Pesquisadores vão ao MS em busca de fósseis

Quinta, 7 de outubro de 2004, 08h41


Pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo começam hoje a estudar rochas do período Neoproterozóico, no interior do Mato Grosso do Sul, consideradas como se fossem uma obra geológica escrita entre 1 bilhão de anos e 500 milhões de anos atrás. "Estaremos estudando rochas como se fossem um livro muito antigo, que contém uma linguagem ainda pouco conhecida", disse o pesquisador Paulo Boggiani.

Boggiani faz parte de uma expedição que irá investigar durante uma semana diversos locais ao longo do Rio Paraguai, no Pantanal, a procura de fósseis. "Vamos atrás das novas frentes de lavra que existem na região. Essa é a única forma de visualizar os afloramentos da área e estudar o interior das rochas", explica o pesquisador. Na região de Corumbá, explica, já foram encontrados fósseis de Cloudina e Corumbella, ambos animais bastante primitivos.

"O nome Corumbella é uma homenagem à cidade de Corumbá", conta Boggiani. Cloudina é o primeiro organismo conhecido, em toda história evolutiva da Terra, com um tipo primitivo de esqueleto. "Esse fóssil é cosmopolita, existe no Brasil, na África, na China e na Arábia", explica Boggiani. Entre os integrantes da excursão pelo Pantanal está o sul-africano Gerard Germs, primeiro a descrever um exemplar de Cloudina.

No Neoproterozóico, que está inserido em termos de intervalo de tempo no Precambriano, todos os continentes atuais estavam unidos. No período surgiu a chamada fauna de Ediacara, composta exclusivamente por animais de corpo mole.

"Todos os animais desse grupo desapareceram alguns milhões de anos depois. O que foi bom, pois, do contrário, seriamos todos amebóides, sem esqueleto", brinca Boggiani. Para o pesquisador, analisar os fósseis do Neoproterozóico é uma forma também de tentar elucidar uma outra questão que vem causando sérias polêmicas no mundo geológico e biológico.

"Uma das teses que existe hoje é que o continente único que havia durante o Neoproterozóico teria sido totalmente recoberto por gelo não uma, mais duas vezes", explica. Essa idéia surgiu a partir de estudos que mostram que naquele tempo houve a formação de gelo próximo ao Equador.

Cientistas brasileiros terão a companhia de colegas da Alemanha, Argentina, África do Sul, Canadá e Uruguai. O grupo foi formado durante um congresso científico internacional realizado esta semana em São Paulo. Tanto o congresso quanto a expedição fazem parte de um projeto financiado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

No congresso, grupos do Uruguai e da Argentina trouxeram dados que ajudam a refutar a tese, pelo menos por enquanto. "Eles ressaltaram que não existe nenhum evidência de gelo no intervalo de tempo que estudaram", disse Boggiani.

Segundo o geólogo brasileiro, a polêmica pode ser considerada parecida com a da extinção dos dinossauros. Dentro desse "livro" ainda incompleto, entretanto, os pesquisadores já sabem que o Neoproterozóico teve um papel importante na evolução da vida sobre a Terra. "A grande explosão ocorreria apenas no Cambriano, mas as drásticas mudanças que ocorreram antes tiveram um papel fundamental", afirma.

Revista Pesquisa Fapesp
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Terra - Brasil
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