Timothy Williams e Tareq Maher
Do New York Times
Eles dizem que poderiam ter escolhido Dubai, a Arábia Saudita ou até mesmo a Europa. Mas Bagdá é o destino preferencial para número crescente de trabalhadores estrangeiros, uma tendência surpreendente em uma cidade na qual, até recentemente, eles dificilmente manteriam suas vidas ou sua liberdade por tempo suficiente para receber seu primeiro salário.
"Às vezes ouço explosões ruidosas, mas não me incomodo", disse Zahandwir Alaoui, 25 anos, um garçom que deixou a mulher e seus dois filhos em Bangladesh e aceitou um emprego em Bagdá. "Gosto de trabalhar aqui".
Recentemente, ele conversou comigo enquanto estava lavando louça no restaurante sofisticado onde trabalha, uma das dezenas de hotéis, restaurantes e residências nos quais cozinheiros, garçons, faxineiros e recepcionistas de lugares como Índia, Uganda, Bangladesh, Nepal e Etiópia são uma presença cada vez mais comum.
Não se trata dos trabalhadores recrutados por empresas norte-americanas como a KBR ou a Halliburton para trabalhar nos refeitórios das forças armadas norte-americanas ou operar como seguranças em bases militares, e sim de homens e mulheres que vieram para o país a fim de trabalhar em empresas iraquianas que teriam, de outro modo, contratado trabalhadores locais. E mesmo que o número de estrangeiros trabalhando para iraquianos ainda seja pequeno, parece ser mais um sinal de que a capital está a ponto de retornar à normalidade.
A despeito de um índice de desemprego estimado em cerca de 40%, no Iraque, o problema aqui é parecido com o de muitos outros lugares: mesmo que recebam salários iguais aos dos estrangeiros, os empresários dizem que é difícil reter funcionários iraquianos em postos subalternos por mais de algumas poucas semanas.
"Há certos trabalhos que os iraquianos não fazem, mesmo que não tenham emprego", disse Basil Radhi, 54 anos, iraquiano cuja família é dona de um restaurante. Desde a invasão por forças militares norte-americanas em 2003, poucos estrangeiros se arriscam a deixar a bem guardada Zona Verde, com exceção de soldados norte-americanos bem armados, porque estrangeiros eram um dos alvos preferenciais das milícias xiitas e sunitas, que praticavam sequestros e execuções.
Ainda que Bagdá esteja mais segura hoje do que nos primeiros anos depois da invasão, a maioria dos trabalhadores recentemente chegados afirma que não se afasta muito de seus locais de trabalho.
Aloui, o garçom, que ganha aqui o dobro do que ganharia em seu país, vive em um quarto de hotel ao lado do restaurante (no qual os fregueses são revistados para verificar se não portam explosivos, antes que sua entrada seja permitida). Ele diz não saber quase nada sobre Bagdá, além, do percurso de cerca de 10 metros que separa o restaurante do hotel. Foi aconselhado a não caminhar sozinho pelas ruas.
Enquanto Aloui trabalha até 15 horas por dia, seis dias por semana, por seu salário mensal de US$ 250, e mais uma gratificação de US$ 50, os garçons iraquianos do restaurante ganham mais que o dobro disso ¿ainda que trabalhem muito menos horas.
O arranjo foi defendido pelo proprietário do restaurante, Hussein Qaduri, 28 anos, cujo estabelecimento anterior foi destruído por um carro-bomba em 2004. De seus 45 funcionários, cinco são de Bangladesh. "Pago por seu hotel, por seu corte de cabelo, por seu tratamento médico", ele disse quanto ao pessoal de Bangladesh. "Cubro tudo isso diretamente".
Nos cinco meses desde que a relativa pausa na violência permitiu a abertura do restaurante, Radhi diz que centenas de garçons, lavadores de pratos, faxineiros e cozinheiros iraquianos passaram pela casa. E se declara cansado do que define como falta de ética de trabalho por parte dos iraquianos; ele está à procura de mais funcionários estrangeiros.
Mas na terça-feira, Abdullah al-Lami, porta-voz do Ministério do Trabalho e Assistência Social do Iraque, disse que embora contratar estrangeiros tenha se tornado mais comum nos últimos meses, fazê-lo continua ilegal.
Agências de emprego conseguem vistos de turismo para trabalhadores estrangeiros, ele afirma, mas esses vistos não permitem que eles mantenham emprego. "As agências de emprego que fazem esse tipo de trabalho operam ilegalmente", disse Lami. "As pessoas que empregam esses trabalhadores estão tentando tirar vantagem deles ao lhes oferecer baixos salários".
Mas Bilal Hadi, co-proprietário da Watania, uma das agências de emprego que contratam estrangeiros, disse que contava com aprovação do governo para suas atividades e que não explorava os trabalhadores. O pessoal que sua empresa recruta para trabalhar no Iraque por meio de escritórios em Bangladesh e Dubai é contactado regularmente para determinar se estão sendo bem tratados. "Abusos podem acontecer", ele diz. "Mas não é culpa minha".
As companhias interessadas em pessoal estrangeiro tipicamente "contratam dois ou três para determinar se funciona", antes de pedir mais pessoal, ele diz. Hadi afirma que, em um mês de operação em Bagdá, sua empresa trouxe 400 trabalhadores estrangeiros, todos os quais ainda empregados.
Entre os recém-chegados a Bagdá há um grupo de seis padeiros oriundos de Rajshahi, Bangladesh. Eles vivem juntos em uma casamata de concreto construída no teto de um edifício e acessível apenas por uma escadinha de 12 degraus que parte do topo da padaria. O banheiro fica ao pé da escada.
A despeito da lotação, Mohammed Ayub Hussein, 37 anos, que tem mulher e dois filhos em Bangladesh, disse que gostaria de ficar por algum tempo. "Quero ficar aqui talvez quatro ou cinco anos, para ganhar algum dinheiro", ele disse. Quando perguntado o que mais faz além de cobrir seu turno de trabalho noturno na padaria, Hussein deu de ombros: "Vim aqui para trabalhar".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times