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Sandinistas reagem a protestos da oposição

Quinta, 20 de novembro de 2008, 21h10

Marc Lacey


Enquanto disparos de morteiros improvisados atingiam diversas partes de Manágua e manifestantes irados se despejavam pelas ruas pelo segundo dia consecutivo, a capital nicaragüense se via emaranhada na quarta-feira em um conflito amargo sobre quem controla a capital e diversas outras cidades do país.

Os líderes oposicionistas acusam o partido sandinista, do presidente Daniel Ortega, de manipular os resultados da eleição para as prefeituras da capital e de centenas de outras cidades do país, em um esforço para ampliar a influência política do movimento esquerdista.

Antes da eleição, em 9 de novembro, Ortega limitou o acesso dos observadores eleitorais estrangeiros e depois, de acordo com as acusações de seus críticos, ordenou que seus asseclas interferissem com a votação, de maneira a garantir que candidatos leais ao presidente triunfassem.

"O que está em jogo não é a prefeitura de Manágua", disse Eduardo Montealegre, que insistiu ter sido o legítimo vencedor da eleição na prefeitura ainda que o conselho eleitoral controlado pelos sandinistas tenha declarado que os primeiros números indicam que foi derrotado. "É algo de mais fundamental", afirmou. "Estamos falando de ditadura versus democracia".

Montealegre, membro do Partido Constitucional Liberal, tentou protestar contra os resultados, mas seus esforços foram recebidos com ira pelos sandinistas em todas as instâncias. Os partidários do candidato foram agredidos, e as ruas se tornaram área de conflito.

Manifestantes bloquearam vias e atacaram carros a pedradas. Membros de partidos políticos rivais se enfrentaram em encontros ferozes, e comerciantes nervosos mantiveram suas lojas fechadas.

Ortega manteve o silêncio. O revolucionário sandinista que liderou a Nicarágua nos anos 80 terminou derrotado pelo voto, em 1990. Mas voltou à presidência em 2006 em uma disputa acirrada na qual seu maior rival era Montealegre. Embora Ortega tenha obtido apenas 38% dos votos, ele vem agindo para impor o controle dos sandinistas sobre todos os aspectos da sociedade.

Os sandinistas claramente controlam as ruas. Nas semanas anteriores às eleições, os militantes do partido começaram a formar acampamentos em cruzamentos da cidade, com o objetivo de promover orações pela paz em lugar do ódio. Os líderes oposicionistas afirmam que isso era uma tática para ocupar os principais espaços públicos das cidades com o objetivo de impedir os comícios dos rivais.

"As ruas são nossas", disse Jose Bonilla, um militante sandinista equipado com um escudo de madeira improvisado, durante um dos tumultos em Manágua na tarde de terça-feira. Os seus companheiros de manifestação agitavam as bandeiras vermelhas e negras dos sandinistas e disparavam morteiros improvisados por sobre as cabeças dos policias de choque que bloqueavam seu acesso a um comício de Montealegre no próximo quarteirão.

Quando Ortega votou na eleição que é vista como primeiro teste de sua influência desde que voltou à presidência, defendeu a integridade do processo eleitoral e acusou a mídia local de tentar desacreditar os resultados e de "criar uma imagem da Nicarágua em guerra".

Montealegre, com apoio dos líderes da Igreja Católica e das duas maiores organizações de empresários da Nicarágua, exige uma recontagem completa, monitorada por observadores internacionais.

O ceticismo de Ortega quanto a observadores internacionais remonta à eleição de 1990, na qual foi derrotado por Violeta Chamorro. "Desde aquele momento, a verdade é que perdi a fé na Organização dos Estados Americanos (OEA) e em todos os demais organismos", ele declarou em discurso antes da eleição.

O Supremo Conselho Eleitoral da Nicarágua, em seu relatório inicial sobre os resultados das votação, em 9 de novembro, disse que o candidato sandinista à prefeitura de Manágua, Alexis Arguello, 52 anos, três vezes campeão mundial de boxe, havia derrotado Montealegre, 53 anos, um economista educado na Universidade Harvard e ex-ministro das Finanças.

Mas em resposta a uma barragem de críticas, que incluíram protestos do governo dos Estados Unidos e de outros governos, Roberto Rivas, o presidente do conselho, ordenou uma recontagem. No entanto, afirmou que o processo não seria monitorado por observadores externos independentes. "Estamos recontando para que o povo nicaragüense ¿não as embaixadas, mas o povo nicaragüense- se satisfaça completamente com o respeito ao seu voto", declarou Rivas em entrevista na semana passada.

Rivas não respondeu a queixas de que algumas urnas foram fechadas antes da hora e que fiscais da oposição foram expulsos durante a apuração final dos votos em Manágua. Ele solicitou que a promotoria pública investigue alegações de que cédulas com votos na oposição foram encontradas em um depósito de lixo em León, a noroeste de Manágua.

"Precisamos determinar se havia funcionários do governo envolvidos nesse incidente", ele declarou, acrescentando que "nós descobriremos a verdade sobre o que aconteceu".

Em sua entrevista coletiva, Rivas criticou Montealegre por não ter apresentado uma queixa formal por fraude aos promotores públicos do país e por ter convocado seus partidários a sair em protesto nas ruas.

Mas Montealegre, em entrevista na quarta-feira, disse que a responsabilidade pela violência cabia ao governo. Apontando para fotos em jornais que mostravam seus partidários marchando com bandeiras nicaragüenses enquanto os sandinistas portavam paus e pedras, ele disse que a responsabilidade pela violência nas ruas cabe a Ortega.

"Ele é o presidente do país, não eu", disse Montealegre. "E está em seu poder pôr fim a esses tumultos".

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
Leia esta notícia no original em:
Terra - Brasil
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