Garotos descarregam uma carroça de lixo que servirá para reconstruir uma casa parcialmente destruída por uma enchente |
Aba Dione, sete anos, encontrou seu fim há seis semanas na esquina repleta de lixo de uma casa abandonada, um lugar tão bom de se brincar quanto qualquer outro, quando as opções são lixo e mais lixo. Só que nesse caso, o denso tapete de sacolas e garrafas de plástico, trapos de roupa, chinelos velhos e compostos orgânicos flutuava ilusoriamente sobre vários metros de água; sem saber, Aba caiu e se afogou.
O lixo deve ter parecido seguro ao garoto, pois está em toda parte neste bairro miserável de cor parda, nas adjacências da capital Dacar. Por alguns trocados, carroças puxadas por cavalos raquíticos despejam lixo nas ruas sujas do bairro Medina Gounass, em Guediawaye, algo tão generalizado quanto o sol do meio-dia que frita a sujeira. Os moradores usam o entulho para proteger seus casebres e ruas contra as inundações desta área baixa próxima ao litoral atlântico; eles não têm outra opção.
O lixo, fortemente compactado e então coberto com uma fina camada de areia, é usado para elevar o piso das casas, que inundam regularmente durante o breve, porém intenso, verão chuvoso. Ele é também acumulado nas ruas cinzentas para evitar que virem canais de água. Durante meses, a água permanece no terreno baixo, num país que sofre com a seca.
O lixo substitui materiais de construção, um reforço crucial para lidar com a água estagnada - barato, de acesso imediato e abundante. O excedente desses despejos mal-cheirosos desponta pela areia, cobre o solo ao redor de residências caindo aos pedaços -- feitas com blocos de concreto de cinzas - e se torna pasto para cabras, parquinho para crianças descalças de nariz escorrendo e área de reprodução para enxames de mosca. Segundo grupos humanitários, as doenças prosperam: cólera, malária, febre amarela e tuberculose.
A 16 km da capital, as pilhas de dejeto são apenas uma característica intermitente da paisagem empoeirada. O lixo em Dacar é despejado sob placas desgastadas de "Proibido jogar lixo" e fogueiras queimam entulho a noite toda nas vizinhanças próximas à praia. Tiras pretas de saco plástico adornam arbustos, árvores e cercas de Dacar, uma metrópole repleta de serviços "faça-você-mesmo".
Mas aqui em Medina Gounass, o fluxo irrestrito de entulho encontra sua apoteose. "Não é a melhor maneira", disse Pape Yabandao, um pedreiro que trabalhava nas paredes de uma casa do bairro. "Mas o que podemos fazer?" O lixo também se tornou uma ferramenta de construção indispensável para ele. Por quê? "Não tenho recursos", explicou. "Se você não tem outra solução, e todos por aqui usam lixo, você também tem que usar. A água invade a casa e os quartos." Enquanto falava, uma carroça de lixo passava ao longe para despejar sua carga.
"É um problema de dinheiro", disse Zale Fall, que estava por perto. "As pessoas que vivem aqui não têm meios para obter areia e cascalho, então são obrigadas a chamar os carroceiros para o reforço da casa. É por nossas crianças. Melhor ter doenças do que morrer."
Ami Camara, mãe de Aba, não foi a primeira a perder um filho nos pântanos escondidos de Medina Gounass. De cabeça baixa no quintal de um casebre de quatro cômodos, onde ela e 15 familiares vivem, lembrou com pesar de ter dado banho em seu filho após o almoço e depois ter deixado que saísse para brincar. Mais tarde, seus amigos encontraram seus sapatos, e seu corpo.
"Tudo que acontece é a vontade de Deus", disse a avó do garoto, Yaline Ndaye. "Não há nada que possamos fazer." E se afastou. Os outros quatro filhos de Camara estavam brincando em um canto. Do outro lado da rua havia outra casa abandonada e escura, cheia até o teto de água e lixo.
Autoridades locais aceitam esse mundo de desespero com quase o mesmo fatalismo. "Queremos acabar com isso, porque é arriscado", disse Amadou Gaye, vice-prefeito de Medina Gounass, que tem uma população de cerca de 85 mil pessoas. "Mas as pessoas são pobres demais. E com lixo nessas áreas, há menos risco."
Entretanto, um risco rapidamente dá lugar a outro. Viver no lixo - comer, lavar-se e brincar com ele - "tem conseqüências nocivas", disse Abdou Karim Fall, da agência de desenvolvimento contra a pobreza Enda-Tiers Monde, com sede em Dacar. "Várias doenças vêm com ele", disse, "e elas estão bem avançadas nessas vizinhanças. Crianças são as mais expostas. As pessoas vivem o ano todo em contato com água parada e lixo".
Em um mundo de cabeça para baixo, onde o lixo não é retirado, mas procurado e despejado nos lares, "as pessoas não têm alternativa; elas estão abandonadas; elas só podem contar consigo mesmas", disse Joseph Gai Ramaka, cineasta senegalês que fez um documentário sobre um plano governamental inconcluso, o Plano Jaxaay, com o objetivo de construir habitações modernas para populações de áreas de risco.
"Essas são pessoas que se orgulham de estarem limpas", disse Ramaka, que hoje vive em Nova Orleans. "Quando elas são obrigadas a comprar lixo, é porque não têm escolha. Pelo menos, o lixo permite que elas durmam com seus pés fora da água, e em suas próprias casas."
A prática existe há anos. O bairro de Medina Gounass se formou no início da década de 1960, com a concentração de imigrantes rurais na periferia da cidade, um povo que não foi "educado na cultura do despejo de lixo", disse Fatou Sarr, sócio-antropólogo da Universidade Xeque Anta Diop, em Dacar, que escreveu sobre a área. Abençoado por um marabu, um homem sagrado muçulmano, o território atraiu mais colonos nos anos 1970, durante uma grande seca no país, quando os problemas das inundações pareciam não existir.
Com o passar dos anos, camada após camada de lixo foi acrescentada - algumas vezes chegando a quatro metros - para manter o chão acima da água, disse Mansour Ndoye, funcionário do Ministério de Assuntos Urbanos, Moradia e Construção que ajuda na administração do Plano Jaxaay.
"Essas são pessoas de renda extremamente baixa", disse. "Elas põem lixo e constroem sobre ele. E colocam ainda mais para conseguirem viver." Em Medina Gounass, o vice-prefeito Gaye empurrou um dos pântanos enganosos com seu pé. "Veja, aqui não está preenchido", disse. "Se alguém cair, estará tudo acabado para essa pessoa."
Tradução: Amy Traduções
The New York Times