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Soldado que matou colegas havia sido enviado à terapia

Quinta, 14 de maio de 2009, 08h36
John M. Russel matou cinco pessoas em uma base americana no Iraque
John M. Russel matou cinco pessoas em uma base americana no Iraque
14 de maio de 2009
AP


JAMES DAO e LIZETTE ALVAREZ

Do New York Times


Ele fez carreira no Exército, no qual se alistou para garantir um emprego fixo, mas se afundou em dívidas devido a uma hipoteca de US$ 1,5 mil mensais, segundo seu pai. Recentemente, a semanas de terminar sua terceira missão no Iraque, o sargento John M. Russel teve problemas com seu oficial comandante, que o ordenou a entregar sua arma e receber ajuda psicológica.

Na segunda-feira, após um confronto com a equipe médica da clínica de Camp Liberty, uma grande base nos arredores de Bagdá, Russel retornou com uma arma, possivelmente arrancada de sua escolta armada, e matou cinco pessoas, segundo oficiais do Exército. Aparentemente, é o pior caso de violência entre soldados de forças americanas nos seis anos de guerra no Iraque.

Russell, 44 anos, do 54º Batalhão de Engenharia, com base em Bamberg, Alemanha, está sendo processado por cinco acusações de assassinato e uma acusação de agressão com circunstância agravante no tiroteio, disse o major-general David Perkins, porta-voz das forças armadas no Iraque.

Os mortos incluíam um oficial do Exército e um oficial da Marinha da equipe médica, e três soldados alistados que estavam no local. Na terça-feira, os detalhes do tiroteio permaneciam incertos e o Exército iniciou uma investigação criminal e uma averiguação de como Russel conseguira a arma. Mas os múltiplos traços da vida de Russel começaram a surgir nos longos comentários de seu pai para uma estação de televisão do Texas.

Na entrevista para a KXII, Wilburn Russel disse que seu filho havia recentemente enfurecido um oficial comandante que o "ameaçou". Quando o oficial ordenou que Russel se submetesse a terapia e entregasse sua arma - uma censura pesada entre militares -, ele ficou nervoso pelo Exército estar "armando contra ele" para que fosse dispensado, disse Wilburn Russell.

Com uma casa recentemente construída em Sherman, Texas, uma cidade de 37 mil habitantes a norte de Dallas, Russel estava profundamente angustiado com a possibilidade de perder não apenas seu salário, mas também sua pensão militar, disse seu pai.

"Se alguém vai à clínica para pedir ajuda, eles o consideram um fraco, acham que tem algo de errado com ele e tentam se livrar dele", disse Wilburn Russell. "Bem, ele não foi pedir ajuda voluntariamente. Eles marcaram uma consulta e armaram para cima dele. Eles o conduziram para fora. Queriam botar o máximo de pressão possível para que ele fosse removido."

Acrescentou: "Acho que o prejudicaram". John M. Russel se alistou na Guarda Nacional do Exército em 1988 e foi efetivado no Exército em 1994, mostram registros militares. Um porta-voz do Exército em Washington se negou a comentar sobre Russell, citando as investigações em andamento. Mais cedo, entretanto, Perkins afirmou que o Exército havia lidado com o caso de forma apropriada.

"Todas as ferramentas estavam sendo utilizadas", disse Perkins. "Eles concluíram que ele precisava de cuidados mais intensivos do que a unidade poderia proporcionar, então o enviaram para a clínica. Cumprimos com todas as coisas para as quais fomos treinados." A Marinha identificou seu oficial morto como o comandante Charles Keith Springle, 52 anos, de Wilmington, Carolina do Norte, um assistente social clínico licenciado.

Até terça-feira à noite, o Exército não havia divulgado os nomes das outras vítimas, pois esperava a notificação às famílias. O tiroteio renova o debate a respeito do estresse sofrido por tropas mobilizadas múltiplas vezes no Iraque e no Afeganistão. No ano passado, o Exército teve cerca de 140 suicídios confirmados, um recorde desde o início desse tipo de registro em 1980. Muitos especialistas defendem que o envio repetido de soldados para zonas de combate é um fator por trás das altas taxas, juntamente a problemas financeiros e conjugais.

