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Chineses solteiros alugam namoradas para apresentar aos pais

Sábado, 8 de janeiro de 2005, 13h04


O respeito pelas tradições ancestrais e a pressão para casar antes dos 30 anos criaram na China o fenômeno das "namoradas de aluguel". Por preços que oscilam entre 180 iuanes (US$ 18) e 800 iuanes (US$ 96) por dia, filhos que passaram dos 25 anos e continuam solteiros podem conseguir uma namorada falsa para apresentar aos pais. O fenômeno é muito comum durante o Ano Novo Lunar chinês, quando milhões de jovens retornam a suas províncias.

"Se no ano que vem não trouxer uma namorada, nem pense em voltar", ameaçou no ano passado a mãe de Yue, um jovem de 31 anos que diz trabalhar demais para ter tempo de procurar uma namorada. "Não pude fazer nada além de buscar uma 'companheira' de viagem", reconheceu ele, com um sorriso amarelo, para o jornal China West Metropolitan News. "Talvez possamos transformar essa falsidade em verdade e fazer surgir o amor", acrescentou, esperançoso.

Muitas "namoradas de aluguel" são estudantes universitárias. Liu Ying, que já se formou na faculdade, oferece-se para aluguel em Changchun (norte do país): "Aluguel de namorada, 500 iuanes por dia. Bem educada, de alta categoria, quer trabalhar em tempo parcial durante as férias". Ela acrescenta, antes de deixar seu telefone no anúncio: "Posso acompanhar estudantes que sejam muito responsáveis com sua família. Por favor, dispenso mal-humorados".

Dois conceitos profundamente chineses, além do pragmatismo, são básicos para entender este fenômeno: "mianzi" (literalmente "cara"), que se refere à honra, e "xiao shun", que é a obediência à família. Os dois são ainda muito fortes no campo, de onde desde 1980 saíram cerca de 185 milhões de pessoas para as cidades. Por causa do Ano Novo, ou Festival da Primavera, que este ano começa no dia 9 de fevereiro, muitos voltam para seus lares e, eventualmente, têm que apresentar uma namorada à família.

"Quando existe uma demanda no mercado cria-se uma oferta", explicou Xia Xueluan, catedrático de Sociologia da Universidade de Pequim, a mais prestigiada da China. Ele não tem muito bom conceito sobre as "namoradas de aluguel": "As boas mulheres não faz", a quem compara com prostitutas. Ele diz que existe perigo de contágio de doenças sexualmente transmissíveis e AIDS "porque a menina irá para a casa do jovem e ficará alguns dias, por isso haverá contato sexual".

O catedrático atribui o fenômeno à uma "atitude social lúdica". "Eles brincam com a vida e com as emoções e isto traz más conseqüências. Se encontram um parceiro, não serão fiéis e talvez nunca lhe expliquem que antes alugaram uma namorada. É um engano, embora o façam por obediência à família".

Se a sociedade chinesa submete assim os filhos homens, futuro sustento familiar, imagine pelo que passam as mulheres, que segundo a tradição nasceram para se casar. "Tenho 25 anos, não sou bonita nem feia, sou assistente de gerência de uma empresa estrangeira em Pequim. Não agüento a pressão dos meus pais em Sichuan (sudoeste), mas não encontro namorado porque trabalho muito", diz outro anúncio na Internet. "Preciso de um homem entre 28 e 38 anos, que meça entre 1,72 e 1,80 metro, com aparência correta, diplomata e discreto. Pago entre 150 e 200 iuanes por dia, além da passagem de avião. Posso assegurar que não haverá relação e ele dormirá num quarto individual. Não aceito casados, gerentes e carecas", acrescenta.

Zhong Iuane se ofereceu para "ser alugado" pela jovem, diz que é ex-aluno da Universidade de Pequim e que trabalha como consultor financeiro em Pequim e Xangai. "Quero conhecer mais mulheres para ter mais oportunidades", declarou. "Poderíamos chegar a desenvolver uma relação, não tenho nada a perder e se eu gostar dela, não cobrarei", propõe.

Zhong diz que teve várias namoradas, mas nenhuma era a ideal, porque as mulheres que conhece "ou estão casadas" ou são muito "dedicadas" a seu trabalho. "Me fariam perder a honra".

A "Política do Filho Único" multa o casal que tenha um segundo filho desde 1970, o que criou uma desproporção de 119 homens para cada 100 mulheres na China devido aos abortos seletivos de meninas, que são mais rejeitadas. Por isso, os especialistas projetam 40 milhões de solteiros em 2020 e o aumento da prostituição e do tráfico de mulheres.

EFE
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Terra - Brasil
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