fazia administração e conciliei as duas faculdades. Quando terminei tudo fui estudar interpretação em Nova Iorque. Fiquei lá um ano e pouco e quando voltei logo consegui o primeiro trabalho. Foi numa novela religiosa que passou na TV Gazeta, Antônio dos Milagres. Fazia Santo Antônio, o protagonista. Depois não parei mais de trabalhar.

P ¿ Mas só agora você está se destacando na tevê. Acha que daqui para frente vai ter mais espaço no veículo?
R ¿ Quero que Deus conspire a meu favor, aponte o meu caminho. Acredito que existe uma energia que o leva a fazer o que vai ser melhor para você naquele momento. Mas para que isso aconteça você tem de acreditar. Quando Moisés passou pelo mar vermelho e a água levantou, todos que estavam lá acreditavam que isso ia acontecer. Além disso, faço o melhor que sou capaz, então não fico preocupado com o que vai acontecer. Se não aparecer trabalho, tenho projetos na manga. Um deles é uma peça sobre o Jim Morisson. Mas nesses anos todos não precisei produzir nada porque as coisas foram rolando. Tenho uma carreira teatral sólida, mas as pessoas não conhecem carreira teatral de ator. Se você não está fazendo novela, não está fazendo nada.

P ¿ Depois de um início nômade na tevê ¿ passou pela Gazeta, Band e Record ¿ você torce para se firmar na Globo?
R ¿ Minha vida está nas mãos de Deus, não sei onde ele vai me levar e se soubesse não teria graça. Tudo sempre conspira a favor e a arte é autônoma. Os personagens te escolhem e não você os escolhe. Vou ver por qual vou ser escolhido agora. Mas independentemente de continuar na Globo, vou ser feliz porque Cabocla foi um momento muito especial. A novela foi conseqüência de outros trabalhos e não sei para onde vai me levar. Mas sei que o melhor vai me acontecer. Pode ser fazendo cinema ou teatro. Como já falei, tenho meus projetos na manga. Também penso em fazer uma viagem para me reciclar. Já morei em Nova Iorque e quero voltar para estudar.

P ¿ Que lembranças você guarda do trabalho nas outras emissoras?
R ¿ Acho que me tornei um ator mais flexível e humilde. E é a através da humildade que a inspiração vem para mim. A precariedade que existe nas outras emissoras te faz dar mais valor a uma novela como Cabocla, que proporciona todas as condições para realizar um bom trabalho. E você também não dá tanto a cara a tapa porque muito menos gente está te vendo. Pude errar para agora arriscar um vôo mais certeiro.

P ¿ Cabocla está entrando na reta final. Qual o balanço que você faz desse trabalho?
R ¿ Melhor impossível. Cabocla caiu no gosto do público, todo mundo que me aborda comenta que a novela é muito boa. Me sinto honrado de ter feito parte desse trabalho, que vai ficar na memória das pessoas como uma novela especial. Sem contar que amadureci muito como ator contracenando com feras como Tony Ramos, Mauro Mendonça e Vera Holtz. Foi uma grande escola e uma família, todo mundo se gosta e faz um trabalho verdadeiro.

Trajetória espiritual
A carreira de Eriberto Leão é marcada por personagens religiosos. Logo no seu primeiro trabalho na tevê, a novela Antônio dos Milagres exibida em 1996 pela Gazeta de São Paulo, ele interpretou Santo Antônio, o protagonista da trama. Em Serras Azuis, da Band, fez um padre. E em Marcas da Paixão, da Record, o personagem era um agrônomo que, após passar uns tempos estudando e trabalhando num kibutz israelense, vivia tendo visões de coisas ligadas ao judaísmo, como a estrela de Davi.

No teatro, interpretou Jesus Cristo duas vezes - em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, baseada no livro homônimo de José Saramago, e em Alma de Todos Os Tempos. Essa coincidência é curiosa principalmente porque Eriberto tem total intimidade com o assunto. Desde pequeno, ele procura entender sobre diversas religiões. Já estudou Hinduísmo, Cabala, Cristianismo, principalmente, e até alquimia medieval. Além da Bíblia, leu o Alcorão todo. "Me interesso por tudo que busca a essência divina", explica o ator.

