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"É importante se reciclar", diz Vanessa Gerbelli

03 de abril de 2004 14h01

Vanessa Gerbelli: fisicamente Tancinha cansa mais que Fernanda, de  Mulheres Apaixonadas. Foto: Luiza Dantas/TV Press

Vanessa Gerbelli: fisicamente Tancinha cansa mais que Fernanda, de Mulheres Apaixonadas
Foto: Luiza Dantas/TV Press

Depois de interpretar a trágica Fernanda de Mulheres Apaixonadas - que morreu vítima de bala perdida -, tudo o que Vanessa Gerbelli queria era uma personagem leve e cômica. E foi exatamente isso o que ela encontrou na Tancinha de Da Cor do Pecado.

Na trama de João Emanuel Carneiro, a atriz interpreta uma viúva fogosa que procura o Pai Helinho, de Matheus Nachtergaele, a fim de matar saudades do falecido marido. Já na primeira sessão, porém, o falso pai-de-santo é que fica enfeitiçado pela moça. Quem não gosta nada disso é o espírito de Feitosa, que resolve infernizar a vida do casal. "O pessoal deve ter estranhado a Tancinha: 'Meu Deus, quem é essa figura de cabelos curtos e peitos grandes?' Mas é importante se reciclar, até mesmo para não cansar o público", garante.

Para diferenciar uma personagem da outra, Vanessa cortou as longas madeixas que caracterizavam o visual de Fernanda. Os vestidos coloridos, com decotes bem pronunciados, de Tancinha também devem ter surpreendido quem se acostumou a vê-la em Mulheres Apaixonadas com roupas fechadas, escuras e pesadas.

A maior diferença, porém, é o teor cômico, quase debochado, do núcleo a que pertence a personagem. Desde que assumiram o romance, Helinho e Tancinha não têm um minuto de paz. O espírito de Feitosa, inconformado com a infidelidade da viúva, está sempre incorporando em alguém. Para interpretar o "encosto", Vanessa caprichou no tique nervoso e no aspecto queixudo do falecido. "Fisicamente, a Tancinha é até mais estressante que a Fernanda. Ela pula, cai, corre, incorpora... Mas, psicologicamente, é pura diversão", enfatiza.

A oportunidade de voltar a fazer comédia na tevê remete Vanessa à estréia em novelas, como a divertida Lindinha de O Cravo e a Rosa, de Walcyr Carrasco. Como só grava duas ou três vezes por semana, a atriz se dá ao luxo de ensaiar as cenas mais difíceis na casa de Matheus Nachtergaele. "Quando a gente não ensaia, acaba perdendo um pouco o ritmo das piadas. Tempo é fundamental na comédia", ressalta.

Coincidência ou não, um dos mais recentes picos de audiência de Da Cor do Pecado, algo em torno de 43 pontos, foi registrado na cena em que Tancinha e Helinho estão às voltas com as estripulias de Feitosa. Por isso, Vanessa enaltece a parceria firmada com os atores Matheus Nachtergaele e Arlindo Lopes, que interpreta o Cezinha. "Sempre que me perguntam do Matheus, rasgo a maior seda. O cara é um dos maiores atores da geração dele", elogia.

Apesar de já confirmada no elenco de Da Cor do Pecado, Vanessa chegou a participar dos últimos capítulos de Kubanacan como a guerrilheira Amapola. Mas, por serem exibidas no mesmo horário, a atriz quase declinou do convite de Carlos Lombardi. Ela temia que sua participação em uma novela comprometesse a escalação na outra. "Kubanacan serviu como um refresco depois de Mulheres. O Lombardi chegou a fazer piada ao matar a minha personagem", diverte-se.

Na época de "Mulheres Apaixonadas", por mais que tentasse, Vanessa não conseguia manter distanciamento da personagem. Quando Fernanda sofria, ela sofria junto. "Só no carro, já a caminho de casa, é que eu conseguia relaxar. Também se não conseguisse, eu pirava", exagera.

A realização de Vanessa hoje só não é completa porque ela não consegue conciliar as muitas atividades profissionais. E por motivos óbvios. As gravações de Da Cor do Pecado e as apresentações de Tartufo, em São Paulo, consomem boa parte do tempo da atriz. Sem contar suas atividades como cantora, compositora, dançarina, artista plástica... Foi no musical Cazas de Cazuza, aliás, que ela chamou a atenção do diretor Walter Avancini, um notório descobridor de talentos ¿ desde os tempos de Regina Duarte e Bruna Lombardi.

Como nem sempre é possível ter tudo o que se quer, Vanessa teve de recusar uma proposta de gravadora para se dedicar à sua primeira novela. "Já me chamaram até para fazer show. Mas sou meio 'caxias'. Para fazer, tem de ser bem-feito. Antes de mais nada, quero me firmar como atriz", salienta.

Tiro certeiro
Até hoje, quase seis meses depois do final de Mulheres Apaixonadas, Vanessa Gerbelli não consegue esquecer o olhar consternado que um porteiro da Zona Sul do Rio lhe lançou na época da novela. Aos prantos, o funcionário de um apart-hotel disse que não era justo tudo aquilo que estava acontecendo com ela. Atônita, a atriz bem que tentou argumentar: "Mas não é comigo...". De nada adiantou a negativa da moça. "Não, não importa...", saiu repetindo o sujeito, ensimesmado. "Fiquei impressionado com a força que a teledramaturgia pode ter. Para aquele homem, é como se eu fosse morrer. Que coisa louca!", espanta-se.

Mas a comoção daquele porteiro não foi isolada. Inúmeros "blogs" na Internet pediram que Manoel Carlos não matasse a personagem. Em vão. A morte de Fernanda suscitou as mais variadas discussões. De violência urbana a doação de órgãos. A novela chegou a exibir trechos da passeata organizada pela ONG Viva Rio em prol do desarmamento. A própria atriz emprestou a imagem à campanha de doação de órgãos promovida pela ADOTE, Aliança Brasileira de Doação de Órgãos e Tecidos. "Fazer a novela foi bom para mim não só como atriz, mas também como cidadã. Hoje, sou mais consciente das minhas responsabilidades", avalia.

Instantâneas
# Vanessa Gerbelli Ceroni canta desde que se entende por gente. Aos 15 anos, já tinha uma banda que animava festas infantis e bailes de formatura em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, sua cidade natal. "Uma atriz com diferentes aptidões tem mais chances de conseguir diferentes papéis", acredita.
# A pintura é outra paixão na vida de Vanessa. Formada em Belas Artes pela USP, a atriz costuma exercitar sua veia artística no ateliê que tem em casa. "Para a minha mãe, um diploma era garantia de empregos melhores. Como podia ser de qualquer faculdade, me formei, então, em Artes Plásticas", justifica.
# O único trabalho televisivo de que Vanessa não guarda boas recordações é Desejos de Mulher, de Euclydes Marinho. Ela quase não acreditou ao saber que fora convidada pelo diretor Dennis Carvalho para interpretar a sensual Gongon, uma personagem que, segundo ela, era muito parecida com a Lindinha de O Cravo e a Rosa.
# A princípio, a permanência de Vanessa em Mulheres Apaixonadas se restringiria a 30 capítulos. Mas sua personagem Fernanda fez tanto sucesso que permaneceu até praticamente o final da trama. Mesmo após a morte, Fernanda aparecia em visões para a filha Salete, interpretada por Bruna Marquezine.

TV Press