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Fugida, imigrante cai em brecha da lei e tem destino incerto

Segunda, 4 de maio de 2009, 13h36
Xiu Ping Jiang, que aparece em uma foto sem data, já passou mais de um ano na prisão
Xiu Ping Jiang, que aparece em uma foto sem data, já passou mais de um ano na prisão
04 de maio de 2009
The New York Times


Nina Bernstein

Do New York Times


Por duas vezes o juiz de imigração perguntou o nome da mulher. Ela respondeu, as duas vezes: Xiu Ping Jiang. Mas o juiz repreendeu a interrogada, chinesa radicada em Nova York, por ter respondido à sua pergunta antes que o intérprete oficial a traduzisse para o mandarim. "Minha senhora, vamos repetir a tentativa, e depois disso, se o problema se repetir, vou ignorar sua presença aqui", declarou Rex Ford, o juiz de imigração, na primeira audiência de Xiu, no ano passado, em Pompano Beach, Flórida. Ele a ameaçou com uma ordem de deportação por não comparecimento ao tribunal.

Xiu, uma garçonete sem ficha criminal e sem advogado, havia tentado o suicídio mais de uma vez. Sua resposta à ameaça do juiz, registrada pela transcrição do tribunal, aconteceu em inglês imperfeito. "Senhor, eu não... não posso ir para casa", ela disse, em referência à China, da qual segundo sua família ela fugiu em 1995, depois de sofrer esterilização forçada aos 20 anos de idade. "Se morrer, morro na América".

O juiz levou a audiência adiante. "A depoente, depois de ser devidamente notificada, não compareceu ao tribunal", ele disse, para registro. E enquanto ela declarava que "agora vou morrer", ele assinou uma ordem de deportação que a enviaria de volta à China, e determinou que Xiu retornasse ao centro de detenção da imigração no condado de Glades.

Esse diálogo, e a experiência sombria pela qual ela passou junto ao sistema de policiamento da imigração, só foram revelados por acidente. Xiu é homônima da mulher de Jiverly Wong, o cidadão vietnamita que matou 13 pessoas em um ataque a um centro de serviços para imigrantes em Binghamton, Nova York, no mês passado. Quando jornalistas saíram à procura de informações sobre a mulher dele, encontraram referências ao caso da outra Xiu nos arquivos do Judiciário.

A chinesa Xiu, 35 anos, já passou mais de um ano detida, e boa parte desse período em confinamento solitário. Isso agravou a doença mental que a impede de contestar a deportação ou obter os documentos de viagem necessários a permitir que ela aconteça, de acordo com uma petição de habeas corpus que solicita sua libertação e está à espera de julgamento. A petição alega que ela tem impulsos suicidas, que está emaciada e não vem recebendo o tratamento médico devido.

Se ela fosse a Xiu Ping Jiang conectada ao assassino, sua história teria se tornado notícia imediata em todo o mundo. Mas ela é na verdade uma espécie de sósia da era da internet, perdida em um dos desvãos escuros criados pelas leis de imigração, e a única vida que talvez esteja em jogo é a sua. "Temo que minha irmã cometa suicídio na cadeia", disse Yun, 37 anos, sua irmã mais velha, que considerou Jiang irreconhecível quando a visitou no centro de detenção, em fevereiro.

A jornada de Xiu, de uma aldeia na China a restaurantes em Brooklyn e uma cela sem móveis no sul da Flórida, sob a custódia do Serviço de Imigração e Alfândega, ilustra a vulnerabilidade das pessoas mentalmente enfermas no sistema de imigração, dizem pessoas que defendem os imigrantes.

"É uma questão realmente dolorosa, realmente difícil, e um problema cada vez mais grave", diz Sunita Patel, advogada do Centro dos Direitos Constitucionais de Nova York e parte de um grupo internacional de advogados e de trabalhadores da saúde que procura lutar pela adoção de regras menos ásperas. Ninguém mantém estatísticas sobre esse tipo de caso, mas ela acrescentou que "com todas as medidas de fiscalização que a Imigração está impondo, mais e mais pessoas que sofrem de doenças mentais vêm sendo detidas. E essas pessoas ocasionalmente desaparecem".

Funcionários do serviço federal de imigração afirmam que não podem comentar sobre casos individuais. Mas Elaine Komis, porta-voz do gabinete executivo de revisão da imigração, que supervisiona os tribunais de imigração dos Estados Unidos, disse que não havia regras para determinar competência em audiências de deportação, e maneira alguma de garantir representação legal para uma pessoa que enfrenta a possibilidade de deportação.

"Não há o direito de representação paga pelo governo, nos tribunais de imigração", afirmou Komis em mensagem escrita, "e isso significa que não existe um defensor público que possa ser apontado quando o detido é considerado mentalmente incapaz".

As práticas de detenção adotadas pela Imigração norte-americana estão passando por uma revisão abrangente ordenada por Janet Napolitano, a secretária da Segurança Interna, declarou Richard Rocha, um porta-voz da agência, acrescentando que "a Imigração reconhece a necessidade de considerar as questões de saúde mental que afetam seus prisioneiros".

Não se conhece ao certo a natureza do problema mental de Xiu, e as autoridades de imigração não permitiram acesso à sua ficha médica - nem mesmo aos advogados que a representam. O governo afirma que ela se recusa a assinar um termo de responsabilidade que permitiria o acesso a essas informações. As duas irmãs de Xiu, que vivem em Nova York, a descrevem como uma mulher doce e discreta que perdeu o juízo devido às pressões de uma vida como imigrante ilegal em busca de asilo.

"Para salvá-la, eu trocaria de lugar com minha irmã", declarou Yun, uma das irmãs, em entrevista no escritório de advocacia de Cox, falando por meio de um intérprete. "Podem me colocar na cadeia".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
Leia esta notícia no original em:
Terra - Brasil
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI3743498-EI8141,00.html