Notícias » Mundo

Há quinze anos a União Soviética deixava de existir

Sexta, 8 de dezembro de 2006, 09h17


Esta sexta-feira é marcada pelo aniversário de quinze anos da queda da União Soviética, quando a Rússia adotou o capitalismo, a liberdade religiosa e a abertura de fronteiras, embora recorde ainda com nostalgia a potência e certeza perdidas.

No dia 8 de dezembro de 1991, depois de comprovar o fracasso do comunismo e da Perestroika aplicada por Mikhail Gorbatchev para tentar salvar a União Soviética, três de suas repúblicas - Rússia, Ucrânia e Belarus - assinaram a certidão de óbito da URSS.

A penúria deu lugar à abundância, a uma publicidade onipresente e a engarrafamentos impressionantes nas ruas de Moscou.

A partir de então nasceu uma classe média ávida por férias no exterior. As igrejas recuperaram cúpulas e cores chamativas. A gigantesca piscina ao ar livre que funcionava tanto no verão como no inverno no centro da capital foi substituída pela massa branca e dourada da catedral de Cristo Salvador reconstruída, baseada na que Stalin mandou demolir.

As grandes comemorações da Segunda Guerra Mundial e os cartazes vermelhos que enaltecem a pátria seguem presentes. Lênin não se afastou do mausoléu e sua estátua continua dominando a entrada da avenida que leva seu nome.

O presidente Vladimir Putin, que restabeleceu o hino soviético, qualificou em 2005 o fim da União Soviética como "o maior desastre geopolítico do século XX".

Estas palavras podem causar espanto no exterior, mas refletem uma realidade para os russos, sobretudo os mais velhos e os mais pobres. Segundo uma pesquisa recente do respeitado instituto de estudos sociais Levada, 61% dos russos lamentam a queda da União Soviética e apenas 30% não se consideram nostálgicos.

"Em 1991, quando a URSS veio abaixo, se encerrou um período histórico que remontava praticamente a Pedro, o Grande, de dois a três séculos de expansão quase contínua", destaca o historiador francês Laurent Rucker, da revista Questions Internationales.

"Muitos problemas que a Rússia vive, elementos de seu comportamento no cenário internacional, se explicam por este fato crucial", acredita.

A URSS, que seguia da Ásia central ao Cáucaso do sul e ao Báltico, se dividiu em 15 repúblicas independentes. "A Rússia reconhece estas novas fronteiras, mas psicologicamente continuam sem existir", afirma Fiodor Lukianov, da revista ''Rússia na Política Mundial''.

"As elites russas, muito apegadas à potência, aos símbolos da potência, buscam um caminho de adaptação à diminuição do espaço e da potência russas", destaca Rucker.

"Para isto, a Rússia utiliza mais meios de pressão do que de sedução, ao colocar sobre a mesa seus vastos recursos energéticos", constata.

O petróleo e o gás são usados como arma política com as antigas repúblicas soviéticas consideradas pró-ocidentais em excesso, como Geórgia e Ucrânia, e como vetor de desenvolvimento de Moscou, onde o crescimento se aproxima de 7%.

No interior do país, a grande ausente é a democracia, seja relacionada à imprensa, direitos humanos, independência da justiça, legitimidade das eleições ou a xenofobia.

"A Rússia nunca havia sido tão aberta nem democrática como nestes últimos 15 anos, mas agora estamos em um período de regressão", resume Rucker.

Se o onipotente partido pró-Kremlin Rússia Unida, com seu um milhão de afiliados, "faz pensar muito no Partido Comunista da União Soviética, tampouco se trata de uma volta ao sovietismo, e sim de um sistema autoritário de governo", opina Lukianov.

"Existem três itens: riqueza, grandeza e democracia. Putin interpreta apenas as duas primeiras", critica Leonid Sedov, analista do centro Levada.

"Quanto ao terceiro, as pessoas não percebem realmente um agravamento da situação. Está acima de seus pensamentos. Visivelmente, não entendem a democracia", acrescenta.

uh/fp AFP 080921 DEC 06

AFP
Leia esta notícia no original em:
Terra - Brasil
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI1290231-EI294,00.html