A Prefeitura do Rio de Janeiro gastou R$ 900 mil no ano passado para manter e recuperar parte dos 694 monumentos da cidade. As obras de arte são alvo de vandalismo e vêm sendo depredadas para que seu material seja vendido.
"É um absurdo o que acontece na cidade com esses monumentos", diz o poeta Alexei Bueno, curador da galeria de arte da Academia Brasileira de Letras e ex-diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). "São obras de valor cultural inestimável, que sofrem com o vandalismo e o descaso da prefeitura".
De acordo com a Fundação Parques e Jardins, órgão ligado à Secretaria Municipal de Meio Ambiente e responsável pelos marcos, o Rio é a cidade brasileira que mais tem monumentos públicos no País. A cidade que sediou a capital do Brasil Colônia, do Império e da República forma um museu a céu aberto, mas o desafio é identificar os personagens dessa história, por causa da falta de placas explicativas.
No Largo São Francisco de Paula, no Centro, a obra doada pela Argentina ao Brasil pelo centenário da Independência perde o sentido por não ter placa explicativa. O monumento, recuperado em julho do ano passado, já perdeu também outras partes. Da musa da "Sciencia", uma das quatro que circundam a figura de José Bonifácio, foi retirado um objeto de sua mão. Nem a grade protetora foi poupada e ao menos 12 lanças já se foram.
"São os moradores de rua que depredam isso aqui", diz o cabo Salsa, da Polícia Militar (PM), que faz patrulha na praça. "Eles compram serrinhas que custam R$ 1 e ficam à noite aqui, usam até paralelepípedo para quebrar o metal. Precisam manter o vício de álcool e drogas".
As grades altas cercam o largo com a estátua mais antiga do Rio, na Praça Tiradentes. A imagem de Dom Pedro I está intacta, mas as luminárias inspiradas no modelo antigo são o alvo. Um guarda municipal faz a patrulha do terreno com mais de 4 mil m² e fecha os portões às 18h. Os postes de metal não têm tampas e são um convite ao roubo da fiação. Um morador de rua que frequenta o local explica o esquema de comercialização de placas metálicas.
"A gente pega o pedaço de metal, pode ser qualquer um desses de monumento, e vende para lojas de material de construção. Eles pagam R$ 12 por placa. Quem compra é um homem educado, que sempre nos trata bem", diz ele, que admite o vício em álcool.
A aura europeia poderia ser maior na Praça Paris, na Glória, se os monumentos estivessem completos. O busto do Visconde de Porto Seguro perdeu os óculos e a legenda. As letras de metal foram roubadas e o livro de uma musa, que fica abaixo, foi retirado por completo. Na mesma praça, o monumento ao Almirante Barroso, onde o próprio está enterrado, teve arrancado as placas baixas que já foram substituídas várias vezes. Outros cinco bustos também se acham sem placas.
"Se um dia eu tiver um busto, quero o meu nome nele", diz a copeira Mara Moraes, que não reconhece nenhum personagem.
Há aproximadamente um ano, a guarda municipal faz ronda 24 horas na praça, a fim de evitar atos de vandalismo e depredação.
A amizade de São Francisco e Santa Clara, exibida em uma estátua da Praça Russel, na Glória, só é compreendida por católicos. Duas placas explicativas foram levadas, além de dois dos quatro relevos em bronze do pedestal terem sido roubados. No mesmo espaço, três bustos estão no anonimato.
O primeiro jardim público do Rio também sofre com a ação dos vândalos. No Passeio Público, no Centro, o Chafariz dos Amores do Mestre Valentim está incompleto. A cartela do menino de metal, onde estava escrito ¿Sou útil inda brincando¿, foi levada pela segunda vez. Em outra parte da fonte, faltam as línguas dos jacarés de bronze.
Uma coluna de cimento foi o que restou do busto do marechal Mascarenhas de Moraes, na esquina das avenidas Presidente Antonio Carlos e Beira-Mar. O personagem ficou para a história.
Roubo dá prejuízo 15 vezes maior que lucro
Uma estimativa da Gerência de Monumentos do Rio de Janeiro aponta que o prejuízo causado pelos roubos de placas e adornos feitos em metal de praças e monumentos da cidade é 15 vezes maior do que o lucro obtido pelos ladrões com a venda objetos, feitos geralmente em bronze.
"O cidadão precisa ter a consciência de que o dinheiro gasto para recuperar as obras públicas poderia ser empregado para fazer novas obras e peças", diz a gerente de monumentos da prefeitura, Vera Dias.
De acordo com a Fundação Parques e Jardins, órgão municipal ligado à Secretaria de Meio Ambiente, uma placa de bronze nas dimensões de 45 cm por 50 cm custa R$ 2 mil. As chapas com letras desenhadas chegam a custar R$ 6 mil.
Vera conta que, no Aterro do Flamengo, o Monumento ao Índio teve as letras recuperadas. A obra, da década de 1920, foi restaurada há dois anos, o investimento foi de R$ 14 mil e, atualmente, não resta nenhum caractere para explicar o motivo da homenagem.
"O prejuízo que a prefeitura tem com a reposição dessas placas é entre 10 e 15 vezes maior que o lucro do autor do vandalismo", contabiliza ela.
A gerente de monumentos aponta locais que compram recicláveis como possíveis interceptadores dos metais roubados. Porém, o comércio ilegal seria feito sem o conhecimento do comprador. Segundo ela, os atos de vandalismo nunca foram tão intensos como atualmente.
O contraventor que for flagrado cometendo ato de vandalismo é enquadrado por crime contra o patrimônio público e pode ser condenado a ficar na prisão por três meses a três anos.
"Nós precisamos da ajuda da população para combater esse crime. A pessoa que vir alguém fazendo ligue para a polícia, grite ou chame alguém", recomenda Vera Dias.
Para a gerente da prefeitura, a depredação de monumentos é reflexo de uma sociedade em desequilíbrio e é um problema difícil de contornar.
JB Online