Jonathan (dir.), 3 anos, "inspeciona" o irmão mais velho, supeito de ser o primeiro infectado pela gripe suína |
Marc Lacey
Do New York Times
Edgar Hernández relata os severos sintomas da gripe que sofreu algumas semanas atrás como se tivesse bem mais que os seus 5 anos: sentia febre. Tossiu até que sua barriga e garganta doessem. Não queria comer, o que é estranho para ele, já que costuma devorar tudo que lhe aparece pela frente.
"Agora estou bem", ele disse com um sorriso, na quinta-feira. Mas o governo identificou Edgar como a primeira pessoa no México a ser infectada por uma variante da gripe suína, uma notoriedade que deixa seus pais ansiosos e pode despertar questões quanto à maneira pela qual as autoridades mexicanas reagiram, ou deixaram de reagir, nos estágios iniciais daquilo que pode se tornar uma epidemia mundial.
Edgar é um entre as centenas de moradores de La Gloria que começaram a apresentar sintomas semelhantes aos a gripe em um surto iniciado na metade de março. Os moradores locais acusam os funcionários da saúde pública de desdenhar o surto quando ele surgiu, e de reassegurá-los de que nada sério estava acontecendo. Os funcionários do governo federal mexicano afirmam ter respondido com rapidez à crise, ainda que apenas depois que o vírus começou a infectar pessoas de outra parte do país, pelo menos uma semana depois que Edgar desenvolveu sintomas.
Uma das muitas coisas desconhecidas sobre a feroz gripe que Edgar contraiu é determinar se ela deveria ter causado alarme mais cedo e, caso isso tivesse acontecido, se o surto poderia ter sido contido.
La Gloria talvez não venha a ser identificada como a fonte de coisa alguma. A aldeia tem muitos imigrantes que vivem nos Estados Unidos. Os epidemiologistas mexicanos afirmam que uma teoria é a de que alguém que viajou ao país vizinho tenha trazido o vírus ao retornar à comunidade. Antes que Edgar adoecesse, outra pessoa em San Diego pode ter sido afetada, disse Miguel Angel Lezana, diretor do Centro Nacional de Vigilância Epidemiológica e Controle de Enfermidades, a principal agência federal de saúde mexicana.
Mesmo agora a mãe de Edgar, Maria del Carmen Hernández, disse estar recebendo informações conflitantes sobre a doença que deixou seu menino de cama por três dias. Ninguém explicou o que ela deveria fazer para manter a saúde de Edgar e do resto da família, disse, um sinal de que os esforços de resposta mexicano podem ser descoordenados, especialmente nas regiões rurais.
"Algumas pessoas estão dizendo que meu filho é culpado por todo mundo que adoeceu no país", diz Hernandez, 34 anos, com um olhar inexpressivo. Ela relata os problemas de sua família e diz que "não acredito nisso. Não sei o que pensar sobre o assunto".
Houve uma elevação modesta no número de casos mundiais de gripe suína, na terça-feira. Nos Estados Unidos, o número de casos confirmados subiu a 64, ante a contagem de 50 registrada na segunda-feira, de acordo com um briefing do Dr. Richard Besser, diretor interino do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, a jornalistas. O total inclui 45 casos na cidade de Nova York. Não houve mortes causadas pela doença no país, mas cinco pessoas foram hospitalizadas para tratamento.
O México continua a ser o país mais atingido, e o número de mortes atribuídas à gripe suína já ultrapassou as 150. Em La Gloria, duas crianças morreram da gripe em março e no começo de abril, ainda que as autoridades tenham dito que não determinaram até agora se os óbitos foram causados pela mesma variedade de vírus que infectou Edgar e se espalhou amplamente por outros lugares. Essa e outras questões mantiveram os moradores locais enervados e confusos.
Cada batida na porta traz uma nova surpresa para a família Hernandez: fumigadores que trataram sua casa mas não informaram a eles sobre o que; cientistas que apareceram para obter uma amostra de tecido mucoso da garganta de Edgar; e até mesmo o governador do Estado de Veracruz, que chegou de helicóptero na segunda-feira acompanhado por uma comitiva e partiu depois de presentear Edgar com uma bola de futebol e um boné de beisebol.
Na segunda-feira, o médico local que tratou os Hernandez disse à família que o menino havia sofrido gripe, mas não gripe suína, disse Maria del Carmen. No entanto, algumas horas antes, o governador Fidel Herrera Beltran havia visitado a família para ver como o menino estava passando. No final de semana, ele havia declarado publicamente que Edgar tinha o vírus da gripe suína, de acordo com os testes, e o secretário estadual da Saúde, José Angel Cordova, confirmou na segunda-feira que um menino de La Gloria, cujo nome ele se recusou a revelar, contraíra o vírus, de acordo com os testes, mas havia se recuperado da doença.
"Eles não deveriam ter informado a mãe primeiro sobre isso?", questionou Hernández. Seu filho mais novo, Jonathan, 3 anos, tossia em seu colo. De fato, não foi o caso de Edgar que alertou as autoridades inicialmente quanto à emergência. O primeiro caso identificado foi o de uma mulher de 39 anos que chegou a um hospital em Oaxaca portando uma infecção viral incomum, e isso levou os epidemiologistas mexicanos a entrar em ação.
Maria Gutierrez chegou ao hospital em 9 de abril e trazia uma infecção incomum; ela se internou depois de dias adoentada e de visitas a diversos médicos que não conseguiram ajudá-la. Depois que os testes revelaram uma doença incomum, o pessoal médico a colocou em isolamento e notificou as autoridades estaduais e federais. Gutierrez morreu em 13 de abril, e as autoridades enviaram amostras obtidas dela, de Edgar e de outro paciente na Cidade do México para teste por um laboratório canadense.
Os resultados surgiram na tarde de 23 de abril, e tanto Gutierrez quanto Edgar portavam uma nova variante do vírus. Uma reunião de crise foi convocada pelo presidente Felipe Calderón. Na noite daquele dia, as autoridades anunciaram o fechamento das escolas na capital mexicana e na área circundante, onde a maioria dos casos parecia estar concentrada. Agora, à medida que aumenta o número de casos, as escolas de todo o país estão fechadas.
"Minha impressão - como observador externo, que é o que sou agora - é de que a resposta foi bastante competente", disse o médico Julio Frenk, ex-ministro da Saúde mexicano e hoje diretor da escola de saúde pública da Universidade Harvard. "Não perfeita, mas bastante competente".O México agiu com rapidez desde que a nova variante do vírus foi confirmada. Mas as autoridades do país reconhecem que lhe faltam os profissionais especializados necessários a fazer atendimento remoto na escola requerida, e que o país não dispõe de recursos nem para testar a nova variedade de medicina. Foi apenas esta semana que dois laboratórios, um na Cidade do México e um em Veracruz, começaram a realizar testes para identificar o vírus por conta própria, evitando que o país dependa totalmente dos epidemiologistas dos Estados Unidos e Canadá.
"Jamais tivemos uma epidemia como essa no mundo", respondeu Cordova a repórteres esta semana, quando questionado se o México estava respondendo devidamente à crise. É provável que os epidemiologistas tenham muitas pistas a seguir para determinar as origens do surto de gripe. La Gloria não foi a única localidade a passar por um contágio severo nas últimas semanas. As autoridades de saúde pública em outras regiões do México afirmaram ter percebido uma alta incomum no número de casos registrados a partir do início de abril, quando a temporada normal da gripe usualmente estaria se encerrando.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times