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De Gaulle: o sonho de uma França livre

Sexta, 4 de junho de 2004, 15h09


No dia 6 de junho de 1944, em Londres, o general Charles de Gaulle estava dividido entre o entusiasmo de ver seu país libertado do jugo nazista e a fúria em relação aos dirigentes norte-americanos e britânicos, que se negavam a reconhecer seu governo e pretendiam fazer da França um território ocupado.

De Gaulle foi mantido à margem dos preparativos do desembarque na Normandia e só chegou a Londres três dias antes da operação militar, procedente de Argel, a pedido do primeiro-ministro inglês, Winston Churchill. Naquela manhã, o chamado Comitê Francês de Libertação Nacional tinha se convertido num governo provisório, do qual De Gaulle era o presidente.

Mas Washington havia planejado outro futuro para a França, ao qual Londres não pôde se opor, e que consistia em converter o país num território ocupado. Em termos militares, um "governo militar aliado de territórios ocupados". Esta possibilidade era um verdadeiro pesadelo para De Gaulle, que considerava seu governo legítimo e dizia que o destino da França não era entrar para a história como potência vencida.

Em seus diários, De Gaulle não economiza palavras de reconhecimento a britânicos e norte-americanos, que prepararam e efetivaram o desembarque na Normandia. Mas na frente política a tensão entre os líderes era enorme.

Churchill e De Gaulle protagonizaram uma terrível discussão na véspera do desembarque. O general francês sentia-se traído, mas ao mesmo tempo não tinha condições de mudar o curso dos acontecimentos.

Naquele momento, o primeiro-ministro britânico pronunciaria uma célebre frase: "Saiba que se tivermos de escolher entre a Europa e os Estados Unidos, escolheremos os Estados Unidos". De Gaulle tentaria então convencer o general americano Dwight David Eisenhower, comandante das forças aliadas nesta operação que havia prometido que os franceses seriam os primeiros a entrar na Paris libertada.

No amanhecer dos dia 6 de junho, quando os aliados - entre eles uma pequena divisão de franceses, o heróico comando Kieffer - desembarcaram na praia da Normandia, De Gaulle seguia negociando com britânicos e norte-americanos, que desejavam que ele se dirigisse aos franceses após o discurso de Eisenhower.

Mas De Gaulle se negou a falar a seu povo logo após do general americano. Ele só faria isso horas depois, em um discurso muito lembrado, que assinalava o "sagrado dever de combater" pelos "filhos da França" e pedia obediência ao "governo francês".

De Gaulle desembarcaria na praia de Courseulles no dia 14 de junho, quatro anos depois de ter abandonado a França. Ele se dirigiu imediatamente a Bayeux, uma cidade normanda, e fez um discurso emocionante diante de um povo entusiasmado, o que surpreendeu os aliados.

De Gaulle nomeou um comissário da república para o território normando liberado e reiterou mais uma vez a autoridade do governo. "França dá mostras de sua soberania", disse em uma mensagem dirigida a britânicos e norte-americanos.

Depois disso, o projeto de fazer da França um território ocupado, com moeda cunhada nos Estados Unidos e um governo militar norte-americano, ficaria no papel. Em suas memórias, De Gaulle recorda que naqueles dias "o povo francês mostrou claramente a quem outorgava o poder de dirigir suas vidas".

AFP
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Terra - Brasil
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