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Análise: sob fogo cruzado, ex-presidente pode "salvar" o Irã

Segunda, 22 de junho de 2009, 11h54
Rafsanjani criticou abertamente Ahmadinejad durante a campanha eleitoral
Rafsanjani criticou abertamente Ahmadinejad durante a campanha eleitoral
22 de junho de 2009
Getty Images


Michael Slackman

The New York Times


Mesmo antes que sua filha e quatro outros parentes passassem por uma breve detenção, no domingo, um dos grandes mistérios do Irã desde a eleição presidencial contestada vem sendo determinar qual é exatamente o papel do ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani.

Um dos mais ricos e poderosos homens do Irã, e antigo braço direito do pai da revolução, o aiatolá Ruhollah Khomeini, Rafsanjani criticou abertamente o presidente Mahmoud Ahmadinejad durante a campanha eleitoral, e declarou seu apoio ao candidato oposicionista Mir Hossein Moussavi.

O fato de que ele não apareça em público há algum tempo, somado à provocação que a detenção temporária de alguns de seus parentes representa, parece ser prova de uma escalada na batalha interna entre duas alas da elite política iraniana. Mesmo que os protestos de rua venham a ser suspensos, essa cisão ameaça paralisar o Estado e solapar a legitimidade que os líderes do país vêm tentando construir desde a revolução de 1979, dizem analistas.

"Considero que a elite política do país esteja mais dividida agora do que em qualquer outro momento dos 30 anos de história da república islâmica", disse Karim Sadjadpour, analista político do Carnegie Endowment for International Peace. "Rafsanjani, um dos pais fundadores da república e o homem que tornou Khamenei o líder supremo, agora está na oposição."

Rafsanjani, 75 anos, que preside duas poderosas instituições do Estado, vem trabalhando nos bastidores por uma solução de compromisso quanto à disputa sobre o resultado da eleição presidencial de 12 de junho, disse um parente dele no domingo. A detenção de seus familiares, segundo o parente, é uma tática de pressão de seus oponentes.

Parece claro que o líder ocupa posição central em uma disputa quanto ao futuro da república islâmica. A visão de Estado de Rafsanjani, e sua posição na história do país, estão sendo contestadas por uma nova elite política comandada por Ahmadinejad e por radicais mais jovens que combateram o Iraque na guerra de oito anos entre os dois países.

Ahmadinejad e seus aliados vêm tentando solapar a posição de Rafsanjani com acusações de corrupção e fraqueza, ataques que o aiatolá Ali Khamenei não desencorajou de maneira decisiva. Na ponta oposta, líderes oposicionistas, e especialmente Moussavi, receberam apoio declarado de Rafsanjani, afirmam analistas políticos.

"O jogo se tornou extremamente radical e perigoso", afirmou um consultor político iraniano expatriado, que pediu que seu nome não seja mencionado porque sua família ainda vive no Irã e ele teme represálias.

É uma reviravolta histórica considerável que Rafsanjani, um astucioso operadora político muito bem conectado, se veja alinhado a um movimento reformista que, no passado, o criticava como profundamente político. Nos primeiros dias da revolução, Rafsanjani era um dos mais radicais proponentes do antiamericanismo, e chegou a ser indiciado por ter ordenado um atentado a bomba contra um centro judaico em Buenos Aires, Argentina, quando era presidente do Irã, em 1994. Mas evoluiu e se tornou mais pragmático, com o passar dos anos, segundo os analistas.

Ele agora apoia maior abertura ao Ocidente, a privatização de partes da economia e a transferência de mais poder a instituições civis eletivas. A posição de Rafsanjani é diametralmente oposta à de membros do governo que desejam fortalecer o controle religioso e pouco fizeram para modernizar uma economia estagnada.

E além do aspecto ideológico, a disputa também tem componentes pessoais.

"No nível político, o que vem acontecendo agora, entre muitas coisas, é que a rivalidade existente há 20 anos entre Khamenei e Rafsanjani está chegando ao domínio público", disse Sadjadpour. "Trata-se de uma versão iraniana da disputa entre as famílias Corleone e Tattaglia; não se trata de mocinhos versus bandidos, mas de bandidos contra bandidos ainda piores."

Não se sabe ao certo que nível de influência Rafsanjani será capaz de exercer nessa disputa. Caso ele se pronuncie abertamente, diz o parente, perderá a capacidade de intermediar um compromisso. Rafsanjani preside dois poderosos conselhos, um dos quais tecnicamente fiscaliza as ações do líder supremo, mas não está claro que possa exercitar essa autoridade em desafio direto a Khamenei.

Mas mesmo que mantenha o silêncio, os antecedentes de Rafsanjani representam um problema para Khamenei.

No sermão da sexta-feira, o líder supremo apelou por unidade entre os líderes. Criticou Ahmadinejad em termos amenos por seus ataques pessoais a Rafsanjani. Mas também deixou claro que nem mesmo um histórico revolucionário impecável salvaria líderes políticos que vão longe demais, o que representa uma clara ameaça a Rafsanjani, dizem analistas.

"Caso a elite política ignore a lei, será - quer queira, quer não - responsável pelo caos e pelo sangue derramado", afirmou Khamenei. "Insto meus velhos amigos e irmãos que sejam pacientes e que mantenham seu autocontrole."

Um analista político afirma que a chave para compreender Rafsanjani é o livro que ele escreveu sobre Amir Kabir, um líder reformista iraniano do século 19. Rafsanjani, diz o analista, quer ser o Amir Kabir da era moderna.

E isso pode explicar sua decisão de, por enquanto, manter o silêncio e a distância quanto às manifestações de rua e à liderança que muitos acreditam ter fraudado a eleição presidencial.

"Ele é uma incógnita no momento", disse o analista político expatriado. "Mas muitos esperam que seja o homem capaz de consertar a situação."

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times

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Terra - Brasil
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