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Morales vence referendo e consolida divisão da Bolívia

Segunda, 26 de janeiro de 2009, 07h18
Funcionários contam votos do referendo realizado neste domingo
Funcionários contam votos do referendo realizado neste domingo
25 de janeiro de 2009
AP


O presidente boliviano, Evo Morales, conseguiu impor seu projeto de reforma da Constituição no referendo deste domingo, segundo projeções divulgadas por canais de televisão, enquanto a oposição já começava a falar em desacato ao novo texto, de cunho altamente indigenista e centralizador.

Segundo a contagem rápida calculada pelas duas maiores redes privadas de televisão do país, o sim venceu com 60% dos votos, contra 40% do não, em números publicados pela Unitel, e 58,3% a 41,7%, de acordo com a ATB.

A contagem rápida, considerada confiável, é feita com dados oficiais recolhidos nos centros de votação. Os resultados oficiais, no entanto, só devem ser divulgados nos próximos dias pela Corte Nacional Eleitoral, que realiza a contagem dos votos manualmente.

Antes da votação, Morales afirmava que seu projeto constitucional seria aprovado com mais de 70% dos votos.

Se a nova Carta for de fato aprovada, a Bolívia realizará eleições presidenciais em dezembro deste ano, nas quais Morales se candidatará à para um novo mandato de cinco anos.

Em uma pergunta anxa, os bolivianos aprovaram também (por 79% contra 21%) que a extensão das terras para um proprietário rural não supere os 5.000 hectares - e não 10.000, como rezava a segunda opção.

A nova Constituição, porém, foi rejeitada amplamente nos departamentos de Santa Cruz - o mais rico da Bolívia -, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca, onde a governadora já convocou a população a desacatar a legislação de Morales.

"Desacato, desacato, desacato!", convocou a governadora indígena Cuéllar, discursando no balcão da prefeitura de Chuquisaca, na praça de Armas da cidade de Sucre, feudo da oposição, onde milhares de pessoas se reuniram para festejar a vitória do não neste departamento.

Já em La Paz, Oruro, Potosí e Cochabamba, a maioria da população apoiou o novo texto constitucional, de 411 artigos.

Para observadores, o desacato promovido por Cuéllar pode se reproduzir em outras regiões dominadas pela oposição.

Outro prefeito (governador) oposicionista, Mario Cossío, de Tarija, disse neste domingo que, à luz dos resultados, "não será possível aplicar a Constituição, motivo pelo qual pedimos um pacto nacional que permita elaborar um novo processo constituinte".

Antes do referendo, o ex-vice-presidente Víctor Hugo Cárdenas - indígena como Morales e forte opositor do governo - afirmou que "se o sim não conseguir triunfar nos nove departamentos da Bolivia, (o referendo) será ilegítimo e provocará a divisão" do país.

O ex-candidato presidencial da oposição Samuel Doria Medina disse, por sua vezm que "há cinco departamentos onde o ''não'' venceu", o que torna "a situação do governo complicada", já que Morales terá nas mãos "uma Constituição de minoria".

Antes do referendo, neste domingo, o vice-presidente Alvaro García havia indicado que, por se tratar de "uma eleição nacional, o resultado é nacional, e a maioria manda; que acatemos o que diz a lei".

A votação transcorreu com calma, tendo sido registrados apenas algumas infrações eleitorais isoladas. Ao todo, 3,89 milhões de eleitores estavam habilitados para votar a favor ou contra a nova Constituição, através da qual Morales espera introduzir grandes mudanças em seu país.

O ministro de Governo (Interior), Alfredo Rada, afirmou que o domingo foi "uma jornada democrática tranqüila e exemplar".

Depois da divulgação dos resultados parciais, o presidente Evo Morales proclamou "a refundação da Bolívia", anunciando o fim da cultura de latifúndio e do "Estado colonial", que, para ele, se arrastavam há 500 anos no país.

"Agora refundamos a Bolívia, aqui termina o Estado colonial, acabou o colonialismo interno e externo. Graças à consciência do povo boliviano, acabou o latifúndio e os terratenentes", discursou Morales no balcão do palácio presidencial, na praça de Armas de La Paz.

Certo da confirmação das projeções de boca-de-urna, Morales dirigiu-se aos governadores e líderes da oposição, convidando-os a somar esforços para a aplicação da nova Constituição.

Em La Paz, departamento onde o projeto constitucional recebeu a maior votação a favor, milhares de pessoas se concentraram na praça de Armas para ouvir o discurso do presidente, que em tom triunfal declarou que este é um dia histórico, porque "surge a nova Bolívia, aqui começa de verdade para levar a igualdade a todos os bolivianos".

Ao mesmo tempo, na cidade de Santa Cruz, o governador Rubén Costas, considerado o líder nacional da oposição, disse a uma multidão que "o não triunfou porque o projeto queria nos dividir e confrontar os bolivianos".

Enquanto a população o aplaudia, Costas destacou que, nos departamentos opositores, venceu "o espírito democrático democrático, para enviar uma mensagem clara, de que somos centenas de milhares de bolivianos do oriente e do ocidente, do norte e do sul, como uma imensa rejeição ao projeto que emana do abuso e da ilegalidade".

Além disso, disse que a oposição sai fortalecida, pedindo a Morales um pacto "para preservar a unidade, e um pacto para todos" - alertando, no entanto, que isto não será possível se o governo se deixar levar pelo que considera um "triunfo efêmero".

Atos públicos de celebração aconteciam também nos departamentos de Tarija, Chuquisaca, Pando e Beni, onde seus líderes discursaram de manera semelhante ao prefeito de Santa Cruz, apelando ao presidente Morales que ouça estas regiões e exigindo um grande pacto social para evitar a divisão irreversível do país.

AFP
Leia esta notícia no original em:
Terra - Brasil
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI3472279-EI8140,00.html