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"Não poderia deixar a oportunidade passar", diz Fernanda Souza

26 de novembro de 2006 11h02 atualizado às 11h18

Fernanda Souza interpreta a jovem Carola em  O Profeta. Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

Fernanda Souza interpreta a jovem Carola em O Profeta
Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

Fernanda Souza, 22 anos, já gostava de aparecer desde criança. Não é à toa que, com apenas 5 anos, convenceu o pai de que gostaria de estrelar campanhas publicitárias na TV. Desde então seu rostinho nunca mais ficou distante do público. O primeiro grande sucesso veio aos 13 anos, na novela Chiquititas, transmitida pelo SBT e que a fez mudar para a Argentina. A repercussão do folhetim lhe rendeu um convite para trabalhar na Globo.

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"Era um sonho de menina", admite Fernanda, que estreou na emissora em Andando nas Nuvens, de 1999. Apesar de estrelar outras tramas e se destacar como Helô, em Malhação, foi como a Mirna, de Alma Gêmea, que a atriz viu seu trabalho repercutir como nunca antes.

"Depois da Mirna sou outra pessoa. Sou completamente fã da personagem", confessa. Mas com a estréia de O Profeta o papel preferido da atriz pode passar a ser Carola, papel que interpreta na atual trama das seis. Desleixada, gordinha e complexada, a personagem exigiu dedicação extra de Fernanda, que precisou deixar a vaidade de lado e engordar 7kg, o que representa 15% de seu peso total antes da novela. Mas com o sucesso que Carola tem feito, ela jura não estar nem aí para as gordurinhas que ganhou.

"Não poderia deixar passar a oportunidade de fazer um papel como esse, que confiaram a uma atriz tão jovem. Estou me entregando totalmente à Carola e está sendo ótimo", afirma a artista.

O Profeta é uma novela supervisionada por Walcyr Carrasco. Seu trabalho anterior na tevê foi Alma Gêmea, novela de autoria dele. Já se pode dizer que a parceria entre vocês deu certo?
Não sabia que ia fazer essa novela. Na verdade, eu estaria em uma trama do Walter Negrão, que deveria ter estreado antes de O Profeta. Quando o Walcyr foi chamado para fazer a supervisão, estávamos reunidos fazendo a leitura de um texto dele (Walcyr), para uma peça que vamos estrear em janeiro. O mais interessante é que o primeiro trabalho que fiz atuando na tevê foi em um episódio do seriado Retrato de Mulher, também escrito pelo Walcyr. Isso quer dizer que comecei com ele, mas nem sabia. Acho que nossa parceria é bem-sucedida. Tanto que, quando me chamaram para falar sobre a Carola, topei porque me apaixonei na hora por ela.

O que mais agradou você nessa personagem?
Tudo nela me agradou. A Carola é uma personagem complicada. São muitos sentimentos dentro dela, inúmeros problemas que ela enfrenta. E são problemas reais. O preconceito que ela sofre por ser gordinha e feia é grande. Ela é injustiçada, não é querida pela família e perdeu o pai, a única pessoa que a aceitava do jeito que ela é. É uma personagem que não deixa de ser atual, pois apesar da história se passar na década de 50, você encontra hoje na rua inúmeras meninas com o mesmo tipo de problema.

Você se deparou com muitas Carolas por aí, na hora de compor a personagem?
Há Carolas espalhadas por todos os lados. Fiquei de olho nos "blogs" das meninas que compartilham as dificuldades de emagrecer, o sofrimento, o preconceito que enfrentam, o olhar torto das pessoas. Eu precisava entender esse universo. E é triste perceber como há pessoas insensíveis ao ponto de ridicularizar os outros sem o mínimo peso na consciência. Se a adolescente é gordinha, os amigos não perdoam.

