Durante as celebrações, foram organizados cortejos à capela, onde estão guardados os restos mortais de vários escravos. No período Imperial, quando o templo foi construído, os escravos eram enterrados à porta das igrejas, já que o interior era destinado aos brancos.
Na capela, iluminada por velas, funcionários do Museu do Negro - que fica na própria Igreja - ajudavam a lembrar a história dos escravos. Tratava-se de figuras sobre castigos físicos e objetos de tortura. Havia também "santinhos" da "escrava Anastácia", considerada santa heroína por alguns devotos.
As celebrações realizadas na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos lembraram também o papel de intelectuais abolicionistas como José Bonifácio, Lima Barreto e Castro Alves. Participaram do evento descendentes da família real portuguesa.
A prática religiosa é a principal atividade da Irmandade, associação fundada por escravos no período colonial. Registradas em todo o país, abrigavam negros fugidos, cuidavam dos doentes e até financiavam publicações abolicionistas. Segundo historiadores, tiveram atuação marcante na aprovação da Lei Áurea.
Atualmente, no Rio de Janeiro, a Irmandade dos Homens Pretos é formada por trabalhadores brancos e negros, muitos descentes dos fundadores, que defendem os dogmas católicos e também a igualdade entre as raças.
"Apesar de ser uma instituição de cunho étnico, a tônica da nossa atuação, católica, é a caridade. A obrigação da irmandade é servir espiritualmente a todos, o que inclui também atividades educativas falando sobre a nossa história", contou o escrivão Vanderli Texeira.