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Ritual idêntico marca chegada de soldados mortos no Iraque

Sábado, 9 de maio de 2009, 13h22


KATHARINE Q. SEELYE

Do New York Times


Na segunda-feira à noite, o que o Exército chama de "transferência digna" aconteceu novamente na Base da Força Aérea em Dover. Foram 15 minutos de precisão dolorosa, em que sete soldados transferiram dois caixões cobertos por bandeiras do porão de carga de um 747 para o fundo de um grande caminhão branco a alguns metros de distância.

O ritual é sempre idêntico, mas a dor das famílias se renova. Foi assim que aconteceu na segunda-feira, quando um lamento choroso de um familiar irrompeu em meio ao zumbido do sistema de energia auxiliar do avião.

Os caixões traziam os restos mortais de dois especialistas do Exército, Jake R. Velloza, 22, e Jeremiah P. McCleery, 24, ambos da Califórnia, mortos no sábado por um atirador inimigo, aparentemente vestido com o uniforme de um soldado iraquiano, em Mosul, Iraque.

Eles estavam entre as últimas das mais de 4,2 mil mortes de militares americanos no Iraque desde o início da guerra em 2003. Sua chegada aqui na segunda-feira à noite, em meio a uma garoa fria, no principal ponto de reentrada dos mortos de guerra da nação, marcou o primeiro mês de uma nova política do Pentágono, que permite pela primeira vez em 18 anos a cobertura da imprensa durante a transferência dos corpos, desde que haja consentimento das famílias. Sob outra nova medida, o Pentágono vai pagar pela viagem das famílias até Dover se elas desejarem assistir à chegada dos corpos. Desde que as novas medidas entraram em vigor, quase todas as 27 famílias envolvidas fizeram a viagem para o local e 19 permitiram o acesso da mídia.

As famílias têm apenas um vislumbre de 15 minutos dos procedimentos. Elas são mantidas a alguns metros de distância do avião, protegidas da mídia, que fica em frente de um ônibus na pista de decolagem. As famílias não podem se aproximar nem tocar os caixões. Depois que o caixão é colocado no fundo do caminhão, um pequeno carro da polícia, com suas luzes vermelhas e azuis piscando, escolta o caminhão pela pista até o necrotério, o maior do país.

As famílias então voltam para casa. Nos dias que se seguem, técnicos médicos examinam o corpo à procura de munições não detonadas, fazem uma autópsia e preparam o corpo para o funeral. Ele é colocado em um saco apropriado e empacotado com gelo para a viagem de volta para casa, que geralmente ocorre em um pequeno avião fretado de motor duplo.

A primeira chegada dos caixões após a suspensão da proibição da mídia, em 5 de abril, atraiu 35 jornalistas; desde então, o número tem diminuído, às vezes para apenas um fotógrafo da Associated Press.

Os familiares podem falar com a mídia se desejarem, mas precisam requisitar o contato. Apenas um familiar requisitou falar com a mídia no último mês. Ele era David Pautsch de Davenport, Iowa, cujo filho, Jason, 20, foi morto em meados de abril com quatro outros soldados, quando um homem-bomba dirigindo um caminhão detonou uma tonelada de explosivos perto de um posto policial em Mosul.

"Eu disse, 'Ah, sim'", Pautsch, 55 anos, dono de uma agência de publicidade, se recorda em uma entrevista telefônica na terça-feira. "Tenho orgulho de Jason ter vivido e morrido por um propósito, e quero que as pessoas saibam disso." Pautsch elogiou as Forças Armadas, mas disse que desejava ter tido permissão de ver o corpo de Jason antes dele ser levado para o necrotério.

Quando o corpo chegou na casa funerária em Iowa, Pautsch disse, "Pedi que ele fosse desempacotado. Só queria saber que era ele." Ele disse que não conseguiu identificar o filho do pescoço para cima, mas quando viu seus pés, teve certeza. "Conheço seus pés", ele disse. "Conheço o pêlo dos seus pés." Embora o ritual em Dover tenha sido distante e minimalista, Pautsch disse que o funeral de Jason em casa foi "digno de um presidente", com uma procissão que se estendeu por mais de 5 km.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
Leia esta notícia no original em:
Terra - Brasil
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI3753420-EI308,00.html