Eu contava então 18 primaveras, e, apesar de estar na propalada "flor da idade", considerava minha vida uma maçada. Uma maçada, compreende?, enfadonha e fastidiosa. Carla _loira, suburbana de coração, visto que morava no IAPI, fornida e um tanto tola_ me distraía. Eu a elencava entre mais um de meus passatempos: videojogos, televisor, gibis, cinema, leituras, namorada.
Viemos a saber da existência um do outro em um cair de tarde sobre rodas: no omnibus.
Nesse dia, eu e meus habituais cúmplices de ócio, André e Alessandro, passáramos a tarde praticando o footing no Centro Comercial Iguatemi. Bateram as seis badaladas e começamos a nos dirigir rumo à parada do coletivo.
Conforme cobríamos a distância da saída do prédio até a movimentada parada, sobressaíram-se aos olhos dos três galalaus um grupo de cinco moçoilas, todas entre 14 e 16 anos, e todas correspondendo ao flerte. Sandro, sempre o mais folgazão, saiu-se com um "posso me apresentar pra ti?", dito entre mascadas de chicle de bola para uma das meninas, Adriana. Meses depois ela ganharia a alcunha de "A Barbuda", mas naquela tarde nenhum do trio reparou que suas costeletas eram assaz desenvolvidas.
André, confiante em seus traquejos, também passou a integrar a roda de recém-apresentados, enquanto que eu permaneci orbitando-a. Logo descobriu-se que todas pegariam o carro da linha Chácara das Pedras. O nosso era o Iguatemi, todavia embarcamos no Chácara. Fosse outro dia eu teria argumentado contrariamente a esse desvio proposital de rota. Mas não era outro dia.
Descemos na Avenida Assis Brasil, e acordou-se que escoltaríamos as donzelas até suas residências, no acolhedor bairro do Passo d'Areia. Conquanto ainda permanecesse um clima de estranheza diante da situação. Éramos tolerados, não benvindos. Então, o condão: eu, de índole pacata e ensimesmada, apático até, tomei as rédeas da situação.
Adiantei-me rumo a menina que mais me havia chamado a atenção, e não há razão em fazer mais suspense: era Carla. Enlacei-lhe pela cintura e, não sofrendo admoestação, assim permaneci. Dois átimos depois era ela quem me enlaçava _bom agouro.
Meus amigos se melindraram. Procuraram obter o mesmo êxito com as meninas restantes, em vão. Deu-se que a dupla resolveu largar o passeio antes do fim e dirigiu-se para suas residências, deixando-me com Carla e um outra amiga sua, cujo nome perdeu-se na cruenta ampulheta do tempo. Carla não era do bairro, ainda assim se dirigia para a casa da amiga, onde seu pai passaria de automóvel pra recolhê-la à noutinha.
Que engendrei: levar-lhes-ia até a residência da conhecida, todavia trataria de convidar _a bem dizer induzir_ Carla para que não entrasse na casa e ficasse comigo no portão.
Cabe agora diferir o verbo ficar em sua acepção de permanecer onde se está e do seu uso corrente no final do século XX entre os jovens urbanos brasileiros. Este ficar é um namoro sem compromisso, pudico ou menos pudico _não abrangendo o ato sexual, durante um curto espaço de tempo. Às vezes, por uma noite.
Foi por meia-hora. E agora me é forçoso fazer uma confissão: eu não trajava roupas íntimas na ocasião. Algo no fluxo da lavagem de roupa desconcertou-se naquela semana, de modo que eu só tinha cuecas samba-canção para usar, e esse modelo é de um desconforto brutal com altas temperaturas, o que era o caso.
Tinha Carla então uma prova inconteste dos meus sentimentos para com ela. Meu gesto natural foi envergonhar-me da situação, porém ela fez não objeção alguma à proximidade e fricção de nossos quadris e bacias em pleno passeio público, à mostra para as gentes.
Findou-se o encontro quando aproximava-se a chegada do senhor pai de Carla, quando fui então aconselhado por ela a partir. Demo-nos um ardoroso primeiro beijo de despedida e eu avancei pela rua em direção à Assis Brasil, onde tomaria condução para casa.
Fossem outros dias como aquele! Alegres e tranquilos, sem compromisso e de plena atividade táctil. E até o foram. Se recordam da abertura do texto, Carla inseria-se entre meus passatempos favoritos.
Calhou então dela querer me contar seus problemas, sobre os quais eu não tinha mínimo interesse, o que fez com que eu passasse a ser um dos problemas dela, descambando em uma triste tarde em que brigamos. Não nos voltamos a ver.
Nos anos vindouros, um tanto das vezes em que passei pela esquina da avenida Cristóvão Colombo com a Marechal José Inácio da Silva, pensei nela. Sucede, lacrimosa leitora, incrédulo leitor, que dali vê-se o panorama da IAPI, e se avista sua morada. Eu por vezes tive o anseio de passar lá, prestar uma visita. "Dar um oi", como dizía-mos os jovens. Nunca o fiz. E tal me emurchece.
Tenho para essas horas um acalanto em forma de poema. (Sei que falo à platéia suficientemente arguta, logo não se faz necessário explicar que horas são essas.) São versos preciosos, de um poeta italiano radicado entre nós há muito tempo, o Desembargador Lorenzi. Há quem o considere um tanto rude, mas não há quem lhe negue a veracidade. Transcrevo o soneto do bardo:
"Soneto do Amor-Gangorra
A cada gota de porra,
que espalho por aí,
a mimetizar Gomorra,
um pouco de mim perdi.
E pra onde quer que eu corra,
cada ventre em que meti
vai fazendo com que eu morra,
pois me sugam lá e aqui.
Seja ela uma cachorra
ou "a tal pra quem nasci",
leva-te um naco, por zorra.
Leva-lhe um naco pra ti!
Ou funciona qual gangorra,
ou se acaba na UTI."