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"Perdi o medo de novela", diz Matheus Nachtergaele

26 de abril de 2004 07h07 atualizado às 07h07

Matheus Natchergaele estreou em novelas em  Da Cor do Pecado. Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Press

Matheus Natchergaele estreou em novelas em Da Cor do Pecado
Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Press

O ator Matheus Nachtergaele não se considera um sujeito supersticioso. Nem um pouco. Só não abre mão de vestir branco toda sexta-feira. Ou de manter um dente de alho no umbral da porta de casa para evitar mau-olhado. "Outro dia, vi um gato preto passar bem na minha frente. Sabe o que fiz? Virei o rosto e ele passou do meu lado", diverte-se.

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Na verdade, Matheus se define como um "ateu com presságios". Dos últimos que teve, cita justamente o de fazer o Pai Helinho de Da Cor do Pecado, que marca sua estréia em novelas. "Acredito muito nos sinais da vida que somos capazes de ler e interpretar. Se você estiver atento ao que acontece ao seu redor, tudo dá certo", garante.

Aos 34 anos, Matheus só aceitou fazer a novela porque o convite partiu do autor João Emanuel Carneiro. Os dois se conheceram em 1998, quando o ator fez Central do Brasil, dirigido por Walter Salles e escrito por João Emanuel. Depois disso, voltaram a trabalhar juntos em Extraviado e O Primeiro Dia.

Desde que despontou na tevê, como o travesti Cintura Fina de Hilda Furacão, Matheus tem sido assediado para debutar no gênero. Cauteloso, preferiu atuar em produções de menor duração, como A Muralha e O Auto da Compadecida. "Tenho plena confiança no João. Estaria fazendo a novela independentemente do papel que me propôs. Ele nunca me colocaria numa roubada", destaca.

De fato, o Pai Helinho é um dos mais carismáticos de Da Cor do Pecado. Prova disso é que, todo santo dia, o ator não sai de casa sem ouvir alguém repetindo o bordão "pepepeô", que o falso vidente pronuncia sempre que incorpora um espírito qualquer. Trambiqueiro, Helinho promete de tudo um pouco aos clientes: desde curar uma simples enxaqueca até trazer a pessoa amada em três dias. Entre as vítimas favoritas do falso pai-de-santo estão viúvas desoladas, como a fogosa Tancinha, de Vanessa Gerbelli, que o procurou para ter notícias do finado marido, o ciumento Feitosa. "Perdi o medo que tinha de novela. Descobri que a flor pode nascer em qualquer lugar. Até mesmo na voracidade da telenovela", observa. Leia a seguir a entrevista com o ator:

P - Você costumava se referir às novelas como "naus sem rumo". Ainda pensa assim?
R - Eu acho que muitas delas são naus sem rumo mesmo. Só entrei nessa porque sabia que ela teria um rumo. Sei que ela tem um comandante vigoroso no leme. Ele pode até ser um comandante de primeira viagem, mas está no comando da embarcação. É claro que o fato de a novela ter feito sucesso garantiu o leme. A gente sabe que, se ela não tivesse dado certo, talvez estivesse à deriva. E esse sempre foi o meu medo. É claro que há sempre um redemoinho aqui, outro ali, mas isso é próprio do folhetim. Mas, pelo menos, por enquanto, a nau está indo para onde me disseram que ela iria...

P - Pode-se dizer que, antes de fazer Da Cor do Pecado, você tinha um certo preconceito em relação ao gênero?
R - Tinha sim. O ambiente de Da Cor do Pecado não é o ambiente doentio que algumas pessoas me descreveram. E que também me fizeram adiar a experiência. Alguns diziam: "Ah, você é esperto porque só faz o filé mignon da televisão. Quero ver você numa novela, fazendo aquelas cenas horrorosas e agüentando aquela gente mal-humorada...". Sinceramente, não é isso que eu estou vendo em Da Cor do Pecado. Primeiro, porque todas as cenas da novela são realmente boas. Todas as cenas de todos os personagens. E, segundo, porque como são poucos personagens, todos os atores estão felizes, satisfeitos... Hoje, estou convencido de que é possível fazer um trabalho bonito também em novela.

