Inflação turbina juro futuro e exagera projeção de Selic

19 de junho de 2008 • 19h41 • atualizado às 19h41

Temores de que a política monetária sozinha não dará conta de brecar a escalada dos preços e um "prêmio" considerado normal em épocas de inflação alta levaram os juros futuros a um certo exagero, nublando o papel de referencial para a Selic.

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Segundo analistas, a perspectiva é de que o mercado continue volátil até que a inflação corrente se acalme e que tal movimento se reflita em uma contenção das previsões, sobretudo para 2009.

"O mercado costuma potencializar, exagerar um pouco nos movimentos. A questão é que a inflação está vindo pressionada e vai fazer com que o BC atue. O mercado reflete apenas o exagero e a incerteza (sobre o tamanho das altas do juro)", afirmou Rodrigo Boulos, diretor de tesouraria do Banif Banco de Investimento.

Economistas projetam, segundo a pesquisa semanal do Banco Central, inflação de 5,8% neste ano, acima do centro da meta de 4,5%, e Selic a 14,25% ao ano em dezembro, frente aos atuais 12,25%.

No mercado futuro, o juro básico projetado para o fim de 2008 é maior em cerca de 0,50 ponto percentual, pelas contas de operadores. Para 2009, a diferença nas projeções é mais significativa.

Enquanto o Focus aponta Selic a 12,75%, o DI correspondente foi cotado nesta quinta-feira na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) em 14,72%. Nas contas do gerente de renda fixa de um banco, isso indica 1,4 ponto percentual acima da taxa mostrada pelo Focus.

Sidnei Moura Nehme, diretor da corretora NGO, acredita que a parte longa da curva de juros está "desacreditando" da eficácia da alta da Selic para conter a inflação - que reflete, em grande parte, o aumento internacional dos preços de commodities.

"O mercado deixa evidente essa insegurança", disse. Para Nehme, o avanço dos DIs mais longos mostra a avaliação de que, no ritmo de 0,50 ponto percentual, o ciclo de aperto monetário terá que durar mais.

Ele acrescentou que os mercados futuros gostariam de ver medidas adicionais contra a inflação e, sem isso, os contratos continuarão apostando em elevação da Selic em uma magnitude maior.

"O governo precisará ampliar sua participação com cortes nos gastos, contribuindo assim para a retração da demanda agregada, sem o que será difícil reverter a tendência inflacionária", avaliou o diretor da NGO.

Alvo: 2009
A expectativa de inflação do mercado para 2009 também vem subindo, mas em ritmo bem inferior às previsões de 2008 - o que mostra que os economistas têm confiança de que o BC não será complacente. Atualmente, a estimativa para o IPCA no ano que vem está em 4,63%.

"Com a perspectiva de inflação para 2009 cedendo, o mercado vai se ajustar e o BC está trabalhando para que isso acontença", acrescentou Boulos, do Banif.

O consultor de investimentos de uma corretora que preferiu não se identificar lembra ainda que, em momentos de aperto monetário, o mercado futuro sempre está um pouco acima das demais projeções, para forçar cotações mais elevadas e garantir retorno financeiro.

"As taxas estão altíssimas, mas você tem que lembrar que, em épocas de inflação contida, as pessoas compravam (títulos) pré (fixados) e estavam sempre bem aplicadas. Agora você tem uma inflação ascendente e o mercado não sabe até onde vai, então os prazos mais longos têm que ter um prêmio para as pessoas investirem", disse o consultor.

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