Mas a Carola não costuma aceitar calada as provocações que sofre...
Claro que não. Ela enfrenta: "Tá me chamando de gorda por quê?". E eu queria que as meninas por aí tivessem o mesmo tipo de atitude. Às vezes, quando se tranca no quarto, a Carola chora, desaba. Mas nas ruas ela é forte, enfrenta as situações. Talvez ela sirva de exemplo e as garotas que são mais passivas também comecem a se impor mais. E parem de aceitar que os outros brinquem com algo que é um problema.

Você buscou informações para entender como algumas pessoas conseguem enfrentar esse tipo de problema?
Fui a uma psicóloga para tentar entender essa questão da vontade compulsiva por comer. Você tenta uma dieta, quebra essa dieta, sente-se culpada, e aí come mais por causa da culpa. É um círculo vicioso. Geralmente, quando essas pessoas ficam 15kg ou 20kg acima do peso é porque elas têm um problema sentimental muito maior do que a simples gula. O problema da Carola, por exemplo, é a falta do pai. É um buraco muito grande no coração dela. O problema não é físico, é psicológico. Ela pode comer o mundo que não vai sentir-se saciada.

Foi um problema ter de engordar 7kg para fazer o papel?
Gostei tanto da personagem que isso foi o que menos importou para mim. Estava pesando 47kg quando eles me chamaram para a novela. Nunca estive tão magra em toda a minha vida. E não dava para fazer uma gordinha com um rosto magro. Não ia funcionar. Também mudei o corte de cabelo para que o rosto parecesse ainda mais cheinho. Foram muitas entregas. Mas adorei a oportunidade de realizá-las, sendo uma atriz ainda tão nova. É um grande exercício para mim. Já como mulher, é um grande desprendimento da vaidade. Afinal, que mulher quer ficar 7kg acima do peso?

E qual é o limite de sua vaidade?
Não digo que deixaria de fazer alguma mudança específica. Mas ia me doer muito se um dia eu tivesse que raspar os cabelos. É preciso ter um rosto fenomenal para fazer isso. Tanto é que com a Carolina Dieckmann funcionou sem problemas. No meu caso, eu ficaria com o coração partido.

Você representa o "patinho feio" da novela e usa, inclusive, um enchimento para exagerar nos quilinhos a mais. Tem algum receio de que a personagem fique caricatural?
Acho que esse risco era muito maior com a Mirna, que fiz em Alma Gêmea. Porque ela fazia parte de um núcleo que estava sempre três tons acima do restante da novela. Tudo na Mirna era muito fantasioso. Ou você conhece alguém que jogue as pessoas no chiqueiro como ela fazia? Mas a realidade da Carola você olha para o lado e encontra. Ela é mais real e mais densa também.

E você já pensa que talvez terá de perder esses 7kg, caso a Carola realmente decida fazer uma dieta para conquistar o coração de Marcos?
Não estou pensando no futuro. Se eu pensasse que deveria perder os 7kg mais à frente, não teria engordado. Pensei apenas que essa era uma ótima oportunidade para me dedicar de corpo e alma a uma personagem. É isso que estou fazendo. Essa é a hora de a calça 36 não entrar mais e eu dar risada. É o momento de estar em uma festa, minha calça rasgar e eu achar legal. Tenho de me divertir com isso. Sem falar que estou me vendo como uma mulher com mais formas, o que é legal. Estou procurando o lado bom de ter engordado. Do ruim; eu dou risada. Gosto tanto de comer. É tão prazeroso engordar. Como pizza e tomo sorvete quantas vezes quiser. Essa é a parte mais gostosa e divertida. Nós, atrizes, sempre enfrentamos aquela pressão para nos mantermos magras, pois a tevê já engorda. Se eu posso comer o que quiser agora, tenho de aproveitar.