P - Por ser estreante em novelas, qual o maior desafio que você enfrentou no início das gravações?
R - O maior desafio foi o de estar inteiro, sincero, em estado de arte, como costumo dizer, em todas as cenas que gravo. Quando você começa a demonstrar cansaço, a novela mal engrenou. Como, então, permanecer vivo num trabalho grande, voltado para as massas, com pouco ou quase nenhum ensaio? O grande desafio foi mesmo ter ânimo, saúde e fôlego para fazer tantas cenas durante tanto tempo. Felizmente, a novela é também a primeira de um ótimo autor, com fôlego suficiente para fazer um ótimo trabalho. Eu realmente confirmo o que já disse: a flor pode nascer em qualquer lugar. Até na voracidade da telenovela.

P - O que mudou na sua vida depois da novela?
R - Ah, muitas coisas... Principalmente a quantidade de gente que vem falar comigo na rua. Isso já havia acontecido na época de "O Auto da Compadecida". Mas, como apareço todos os dias numa novela de sucesso e com um personagem carismático como o Helinho, o assédio só fez aumentar. O que me obriga, de vez em quando, a ficar mais em casa. Tenho evitado, por exemplo, de ir ao shopping ou ao cinema. Não que eu fique desagradado ou que as pessoas me agridam. Absolutamente. Acontece que nem sempre você está com vontade de conversar ou de falar sobre o seu trabalho...

P - Você tem ouvido muito "pepepeô" por aí?
R - Muito. Mas tenho de admitir que é uma delícia. A criançada, principalmente, adora o Helinho. E elas ficam repetindo o gesto do "pepepeô" o tempo todo. E eu não tinha idéia se esse negócio pegaria ou não. Lembro que, no começo, algumas pessoas até criticaram o Helinho dizendo que ele era um desrespeito ao candomblé. Olha, me desculpem, mas essa crítica não faz o menor sentido. Porque o Helinho não é candomblé, nem umbanda, nem coisa alguma... O Helinho é, sim, uma grande brincadeira. Mas, desde o começo, achei que ele precisava de um bordão que fosse um "mix" dessas religiões. Pensei, então, em algo que fosse um sinal-da-cruz misturado a uma mandinga qualquer, tipo "Sai de mim!". Foi então que criei o tal do "pepepeô", que não quer dizer absolutamente nada...

P - Você segue alguma religião?
R - Não, eu continuo me definindo como um "ateu com presságios", porque o âmbito das coisas que eu não entendo é tão grande que eu seria leviano se não acreditasse em nada. Só não participo de nenhuma religião, nem consegui até hoje introjetar a idéia de um deus específico. Mesmo assim, tenho uma sensação religiosa, não sou um cara totalmente materialista. Nem seria possível sê-lo. Qualquer pessoa sensível percebe que tem algo que ultrapassa aquilo que você pode compreender. E é preciso algum silêncio, alguma meditação, diante disso. Eu confesso que tenho sentido necessidade desse silêncio, dessa meditação. Aliás, estou lendo até um livro sobre a imortalidade da alma, livro que seguramente não leria antes do Helinho.

P - Qual é a função social do ator?
R - Olha, continuo achando que o ator é a possibilidade do homem de se enxergar, se conhecer e, principalmente, se melhorar. O ator é o ser que se coloca à disposição para que se chorem as dores do mundo e para que se riam as gargalhadas do mundo. Só assim poderemos entender quem somos e quem podemos ser. E para isso é preciso que o ator tenha a coragem de se expor. Porque, quanto mais ele se expõe, mais os outros conseguem enxergar de si mesmos.

