O bombeiro voluntário Lori Kaye combate focos de incêndio nos arredores de San Francisco |
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Sabendo que todos os demais bombeiros voluntários de sua cidade de apenas 100 habitantes estavam combatendo um incêndio maior, nas imediações, ele ligou para sua mulher, que alertou um grupo de jovens instrutores de caiaque que atendem turistas na cidadezinha, localizada no condado de Mendocino, 220 km ao norte de San Francisco, e eles se uniram a Acker no combate ao incêndio.
A CalFire, a agência estadual de combate a incêndios, havia prometido enviar um helicóptero, mas quando Acker já conseguiu ouvir o ruído dos rotores o aparelho foi desviado, segundo ele, "para um distrito de aluguel mais alto" em outro condado. Quando ele pediu ajuda adicional, o Estado enviou 13 detentos de penitenciárias e um avião com os tanques carregados de um agente que retarda chamas, e disse que não haveria mais ajuda.
A situação é essa já há duas semanas aqui no condado de Mendocino, conhecido por suas árvores majestosas, suas vinhas premiadas e pelos cheirosos pés de maconha. Os recursos estão no limite desde que relâmpagos atearam cerca de 1,1 mil incêndios na região, que está sofrendo uma séria seca.
Embora as poucas cidades do condado contem com forças profissionais de bombeiros, nas comunidades menores espalhadas pela região essa função é executada principalmente por voluntários treinados.
Para combater os 123 incêndios que estão se espalhando pelos 16 mil hectares de terreno montanhoso e arborizado, há apenas um helicóptero; o condado não dispõe de um avião para combate a chamas, e 17 das conflagrações não estavam sendo combatidas por falta de pessoal. Mas começou a chegar ajuda no domingo: 15 helicópteros, três aviões e uma promessa de 200 soldados da Guarda Nacional. Tracy Boudreaux, relações públicas da CalFire na região, disse que já há 1,7 mil pessoas combatendo os incêndios mas que o condado poderia usar o dobro de pessoal, bem como mais caminhões de bombeiro e caminhões-tanque. Os incêndios estão 45% controlados, e apenas dois deles não estão sendo combatidos.
Quando os incêndios causados por relâmpagos começaram, em junho, disse Acker, "todo o sistema governamental entrou em colapso, e tivemos de trabalhar sozinhos, com a ajuda de nossos vizinhos".
Os moradores estão pendurando as contas de gasolina dos caminhões de bombeiro em postos locais. Comerciantes estão solicitando doações. Um restaurante está fornecendo refeições gratuitas aos bombeiros.
O proprietário de uma loja de ferramentas não aceitou pagamento de bombeiros voluntários por equipamentos essenciais. Quando uma estação local de rádio montou uma campanha de doações para ajudar a cobrir as despesas do trabalho, mais de US$ 4 mil foram doados.
Paisagistas removeram vegetação combustível posicionada em torno de casas e imóveis comerciais, sem cobrar nada. Um mercado alimentou os exaustos voluntários com sanduíches, e moradores locais estão oferecendo sucos e saladas. A mulher de um dos chefes de bombeiros está servindo refeições aos detentos que ajudam a combater o incêndio. Outra mulher forneceu loções, cremes e xaropes aos bombeiros, para combater dores musculares e gargantas secas.
Quando os incêndios surgiram, Leggett, uma cidade de 300 moradores, tinha mais focos de conflagração do que bombeiros, até que um apelo foi divulgado na rádio local, contra a vontade das autoridades, e 40 pessoas apareceram com ancinhos e pás na sede do corpo local de bombeiros, certa manhã. Elas continuam trabalhando até agora.
Os moradores expressam orgulho e um senso de choque por terem de se virar sozinhos. "Essa comunidade de pessoas individualistas e zelosas de sua autonomia mostrou que sabe se unir, o que ajuda a explicar porque todos nós amamos o lugar em que vivemos", disse Deborah Cahn, cuja família controla a Navarro Vineyards. "Mesmo assim, o governo não deveria estar cuidando desse problema?"
Em 21 de junho, o tráfego no site da CalFire era tão intenso que Boudreaux não estava mais conseguindo acesso para solicitar equipamento. "Não temos mais nada para vocês", ela diz ter sido informada quando telefonou. "Não há mais nada que possamos enviar".
Boudreaux disse que "com o número de incêndios no norte da Califórnia, os recursos são limitados. É fenomenal que tenhamos conseguido evitar desastres catastróficos em termos de perda de vidas e edificações". Apenas duas casas foram destruídas nos incêndios.
"Não se trata de uma situação normal para a CalFire, uma das maiores organizações mundiais de combate a incêndios", ela disse. A falta de recursos "vem sendo chocante para todos".
Cahn disse que, quando viu fumaça perto da serra em que vive, a operadora do serviço de emergência informou que não havia assistência que pudesse enviar. Demorou três dias para que houvesse bombeiros desocupados e para que eles chegassem ao local e localizassem a origem do fogo. Bob Roland, 63, um executivo aposentado do setor aerospacial e bombeiro voluntário, morreu na quinta-feira enquanto dobrava mangueiras, aparentemente de um ataque cardíaco, combatendo esse incêndio.
Colin Wilson, chefe de bombeiros em Boonville, conta que teve de enfrentar sete incêndios com um efetivo de cerca de 30 bombeiros, e que eles trabalharam sem parar por diversos dias. "Sabíamos que não havia recursos".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times