"A conclusão inevitável é que a ONU precisa de uma ampla e profunda reforma, e isso é urgente", afirma o polêmico relatório apresentado hoje, o 4º depois de um ano e meio de pesquisas sobre o programa "Petróleo por Comida".
Este programa, que permitiu ao Iraque vender petróleo em troca de comprar bens de primeira necessidade durante os anos de embargo econômico na década de 90, alcançou um tamanho desproporcional, chegando a movimentar US$ 100 bilhões em vendas de petróleo e compras de alimentos.
A ONU teve sua gestão questionada pela não aplicação dos controles necessários, abrindo espaço para irregularidades envolvendo altos funcionários da ONU e empresas privadas. O esquema permitiu ao regime de Saddam Hussein embolsar mais de US$ 12 milhões em venda ilegal de petróleo e comissões.
O relatório acusa o secretário-geral de displicência e erros na gestão. Já o chefe dos investigadores, o ex-presidente do Federal Reserve dos EUA, Paul Volcker, também culpou o Conselho de Segurança.
"Infelizmente, encontramos erros por todos os lados", disse Volcker depois de procurar evidências de práticas ilícitas tanto por parte de funcionários da ONU como de empresas e do Conselho de Segurança.
"Houve irregularidades em grande escala e lucro ilícito pelo Iraque. Houve um claro abuso das responsabilidades administrativas.
E também corrupção. Tudo isso abalou a confiança na ONU", declarou.
Estas irregularidades o levaram a recomendar uma reforma urgente na gestão administrativa da organização mediante a criação do cargo de diretor-executivo da ONU.
Além disso, Volcker propôs o estabelecimento de um mecanismo de auditoria independente a ser incluída nos futuros programas e planos gerenciados pelo organismo mundial.
Após a apresentação do relatório, vários embaixadores se pronunciaram no Conselho de Segurança para apoiar a proposta de Volcker e defender uma ampla reforma administrativa na organização.
"Precisamos reformar a ONU de maneira a prevenir outro escândalo", declarou o embaixador dos Estados Unidos, John Bolton, para quem "a credibilidade das Nações Unidas depende disso".
Em sua opinião, o mais importante é considerar os defeitos do programa para o Iraque "como um catalisador para a mudança na ONU".
O representante da Rússia, Andrey Denisov, garantiu que seu país vai estudar em profundidade o relatório. Apesar disso, ressaltou que, de forma preliminar, compartilha muitas das conclusões.
Lembrou ainda que Kofi Annan, secretário-geral da ONU, propôs medidas para melhorar a atuação do secretariado, "que em geral apoiamos", disse.
O representante da China, Wang Guangya, disse esperar mais debates no futuro sobre o documento no seio do Conselho de Segurança.
O representante francês, Jean-Marc de Sabliere, louvou o trabalho do comitê investigador e concordou com as conclusões de que o programa para o Iraque foi o "mais amplo, complexo e ambicioso esforço humanitário jamais empreendido pela ONU".
Acrescentou que o relatório ressalta a importância de uma reforma bem-sucedida e profunda da ONU, reafirmando o compromisso da França nessa tarefa.
Por sua vez, o embaixador iraquiano na ONU, Samir Sumaidaie, solicitou hoje ao Conselho de Segurança ajuda para recuperar os ativos dos quais se viu privado em conseqüência da corrupção no programa humanitário.
EFE