Eriberto acredita que esse interesse por religião é influência da avó materna, que é uma estudiosa do assunto e faz até poesia sobre isso. A mãe também herdou esse lado. "Ela sempre me deixava bilhetinhos no café da manhã que me levavam a refletir sobre a minha missão na terra. Recebi muita influência, mas gostar de religião é uma predisposição minha. Lia a Bíblia na infância e ficava fascinado", conta Eriberto, que por incrível que pareça, não segue uma religião. "A minha religião é o amor. Mas gosto muito de Cristo, ele é o grande mestre de todos", empolga-se.

Apesar de se identificar tanto com religião, Eriberto prefere interpretar personagens que não tenham a ver com o assunto daqui para frente. "Foi uma parte boa da minha carreira, mas não quero ficar estigmatizado. Afinal, não sou profeta", justifica. Por isso mesmo, o peão Tomé de Cabocla é visto por ele como o início de uma nova fase. "Antes buscava muita informação e agora quero a simplicidade. O Tomé é assim, um homem simples do campo. Combina mais com o meu momento", conclui.

Caso de amor
Mesmo nascido e criado em São Paulo, Eriberto Leão se considera um carioca. O ator morou no Rio de Janeiro pela primeira vez em 1997 para fazer a peça Ventania e acabou ficando mais tempo que o previsto na cidade porque o autor da peça, Alcides Nogueira, o chamou para atuar na novela O Amor Está No Ar, que escreveu para a Globo no mesmo ano. "Me sinto melhor no Rio que em qualquer outro lugar. Gosto da natureza, da praia, e de andar vestido à vontade. O estilo da cidade tem mais a ver comigo", constata.

Mesmo apaixonado pela vida no Rio, Eriberto voltou para São Paulo após ser seduzido por uma proposta para entrar na banda de rock Hip Monsters, que já era conhecida no cenário alternativo paulistano. Enquanto cantava na banda, Eriberto deu continuidade à carreira de ator em São Paulo. Fez a novela Serras Azuis, na Band e Marcas da Paixão, na Record.

Mas uma temporada da peça O Evangelho Segundo Jesus Cristo no Rio levou Eriberto novamente para a Cidade Maravilhosa em 2002. Desde então resolveu não voltar mais para São Paulo. E sentiu que tinha tomado a decisão certa quando recebeu um convite do diretor Antônio Abujamra para fazer a peça As Bruxas de Salém e na seqüência surgiu outra, O Karma Cor-de-Rosa. "Logo depois passei no teste de Cabocla. Tudo conspirou para eu ficar no Rio", acredita.

Trajetória televisiva
# Antônio dos Milagres, de Geraldo Vietri (Gazeta, 1996) ¿ Santo Antônio.
# O Amor Está No Ar, de Alcides Nogueira, Bôsco Brasil e Felipe Miguez (Globo, 1997) ¿ João.
# Serras Azuis, de Ana Maria Moretzsohn (Band, 1998) ¿ Padre Walter.
# Marcas da Paixão, de Solange Castro Neves (Record, 2000) ¿ Ivan.
# Cabocla, de Benedito Ruy Barbosa (Globo, 2004) ¿ Tomé.

TV Press
  1. Eriberto Leão encara a vida de uma forma nada cética  Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

    Eriberto Leão encara a vida de uma forma nada cética

    Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

  2. Eriberto acha que atingiu a maturidade necessária para interpretar um tipo de forte carga dramática  Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

    Eriberto acha que atingiu a maturidade necessária para interpretar um tipo de forte carga dramática

    Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

  3. Eriberto Leão e Natália do Laje em cena de O Amor está no ar  Foto: Divulgação

    Eriberto Leão e Natália do Laje em cena de O Amor está no ar

    Foto: Divulgação

  4. Eriberto Leão em cena de Marcas da Paixão  Foto: Divulgação

    Eriberto Leão em cena de Marcas da Paixão

    Foto: Divulgação

  5. Eriberto Leão em cena de Serras Azuis  Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

    Eriberto Leão em cena de Serras Azuis

    Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

  6. Eriberto Leão e Malvino Salvador no intervalo das gravações  Foto: Globo/Divulgação

    Eriberto Leão e Malvino Salvador no intervalo das gravações

    Foto: Globo/Divulgação

  7. A personagem de Maria Flor vai ser apaixonada por Tomé, vivido por Eriberto Leão  Foto: Gianne Carvalho/Globo/Divulgação

    A personagem de Maria Flor vai ser apaixonada por Tomé, vivido por Eriberto Leão

    Foto: Gianne Carvalho/Globo/Divulgação

/foto/0,,00.html