O dono do prédio se chamava Cosme. Tinha um irmão-gêmeo, Damião. Os dois eram donos de muitos apartamentos no prédio de Samuel. Quando crianças, assistiam juntos ao Show do Palhaço Soneca.
Cosme e Samuel falaram brevemente na época em que o ex-palhaço alugou o apartamento. Embasbacado, o proprietário aceitou todas as respostas de Samuel sem verificar nenhuma. Mal saiu do prédio, ligou para o irmão.
- Sabe quem eu acabei de encontrar? O Palhaço Soneca - disse, dando gargalhadas.
Samuel era grato a Cosme. Se não tivesse atendido a um pedido seu, não teria reencontrado seu antigo rival. Os dois agora se olhavam frente a frente. Samuel suava frio desde que o reconheceu. Na cabeça, se lembrava do convite de Cosme, algo assim como uma festa infantil. Era o que restava a fazer com sua fama passada. Não lhe convidavam mais para a tevê, mas ainda tinha que pagasse para se apresentar por uma ou duas horas em festas infantis. Não sabia, porém o mesmo acontecia com o Coronel Foguete.
Se chamava Gilson. Coronel Foguete fora uma invenção da produção do programa. Estava velho, tão velho quanto Samuel. O Palhaço Soneca notara que por baixo do capacete havia uma cabeça quase completamente calva. Desde a chegada, permanecia de pé, na mesma posição, em silêncio. Mais do que qualquer coisa, o uniforme era uma fantasia. Não tinha nada a ver com o vigor de um verdadeiro explorador espacial.
Os dois estavam sozinhos em um cubículo. Samuel recriava a maquiagem de seu personagem, porém Gilson já estava pronto. Vinda do lado de fora, ouvia-se a algazarra das crianças. A festa era de um dos filhos de Cosme. Ele tinha cinco ou mais, Samuel não sabia. Aceitou o convite por gratidão e também por precisar do dinheiro. Mas e quanto ao Coronel Foguete? Este - Samuel não sabia - tinha sido contratado depois de pôr um anúncio no jornal, se oferecendo para festas.
Samuel terminou de se arrumar enquanto o outro homem o olhava. Sentia-se incomodado com o olhar, que, fizesse o que fizesse, fosse aonde fosse, não deixava de segui-lo. Finalmente explodiu:
- O que foi?
O Coronel Foguete só continuou olhando, calado.
- Não vai dizer nada? Tantos anos depois não vai lembrar que roubou a minha audiência?
Nenhum resposta. Samuel se irritou ainda mais.
- Sou eu. Você me venceu, tomou meu lugar. Ficou satisfeito? Se ficou, bem feito, porque estamos os dois na merda.
- Quem é o senhor? - Gilson finalmente perguntou.
- O Palhaço Soneca.
- E o que eu tô fazendo aqui?
- Temos uma apresentação.
- Apresentação? Mas eu sou um astronauta!
Cosme apareceu gritando:
- Podemos começar? As crianças já estão inquietas.
- Ele tá meio estranho - Samuel disse, apontando Gilson.
- Como estranho?
- Dá uma olhada.
Gilson observou Cosme sem dizer nada. Seu olhar estava distante e embaçado quando se virou para Samuel:
- Onde está o Comandante X?
- Quem?
- O Comandante X. É ele quem me passa as missões.
- Ah, me lembro dele - Cosme interrompeu. - Sinto muito, mas não sei. Só quis contratar vocês. Agora podemos começar?
- Mas... e a minha missão?
- Não tem missão. É só animar um pouco as crianças. Conta umas aventuras antigas que elas vão gostar.
- Mas e o Comandante X?
- Já disse: não vai ter porra de Comandante X nenhum.
- E que história é essa de show? Eu sou um aventureiro espacial.
Cosme olhou para Samuel:
- O que ele está dizendo?
- Sei lá - Samuel respondeu.
O Coronel Foguete, então, finalmente se moveu. Se sentou numa poltrona e comunicou:
- Eu sou um herói espacial. Podem me prender e interrogar, fazer o que quiserem, mas só vou sair daqui se for uma ordem do Comandante X. Não saio para mais nada.
Gilson foi embora furioso.
- Maluco - gritou antes de bater a porta.
As crianças, como sempre, não sabiam quem era o Palhaço Soneca. Eram jovens demais para conhecer uma atração de antigamente. Os adultos, sim. Como sempre, foram os que mais se divertiram. No final do show, foram falar com Samuel, dizer que eram fãs de seu programa, etc. Depois de quase meia hora atendendo aos antigos fãs, Samuel voltou à sala. Cosme entrou em seguida.
- Foi ótimo. Todo mundo adorou. Tom aqui o pagamento.
Só então os dois notaram Gilson. Continuava na mesma poltrona, na mesma posição. Cosme não falou nada com ele e nem deu qualquer pagamento. Depois de Samuel se arrumar, Gilson continuava parado. Não fazia nada além de olhar para uma parede vazia. Samuel, então, o ajudou a se levantar e ir embora. Saíram juntos. Gilson andava com dificuldade, mas na hora de entrar no táxi, resistiu cheio de vitalidade.
- Não posso entrar nessa nave. Pode ser uma armadilha.
Samuel tentou de várias formas convencê-lo, se oferecendo para entrar e ir junto no táxi, mas Gilson continuou imóvel.
- E se eu disser um segredo? - Samuel arriscou.
- Qual?
- Eu sou o comandante X.
- Você?
- Eu. Sou o comandante e sua missão no momento é entrar nesta nave e ir ao quartel-general.
Gilson se empertigou. Em seguida prestou continência para Samuel, jogando sem querer no chão o capacete, que o palhaço pegou e pôs de volta na sua cabeça. Finalmente entrou no carro.
- Aceito a missão - ele gritou, e o táxi, arrancando, sumiu na primeira esquina.