P - Quando você se sentiu mais exposto na carreira?
R - Ah, em vários momentos. No próprio Helinho. Não acho que ele deva ter uma função mais profunda do que alegrar e divertir. Mesmo assim, quando você ri ou faz rir, já está criticando alguma coisa. Mas já estive exposto também no João Grilo. É até engraçado dizer isso, mas ele foi um dos que mais me expôs. Quando vi o Grilo, percebi que aquilo era mais do que uma simples farsa de costumes. Aquilo era uma pequena peça de revolução social. O Grilo é um cara subversivo, um gabiru tentando sobreviver no meio dos poderosos. Nunca fiz o Grilo sem lembrar que ele passava fome. Isso é bom para tirar de vez o preconceito que possa existir contra a comédia.

P - Você se preocupa, por exemplo, de não repetir tipos?
R - Não mais. A verdade é que não existem mais tipos do que os que existem nas cartas de um tarô. Essa cobrança que se faz para que os atores não se repitam é uma tortura meio inútil, sabe... Inevitavelmente, você vai reencontrar alguns tipos pela vida afora. Já percebi, por exemplo, que não sou o ator que o mundo escolheu para viver heróis românticos. Outros fazem isso melhor do que eu. No entanto, consigo encarnar outros tipos. E muitos deles, necessariamente, vão se repetir. Quer um exemplo? O João Grilo se repete no Helinho, com novas tonalidades. Os dois representam o malandro sobrevivente. Não tenho como fugir disso. Senão, teria de parar.

P - Você é sempre apontado como um dos atores mais talentosos de sua geração. O que acha disso?
R - Depende. Quando estou bobo, fico prosa. Mas, quando estou lúcido, entro em pânico. Isso é uma afirmação que nunca deveria ser feita. Prefiro que as pessoas digam que sou um dos atores mais ativos do Brasil. Porque isso eu sou mesmo. São muitos os atores ativos, mas eu me incluo entre eles. Sou um ator interessado, disposto, presente, angustiado... Ainda tenho muito a aprender. Já essa eleição maluca me coloca numa situação complicada. O importante é eu não acreditar nisso. Seria uma loucura se acreditasse. Tenho apenas de pensar que esse título não passa de um grande elogio para eu continuar trabalhando.

No escurinho do cinema
Foi a atriz Fernanda Torres quem abriu as portas do cinema para Matheus Nachtergaele. O diretor Bruno Barreto estava selecionando o elenco do filme O Que É Isso, Companheiro? quando comentou com ela que precisava de um rosto novo, ainda desconhecido do grande público, para interpretar o guerrilheiro Jonas, um dos mais radicais do grupo MR-8, responsável pelo seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick.

Imediatamente, Fernanda lembrou-se daquele ator de nome impronunciável que ela havia visto na peça O Livro de Jó, de Antônio Araújo. "Tenho tido a sorte de fazer filmes bastante vistos. Acho que tenho faro para sentir o carisma do projeto", arrisca ele.

Logo, Matheus tornou-se uma espécie de "talismã" do cinema nacional. Afinal, O Que É Isso, Companheiro? foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro daquele ano. O ator voltou a dar sorte ao Brasil em duas outras ocasiões: em Central do Brasil, de Walter Salles, e em Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, ambos merecedores de seis indicações ao todo.

Nos dois filmes, Matheus mostrou versatilidade ao assumir, respectivamente, um ingênuo nordestino e um traficante carioca. De lá para cá, voltou a aparecer em filmes, como o infantil Castelo Rá-Tim-Bum, o policial Bufo & Spallanzani, e o "thriller" psicológico Gêmeas.

A paixão por cinema é tanta que Matheus resolveu conciliar as gravações da primeira fase de Da Cor do Pecado, rodada em São Luís, no Maranhão, com as filmagens de Árido Movie, de Lírio Ferreira, em pleno sertão pernambucano. "Tenho mania de fazer tudo ao mesmo tempo. Coisas de capricorniano", tenta explicar.

Ainda este ano, Matheus pretende estrear na sétima arte também como autor e diretor. É dele o roteiro de A Festa da Menina Morta, ainda em fase de captação de recursos. "O desafio é continuar sempre. Quando você acha que chegou a algum lugar, abre-se sempre um novo abismo à sua frente. Fazer arte é uma eterna caminhada", filosofa.

