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STF libera pesquisa com células-tronco embrionárias

Quinta, 29 de maio de 2008, 19h07
César Peluso reclamou que seu voto foi mal interpretado
César Peluso reclamou que seu voto foi mal interpretado
29 de maio de 2008
Wilson Dias/Agência Brasil

Laryssa Borges
Direto de Brasília


Em uma votação controversa, por seis a cinco, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a utilização de células-tronco embrionárias para aplicação em pesquisas científicas e terapias. Os ministros haviam retomado o julgamento na manhã de ontem, avaliando uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) impetrada pelo ex-procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, contra o polêmico trecho da Lei de Biossegurança que permite o uso de células-tronco de embriões.

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A lei, aprovada em 2005 pelo Congresso Nacional, prevê que os embriões usados nas pesquisas sejam considerados "inviáveis" ou estejam congelados há mais de três anos. A legislação ainda proíbe a comercialização do material biológico e exige autorização expressa do casal para a manipulação dos embriões.

A primeira sessão sobre o tema foi iniciada em 5 de março com o voto do relator, Carlos Ayres Britto, favorável às pesquisas. A então presidente da Corte, Ellen Gracie, antecipou o voto seguindo posição em prol do uso de células-tronco. No mesmo dia, no entanto, o ministro Carlos Alberto Menezes Direito, pediu vista dos autos, paralisando a sessão.

Na quarta-feira, com a retomada do julgamento, os ministros Cármen Lúcia, Joaquim Barbosa e Cezar Peluso afirmaram que a manipulação das células-tronco de embriões era constitucional e disseram não haver ilegalidade na autorização das pesquisas previstas na Lei de Biossegurança. Marco Aurélio Mello, Celso de Mello e Gilmar Mendes também endossaram a tese do relator na sessão desta quinta, completando oito votos favoráveis. Apesar dos protestos de Peluso, o ministro teve seu voto computado como "favorável às pesquisas, com restrições". No final do julgamento, o presidente do STF, Gilmar Mendes, decidiu se alinhar aos ministros favoráveis às pesquisas com restrições.

Católico fervoroso, Menezes Direito foi o primeiro ministro a abrir divergência do relator e, apesar de ressaltar que não avaliava a Lei de Biossegurança sob o ponto de vista religioso, sugeriu restrições às pesquisas com células-tronco, como a garantia de não destruição dos embriões e o aumento da fiscalização de clínicas de reprodução assistida. Ricardo Lewandowski e Eros Grau também impuseram ressalvas às pesquisas, embora tivessem destacado a importância do processo científico e declarado as pesquisas constitucionais.

Mendes lembrou que o tribunal encerrava "mais um julgamento que certamente será um marco". Em sua argumentação, o magistrado destacou que "toda a sociedade sai frustrada na tentativa de barrar todo o progresso científico humano", mas disse que "a manipulação genética demonstra necessidade de nova ética do agir humano, uma ética de responsabilidade".

"A Constituição incorpora tanto princípio da responsabilidade quando o princípio da esperança", avaliou o ministro.

Discussão
No final da sessão plenária, os ministros Cezar Peluso e Celso de Mello protagonizaram uma acalorada discussão sobre o teor do voto de Peluso. Mello afirmou que o colega havia votado pela aprovação das pesquisas com restrições, o que gerou protestos. Reconhecendo a complexidade da contagem dos votos, o presidente do STF incluiu Peluso e a si mesmo nos votos vencidos.

Com ironia, Peluso comentou a prolixidade de Mello, conhecido por seus longos votos. "Vossa Excelência gastou uma hora para falar isso (reclamar)?", disse, provocando o ministro que contestava eu voto. "Votos longos, sim, e votos muito bem fundamentados", rebateu Celso de Mello.

Durante os debates, Peluso chegou a sugerir que se reconhecesse a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), do Conselho Nacional de Saúde, como órgão central para pesquisas "com o poder de aprovar ou rejeitar os nomes indicados para a composição dos comitês de ética". A proposta, no entanto, não foi adiante.

Julgamento histórico
"É em momentos como este que podemos perceber que a aparente onipotência do tribunal constitucional não pode tergiversar e restringir o legislador", disse Gilmar Mendes, apontando que o Supremo confirmou "o austero compromisso com a defesa dos direitos fundamentais no Estado democrático de Direito".

"Entendo que esse foi realmente um julgamento histórico. O tribunal discutiu os limites entre a vida e a morte. São transcendentes, questões que interessam à generalidade das pessoas. Conseguida a maioria absoluta, mesmo que outros ministros tenham estabelecido restrições ou posto condicionamentos, não importa. O que vale são os votos majoritários. Eles não estabelecem condição alguma ou exortam o Congresso Nacional (a fazer mudanças)", resumiu o ministro Celso de Mello.

Redação Terra
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Terra - Brasil
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