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Especialistas discutem síndrome pós-aborto

23 de janeiro de 2007 21h20 atualizado em 24 de janeiro de 2007 às 17h32

Bem cedo no sábado, em uma manhã nublada de novembro, Rhonda Arias saiu de casa em seu Dodge Caravan, passou por uma loja Wal-Mart no final de seu quarteirão e tomou a rodovia interestadual. Ela estava começando a jornada de 80 quilômetros de sua casa, no sudoeste de Houston, no Estado americano do Texas, para a penitenciária estadual de Plane, onde trabalha, em suas palavras, como "conselheira de recuperação pós-aborto". Para Arias, isso significa ajudar as detentas que passaram por abortos a compreender de que maneira o procedimento as marcou e como isso explica o que aconteceu de errado em suas vidas. Os abortos das prisioneiras, ela me disse, "têm muito a ver com a dor que elas sentem".

Arias, 53 anos, muitas vezes usa brincos prateados de argola e botas pretas de salto baixo. Ela começou a trabalhar como conselheira em casos de aborto 15 anos atrás. Depois do que descreve como "uma revelação do Senhor", ela decidiu que sua dor e infelicidade se deviam ao aborto que fez em 1973, quando tinha 19 anos. Depois do procedimento, conta, ela se viu tomada por estranhos pensamentos. "Lembro de ter pensamentos malévolos sobre machucar crianças", diz. "Era como se eu tivesse feito a pior coisa possível. O mal havia se alojado em mim".

Em 1983, ela engravidou de novo e, no quarto mês, conta, ficou com medo de criar um filho sozinha. Ligou para seu obstetra. Ele marcou um procedimento de aborto salino, para mulheres no segundo trimestre de gestação, na manhã seguinte. Arias diz que, quando despertou da anestesia, sentia-se certa de que tinha matado seu filho. Por causa desse conhecimento, ela tem o mesmo sentimento até agora, passou por anos de depressão, alcoolismo e uso de drogas, como cocaína.

Para ela, todas as suas dificuldades - drogas, uma tentativa de suicídio, o terceiro e quarto abortos que veio a fazer, o casamento horrível em que se envolveu - derivam do aborto de 1973.

Nos anos 90, ela passou a trabalhar para o Centro de Gestação da Mulher, grupo de Houston que tenta convencer mulheres a não abortar. Em 2001, depois que foi ordenada como pregadora evangélica, ela criou uma igreja dedicada a mulheres em recuperação depois de abortos, a Oil of Joy for Mourning (Óleo de Júbilo para o Luto), cujo nome se inspira em um versículo da Bíblia. Agora, ela conduz programas de aconselhamento de dez semanas de duração, em sete penitenciárias do Estado.

Quando criança, Arias sofreu abuso sexual de parte de seu irmão adotivo. Um menino mais velho a forçou a fazer sexo quando ela tinha 14 anos, conta, e sete meses mais tarde ela acordou no meio da noite sofrendo dores terríveis no ventre, e deu à luz uma menina que foi dada para adoção. Um ano mais tarde, o pai de Arias, um pedreiro, de quem ela se sentia muito próxima, caiu de um andaime e morreu.

Ao se concentrar nos bebês que sente ter perdido (ela deu aos dois primeiros os nomes Adam e Jason), Arias sente ter eliminado parte das dores que outras lembranças lhe causam. "Penso nos meus dois filhos, Adam e Jason, filhos que nunca tive nos braços, e sei que estou perdoada. Mas, ela diz com voz embargada, "eu não lhes dei a vida. E lamento tanto".

Depois de 34 anos, a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu o caso Roe e Wade, e desde então as guerras do aborto vêm opondo os defensores dos direitos dos "bebês ainda não nascidos" àqueles que defendem as mulheres vivas. Arias e um número crescente de ativistas envolvidas na recuperação pós-aborto querem substituir essa oposição por um novo conceito: o aborto não ajuda as mulheres; ele na verdade as fere. O objetivo de Arias e outros ativistas é convencer o centro indeciso do eleitorado norte-americano, os 40% a 50% de eleitores que não simpatizam com o aborto mas se opõem a proibí-lo, de que a prática prejudica, e não ajuda as mulheres.

Em 2000, a Justice Foundation, organização legal conservadora do Texas, iniciou um projeto chamado Operation Outcry, recolhendo depoimentos de mulheres que contam os problemas que sofreram com o aborto, para uso em um processo judicial que buscaria proibir a prática alegando que ela não é benéfica para as mulheres. Arias representa a Operation Outcry no Texas e em sua pregação nas penitenciárias solicita depoimentos das participantes para uso no projeto.

Os especialistas dizem que o estresse causado pelos riscos psicológicos do aborto não é maior do que o causado por ter um filho indesejado. Um estudo com 13 mil mulheres conduzido no Reino Unido durante 11 anos comparou pacientes que optaram por abortos a mulheres que preferiram ter um filho, levando em conta antecedentes psicológicos, idade, status matrimonial e nível de educação. Em 1995, os pesquisadores publicaram os resultados: o nível de distúrbios psicológicos era semelhante em ambos os grupos.

Embora alguns ativistas antiaborto pareçam exagerar os riscos do procedimento para a saúde mental, alguns dos defensores do aborto desconsideram totalmente os efeitos negativos do procedimento. Arias milita contra o aborto por convicção fervorosa. Seu ardor e a influência que conquistou talvez possam ser explicados pela teoria do contágio social, que psicólogos empregam para explicar fenômenos como o dos julgamentos de feiticeiras em Salem ou a onda de denúncias infundadas de abusos sexuais na infância - há alívio a ser obtido em encontrar ou propor uma causa única para um conjunto imenso de sentimentos indesejados, uma causa para tudo que já aconteceu de errado.

Brenda Major, professora de Psicologia na Universidade do Sul da Califórnia, em Santa Barbara, resume perfeitamente a situação: "Você não pode se arrepender de sintomas de depressão. Mas pode se arrepender de um ato como o aborto. Pode desenvolver uma narrativa de pecado e expiação, de bebês perfeitos esperando no Paraíso".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

New York Times Magazine- The New York Times Syndicate

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