Denize Bacoccina
"Eu me senti ameaçada o tempo todo", contou Leticia à BBC Brasil por telefone, na sexta-feira, a caminho de Dallas, de onde esperar pegar um avião para voltar pra casa.
"Me sentia ameaçada por ser mulher e por ser branca." Ela contou que nesses cinco dias que ficou no estádio presenciou e ouviu relatos de cenas de violência, roubos, estupros e mortes.
Uma mulher se suicidou se jogando do corredor em direção às arquibancadas, segundo Letícia. "Ouvimos os gritos e depois o guarda contou o que era", disse ela.
Estrangeiros
Segundo Letícia, havia mais de cem mortos no estádio. Ela contou que não viu os corpos, mas um guarda confirmou que eles eram mantidos numa sala.
"A gente não tinha acesso a nada. A comida estava difícil, tinha que ficar duas horas na fila, o banheiro estava nojento, a gente tinha notícia de mulher estuprada, de gente sendo morta dormindo, vários abusos sexuais", contou.
O grupo de 15 estrangeiros do qual ela fazia parte ¿ e que incluía outra brasileira, Monica Vassão ¿ era hostilizado pelos moradores da cidade.
"Eles falavam com a gente em termos vulgares, falavam pra gente ter cuidado, se referiam a nós como os brancos, como estrangeiros", contou.
O local não tinha energia elétrica a não ser por gerador, somente para os serviços essenciais.
Sem notícias do mundo exterior, os desabrigados recebiam a cada dia a informação de que seriam transferidos, o que não acontecia.
Sem saída
Leticia só conseguiu deixar o estádio, onde estima-se que havia de 20 mil a 25 mil, na sexta-feira da manhã.
Depois de ser levada para um hotel na cidade, ela conseguiu embarcar num ônibus que a levou para Baton Rouge, a capital da Lousiana, a cerca de uma hora de Nova Orleans, onde ela pegou um outro ônibus para Dallas, no Texas.
Estudante nos Estados Unidos, Leticia foi para Nova Orleans de férias, na primeira etapa de uma viagem que a levaria a outros pontos turísticos do país.
Ainda no aeroporto, ela se encontrou com a amiga Monica, mas as duas decidiram não levar a sério a ameaça do furacão.
"No Brasil não tem isso, e a gente nunca acredita que vai acontecer conosco", disse.
Mal chegou a Nova Orleans, porém, no sábado passado, ela já notou um movimento estranho.
"As lojas estavam fechando, algumas estavam sendo esvaziadas, outras estavam fechando janelas com tábuas de madeira. Mas a gente perguntava e as informações eram desencontradas. Tinha gente que falava que era exagero de americano".
Elas decidiram dormir na cidade no sábado à noite e ir embora no domingo de manhã, de avião, ou alugar um carro. Mas quando tentaram ir embora, o aeroporto já estava fechado e as estradas congestionadas.
"Quando acordamos no domingo já estava um desespero no hotel. Gente falando, gritando, estavam tentando evacuar a cidade. Ligamos para o aeroporto e eles disseram que já não tinha mais vôos para sair de Nova Orleans. Tentamos alugar um carro e eles aconselharam a não alugar porque a estrada estava congestionada", contou Leticia.
Muito medo
A polícia informou que elas deveriam se abrigar no Superdome, o ponto de refúgio de quem não tinha como sair da cidade.
"Ficamos seis horas e meia até conseguir entrar (no estádio)", disse Leticia.
"Ficamos com muito medo. Na fila a gente escutava o boato de que não ia caber todo mundo. Tinha gente passando mal, vomitando, não tinha comida, água, estava chovendo. Mas no fim da tarde conseguimos entrar, conseguimos uma cadeira e dormimos abraçadas com a mala".
No dia seguinte, às 6 horas, começaram os primeiros ventos que atingiriam mais de 200 quilômetros por hora e provocaram a inundação que deixou a cidade ilhada.
"O teto começou a balançar, a gente via luz e não sabia se era luz do dia ou se era luz de raio. Era muito barulho", contou.
A partir daí o único contato com o mundo exterior foi uma rápida ligação para a família com a qual ela vive nos Estados Unidos, que acionou a família de Leticia no Brasil e o consulado brasileiro em Houston, que passou a pressionar o governo americano por informações.