Pesquisas e estudos do Exército mostram que múltiplas missões e missões longas também contribuem para as altas taxas de transtorno de estresse pós-traumático, depressão e problemas conjugais. Ainda é incerto se Russell ficou sob fogo no Iraque ou testemunhou a morte de um colega. Oito soldados do 54º Batalhão foram mortos no Iraque, segundo dados compilados pelo New York Times.

Mas Wilburn Russell afirma que o trabalho de seu filho envolvia resgate e reconstrução de robôs que disparavam bombas em estradas, e que, conseqüentemente, era provável que ele tivesse visto "muita carnificina e muita coisa que ele não deveria ter visto, que ninguém deveria ver". "Isso afeta a pessoa", disse Wilburn Russell. "Ninguém deveria ser obrigado a ir três vezes. Eles deviam saber disso." Especialistas apontam, porém, que o número de casos de violência entre soldados é bem menor nas guerras atuais do que na Guerra do Vietnã.

A maioria dos soldados no Iraque que freqüenta os grupos de controle de estresse de combate vai voluntariamente. Mas alguns recebem ordens de seus comandantes para que sejam auxiliados ou avaliados após seu comportamento gerar preocupação quanto à sua saúde mental, como aconteceu no caso de Russell.

"Várias vezes, quando o comando fazia a recomendação por causa de problemas, era fingimento do soldado¿, disse Ronald Parsons, tenente-coronel aposentado do Exército que serviu em um grupo de estresse de combate em Camp Liberty e agora é gerente de casos de enfermagem do Departamento de Assuntos de Veteranos de Guerra em Boston.

Camp Liberty é uma das quatro bases que oferecem aos soldados um lugar para ir quando precisam de descanso e acompanhamento mais intensivo. Esses grandes centros de recuperação oferecem três refeições quentes e um beliche para que a pessoa possa dormir por até quatro dias e recarregar as energias. Enquanto estão lá, recebem cuidados mais rigorosos, como terapias de grupo ou individuais.

Pede-se aos soldados que passam por clínicas ou centros de recuperação que mantenham suas armas guardadas em segurança. Os terapeutas normalmente levam suas armas descarregadas. Russell estava no centro de recuperação quando o tiroteio ocorreu, embora não esteja claro se ele estava participando do programa recuperação ou apenas procurando serviços ambulatoriais.

É incomum que um comandante no Iraque retire a arma de um soldado, e isso normalmente acontece quando se teme a possibilidade de suicídio ou ferimento a terceiros, a partir de algo que o soldado tenha dito. Especialistas em saúde mental também podem determinar a remoção da arma de um soldado. A arma seria devolvida apenas após uma reavaliação comportamental por um profissional. Se a saúde mental de um soldado não melhorar, ele pode ser medicado, hospitalizado e, em último caso, retirado do Iraque.

O doutor Daniel Lonnquist, psicólogo clínico do Departamento de Assuntos de Veteranos de Guerra que esteve duas vezes no Iraque como parte de uma equipe de controle de estresse, disse que quando a situação não avança em duas semanas ou um mês, o soldado é geralmente enviado de volta. "A maioria dos comandantes diria, em certo ponto, que o soldado não era mais útil para ele", disse Lonnquist.

Camp Liberty, uma enorme instalação, tem 14 profissionais de saúde comportamental, incluindo dois psiquiatras, que atendem 500 pacientes por mês. O tenente-coronel Edward Brusher, vice-diretor de suporte para o cirurgião-geral, disse que em março havia um profissional para 640 homens em serviço no Iraque. "Atualmente, existem profissionais de saúde comportamental suficientes", disse Brusher.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times

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Terra - Brasil
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