Multidão se reuniu na Praça da Bastilha, em Paris |
Lúcia Jardim
Direto de Paris
Diversos setores do governo pararam e foram para as ruas manifestar contra as políticas do presidente da França, Nicolas Sarkozy, e os efeitos da crise econômica na França. Para as centrais sindicais do país, a greve geral desta quinta-feira é nada menos do que a maior manifestação dos últimos 20 anos.
Desde os transportes até a educação, a saúde, a energia, os correios e a indústria aderiram aos protestos, agrupando todo o tipo de causas para o descontentamento. Para todos os setores, porém, o responsável pela insatisfação atende por um mesmo nome: Sarkozy.
Até mesmo a política estrangeira do chefe de Estado, que o fez ser considerado um dos lideres mais influentes da atualidade, é alvo de críticas. Para os franceses, Sarkozy se preocupa mais com a sua imagem no exterior do que com os problemas internos do país.
"Depois de uma grave crise de popularidade no início de 2008, Sarkozy se viu diante da presidência da União Europeia, da crise na Geórgia, viabilizou uma resposta à crise financeira, e assim recuperou sua credibilidade. Mas agora a dificuldade é de sair da cena internacional e se voltar à cena nacional", explica Pascal Perrineau, cientista político e diretor do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po Paris. "Ele agora tem de se confrontar com as questões bem específicas que o opõem aos assalariados, sobretudo referentes ao emprego e ao poder de compra."
Quinta-feira negra
Já fazia mais de uma semana que a greve era anunciada, fazendo com que os franceses se preparassem antecipadamente contra os efeitos da "quinta-feira negra". Ontem, apresentadores dos telejornais preveniam os doentes a evitarem os hospitais e a preferirem encontrar-se com seus médicos de família no dia de hoje, enquanto que os usuários de trens se combinavam por internet para organizar caronas coletivas para chegarem ao trabalho, uma vez que tradicionalmente o setor de transportes é o mais atingido durante as manifestações no país.
O que surpreende, desta vez, é o índice de adesão dos franceses a essa greve geral. Mesmo que a manifestação cause transtornos, 69% da população está de acordo com os manifestantes e tem simpatia pela greve geral, enquanto 26% rejeitam as causas da insatisfação.
"Eu sou solidária às causas dos professores do meu neto e então decidi ser mais uma nesta greve", disse a funcionária da rede de supermercados Auchan Cécile Fleurot, que se juntou às 65 mil manifestantes de Paris na tarde de hoje. Ela defende os professores públicos, que protestam contra a supressão de vagas e a reforma no sistema do ensino médio. O índice de adesão na classe foi 47,92%.
Como seu neto de 6 anos, Guillaume, ficou sem aulas e não tinha onde passar o dia, Fleurot optou por também aderir à greve - e a trazê-lo junto para protestar. "O descontentamento é geral. Nosso presidente se porta como um déspota e nós não vamos mais permitir."
A manifestação da capital foi a mais intensa, começando na praça da Bastilha e se encerrando diante à ópera Garnier, em um dos bairros mais chiques de Paris. Nas letras das canções de protesto, muitos pediam que Sarkozy parasse de dar a mão aos banqueiros e volte a pensar na população.
"Não se pode dizer que a greve causa transtornos à população porque faz meses que o presidente só nos faz suportar mais e mais prejuízos. Está na hora de ele ouvir as ruas, e nós estamos no limite", afirmou Gérard Ferrand, funcionário da empresa de energia EDF. "Ele precisa começar a cumprir uma das suas principais promessas de campanha, a de aumentar o poder de compra dos cidadãos. Todo mundo está cada dia mais pobre na França", reclamou seu colega, Cyril Arnaud.
TVs, serviços e transportes
No interior, estima-se que 1,5 milhão de pessoas interromperam o trabalho. Parte dos trabalhadores da France Television, grupo de emissoras públicas de propriedade do Estado, também aderiu ao movimento. Eles protestam contra a fim da publicidade no grupo e a reforma do audiovisual. Com a escassez de técnicos e até de apresentadores, os telejornais da France 2, um dos principais canais da França, foram exibidos hoje em uma condição precária.
Entre os funcionários dos correios, a adesão foi de 24%, enquanto que a paralisação dos metrôs e ônibus parisienses provocou transtornos menos intensos que o previsto. Apenas as linhas RER tiveram graves problemas de circulação, incluindo a RER B, que leva aos dois aeroportos de Paris e parou completamente de circular.
Dificuldades semelhantes encontraram os usuários dos trens interminicipais, que tiveram o tráfego interrompido em 60%. Ainda não definição sobre a continuidade da greve geral amanhã.
A greve provocou atraso no anúncio, pelo governo, dos dados atualizados sobre o desemprego. O secretário de Estado para o Emprego, Laurent Wauquiez, deveria informar os novos números amanhã pela manhã, mas optou por cancelar o anúncio. No último trimestre, a taxa de desemprego na França chegou a 7,3%, índice mais alto desde 1993.