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Desembarque ou êxito da desinformação?

Sexta, 4 de junho de 2004, 15h28
Desembarque na praia visto do barco da Guarda Costeira
Desembarque na praia visto do barco da Guarda Costeira
26 de maio de 2004
Reuters


Exércitos que não existiam, mensagens cifradas e até generais inventados são os elementos pouco lembrados, mas que muito contribuíram para o êxito do Exército aliado no desembarque de 6 de junho de 1944 na Normandia, no qual conseguiram enganar os alemães sobre o local e a data escolhida para a operação.

"Os longos gemidos dos violinos do outono ferem meu coração com monótona languidez": o verso de Paul Verlaine repetido com insistência pela rádio BBC de Londres em 5 de junho de 1944 informou a resistência francesa e os próprios alemães que o desembarque era iminente.

A mensagem também indicava aos grupos de resistentes franceses que eles deveriam estar dispostos a explodir uma ponte, sabotar as centrais telefônicas ou derrubar árvores para bloquear estradas. Os alemães sabiam que os versos de "Canção de Outono" significavam um desembarque iminente, mas a grande pergunta era: onde?

Ajudados por seus 47 agentes duplos, os serviços secretos britânicos (MI5) multiplicaram as pistas falsas nos meses precedentes ao Dia D para convencer os inimigos de que o desembarque aconteceria, mas sem nunca mencionar as praias da Normandia. Dois noruegueses que trabalhavam para os britânicos juraram que haviam visto um exército de 250 mil homens na Escócia prestes a invadir a Noruega.

Wulf Schmidt, outro agente duplo, garantiu que um grande exército estava preparado no sul da Inglaterra para desembarcar em "Pas-de-Calais". Schmidt transmitiu mais de mil mensagens aos alemães e os convenceu a respeito da existência de um exército imaginário, chamado 'First US Army Group' (Fusag), que estaria preparado para atacar a partir do sul da Inglaterra.

Vôos de reconhecimento da aviação alemã confirmaram suas informações: em terra haviam tanques, caminhões, navios, pistas de aviação e tropas. No ar, o deslocamento era impressionante, mas no solo, a realidade era bem diferente. O Fusag, que em teoria tinha 11 divisões, era composto por soldados de madeira, barcos e aviões do mesmo material, metralhadoras com balas de borrachas e tanques infláveis: tudo era 100% falso e obra do audaz coronel John Henry Bevan, dos serviços secretos britânicos.

Os depósitos e diques petroleiros haviam sido criados por um arquiteto e um técnico de cinema e, preocupados com todos os detalhes, os britânicos prepararam caçarolas que soltavam fumaça falsa no acampamento. Além disso, soldados veteranos simulavam manobras e durante a noite um automóvel deixava no chão as marcas das rodas de todo tipo de veículos.

O Fusag era tão crível que mesmo depois de 6 de junho, Adolf Hitler continuava convencido de que o Dia D na Normandia havia sido o prelúdio de um verdadeiro desembarque, que aconteceria em "Pas-de-Calais, onde o grosso de suas tropas continuava esperando.

Os aliados não se contentaram em manter segredo sobre o lugar do desembarque, mas também semearam a dúvida a respeito da data. Por isso, um lugar-tenente britânico que se parecia muito com o general Bernard Montgomery foi treinado para saudar e falar como ele. Doze dias antes do Dia D, ele saiu de Londres e seguiu para Argel, via Gibraltar.

Para os alemães, a presença de Montgomery no norte da África descartava a possibilidade de desembarque imediato na região da Mancha. Com tramas deste tipo, o coronel Bevan e sua equipe transformaram o desembarque da Normandia em uma verdadeira operação de desinformação, digna de um bom filme de espiões. O autor americano Larry Collins se inspirou nessa história para escrever "Fall from Grace".

AFP
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Terra - Brasil
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