Vida de artista
Matheus Nachtergaele tinha apenas oito anos quando se interessou pela arte de representar. Mais especificamente, pela novela Escrava Isaura, a primeira a que assistiu do início ao fim. O motivo de tanto fascínio tem nome e sobrenome: Lucélia Santos. "Foi a primeira vez que fiquei fã de alguém", recorda ele.

Mais tarde, porém, prestou vestibular para Veterinária. Anos depois, já cursando Artes Plásticas na FAAP, foi encorajado por uma amiga a fazer teste para a companhia de Antunes Filho. Às vésperas de encenar Paraíso Zona Norte, foi cortado pelo diretor. "Ele disse que eu era ansioso demais. Quase pirei", recorda.

Desiludido da vida, Matheus resolveu morar na terra natal de seu pai, o engenheiro Jean Pierre Leon François Nachtergaele. Na Bélgica, pensou em estudar teatro ou trabalhar com quadrinhos. Durante um ano, porém, cantou em boates de Bruxelas e Paris. "Lá em casa, tem sempre uma cigarra na família", brinca.

De volta ao Brasil, ingressou na Escola de Artes Dramáticas e montou o grupo Teatro da Vertigem. "Se não fosse ator, seria veterinário. Adoraria ganhar a vida como cinegrafista da National Geographic, estudando espécimes raros", sonha.

Do teatro, Matheus logo migrou para o cinema e a tevê. A atuação como o travesti Cintura Fina em Hilda Furacão valeu o prêmio de ator revelação da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte. "Como sou muito crítico, prêmios amenizam a desconfiança que tenho do meu trabalho", exagera.

Trajetória televisiva

# O Auto da Compadecida, de Guel Arraes e João Falcão. (Globo, 1999) - João Grilo.
# A Muralha, de Maria Adelaide Amaral e João Emanuel Carneiro. (Globo, 2000) - Padre Miguel.
# Os Maias, de Maria Adelaide Amaral. (Globo, 2001) - Teodorico Raposo.
# Os Pastores da Noite, de Cláudio Paiva, Guel Arraes e Sérgio Machado. (Globo, 2002) - Curió.
# Da Cor do Pecado, de João Emanuel Carneiro. (Globo, 2003) - Pai Helinho.

TV Press
  1. Matheus Natchergaele é coniderado um dos melhores atores da sua geração  Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Press

    Matheus Natchergaele é coniderado um dos melhores atores da sua geração

    Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Press

  2. Matheus Natchergaele estreou em novelas em Da Cor do Pecado  Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Press

    Matheus Natchergaele estreou em novelas em Da Cor do Pecado

    Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Press

  3. Em Da Cor do Pecado, Nachtergaele vive o vidente Helinho, o amigo de Preta, vivida por Taís Araújo  Foto: Divulgação

    Em Da Cor do Pecado, Nachtergaele vive o vidente Helinho, o amigo de Preta, vivida por Taís Araújo

    Foto: Divulgação

  4. Matheus Nachtergaele e Taís Araujo em cena de Da Cor do Pecado   Foto: Divulgação

    Matheus Nachtergaele e Taís Araujo em cena de Da Cor do Pecado

    Foto: Divulgação

  5. Matheus Natchergaele em Pastores da Noite  Foto: Divulgação

    Matheus Natchergaele em Pastores da Noite

    Foto: Divulgação

  6. Na minissérie Os Maias, Matheus Natchergaele também mostrou seu talento  Foto: Divulgação

    Na minissérie Os Maias, Matheus Natchergaele também mostrou seu talento

    Foto: Divulgação

  7. Depois do filme O Auto da Compadecida, Matheus Natchergaele ficou muito popular  Foto: Divulgação

    Depois do filme O Auto da Compadecida, Matheus Natchergaele ficou muito popular

    Foto: Divulgação

  8. Matheus Natchergaele contracenou com Paulo José em A Muralha  Foto: Divulgação

    Matheus Natchergaele contracenou com Paulo José em A Muralha

    Foto: Divulgação

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