Na primeira versão de O Profeta, o protagonista terminou com a Carola. A sua torcida é para que esse resultado se repita agora?
Acho que isso vai depender do entrosamento entre os atores. Se o público acreditar muito no amor entre a Sônia e o Marcos - personagens de Paola Oliveira e Thiago Fragoso - pode ser que eles terminem juntos. Se minha relação com Arnaldo - de Rodrigo Phavanello - também agradar e as pessoas acharem que nos merecemos, isso pode acontecer. Adoraria que o Marcos terminasse com a Carola porque a história do mocinho ficar com o patinho feio é genial. Mas ele teria de ficar com ela do jeito que ela é. Pois se as meninas por aí pensarem que vão ter que emagrecer para conquistar o menino mais bonito do colégio, vão pirar. A Carola tem de se arrumar e ficar mais bonitinha. Mas não deve ficar magra e maravilhosa como a Sônia. E pelo que já senti das pessoas que vêm falar comigo nas ruas, todos vão torcer muito pela Carola.

Se Carola é a personagem que até hoje mais exigiu de você como atriz, esse acaba sendo o papel preferido de sua carreira?
Tenho um carinho enorme pela Carola, sim. Mas ela ainda tem um grande caminho a percorrer. A Mirna, sem dúvida, é muito especial para mim. Queria ser amiga dela. Gostaria que ela morasse ao lado da minha casa porque era muito engraçada. Falar daquele jeito, usar aquele cabelo... Não era a Fernanda! Tanto é que as pessoas me abordavam nas ruas e diziam: "como você é diferente da novela". E com a Carola já acontece a mesma coisa. Nada melhor para mim do que exorcizar a Fernanda e inventar uma outra pessoa. Não vejo a Fernanda Souza em nenhum momento ao assistir essas duas novelas.

Aventura musical
Se alguns atores parecem multifacetados e, além de atuar, gostam de testar seus talentos em outras áreas como na música, por exemplo, Fernanda Souza não integra esse grupo. Ela até já se aventurou cantando por aí. Mas quando olha para trás e relembra a experiência, não hesita em dizer que não tem voz para cantar. "Música, definitivamente, não é a minha área", confirma.

A empreitada que a atriz fez pelo mundo da música aconteceu na época em que ela interpretava a Helô, de Malhação. Na novela "teen", Fernanda apenas dublava, mas alguns empresários "cismaram" que ela poderia cantar. "Estavam me pagando, porque eu ia dizer não?", questiona. Foi então que a atriz lançou um CD infanto-juvenil pela EMI, mesmo sem acreditar em sua voz. "Não acho que canto bem e não gostaria de me envolver com música de novo", afirma. Ao dizer que gosta mesmo é de representar, Fernanda classifica a aventura apenas como "válida". "Não curto fazer nada em que me sinta mais ou menos. A paixão da minha vida é a atuação, não a música", confirma.

Brincadeira séria
Os bastidores da tevê Fernanda conheceu bem cedo, aos 5 anos, quando começou a gravar comerciais. Foi aos 13 anos, no entanto, ainda garotinha, que ela experimentou o primeiro grande sucesso de sua carreira. "Chiquititas", novela transmitida pelo SBT e gravada na Argentina, foi um fenômeno entre as crianças e tornou a imagem da atriz conhecida em todo o País. Mas por ser muito nova, Fernanda não encarava o trabalho com tanta seriedade. "A Milli era quase uma brincadeira", diz, referindo-se ao papel que interpretava na história. A atriz acredita que o folhetim foi um sucesso porque tinha carisma. Quanto à sua atuação, ela é ponderada. "Não tinha consciência do que era criar um personagem. Decorava, chegava e fazia. Era outro nível de profissionalismo", confessa. "O bacana de Chiquititas foi a visibilidade. A ponto da Globo me convidar para trabalhar na emissora", completa.

Trajetória Televisiva
# X-Tudo (TV Cultura, 1992) - Apresentadora
# Retrato de Mulher (Globo, 1993) - Jaqueline
# Razão de Viver (SBT, 1996) - Patrícia
# Chiquititas (SBT, 1997) - Milli
# Andando nas Nuvens (Globo, 1999) - Joana
# Malhação (Globo, 1999) - Helô
# Sabor da Paixão (Globo, 2002) - Teca
# Um Só Coração (Globo, 2004) - Dulce do Amaral
# Alma Gêmea (Globo, 2005) - Mirna

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