"Por causa dos meus tênis?", eu quis me certificar. "Ah, também tem o jeans velho e largão, essas camisetas de banda, esse cabelo querendo ser grande. Achei que era a sua cara". "Pois é, mas ando muito envolvido com o meu projeto de mestrado, e se eu pegar mais essa pauta..." "Projeto de mestrado?" "É. Em... letras. Envolve Monteiro Lobato e Shakespeare". "Que interessante". Sim, é mentira que eu esteja "muito envolvido" com o meu projeto de mestrado, que ainda está no estágio que eu chamo de Descobrir o que Diabos é um Mestrado. Mas eu mestre sou tão falso quanto eu indie.
Para começar, os All-Star são o mais novo estágio de um vício em tênis de lona iniciado na adolescência. Eu sempre fui um cara franco-esportivo, usava Le Cheval e Le Coq Sportif. Mas de uma hora para outra, todo mundo que era legal estava usando Pênalti, e não para jogar futsal, que no tempo ainda se chamava futebol de salão. Aliás, ia ser massa se dança de salão se chamasse dancesal, né? Mas divago. Comecei com Pênalti, depois para Rainha, e vivi o inferno dos Redley. Cheguei a ter um Redley roxo. Enfim, é mais forte do que eu e vem de mil novecentos e Angélica apresentando o Milk Shake na Manchete. Ou seja, não é por modismo.
Da mesma forma o resto: as calças largas vem do fato de eu ter emagrecido (de saudade de Porto Alegre? nã! comida aqui é muito cara!) e não ter comprado roupas novas. O cabelo a crescer é o mais fino exemplo (na verdade encaracolado exemplo) de relaxo, uma opção inerte, e não estética. Dou a manga a torcer: a camiseta era de banda, e fruto do mais cândido deslumbramento. No meu primeiro fíndi (findie?) em São Paulo, cara, eu fui na Galeria do Rock! E, cara, lá é muito rock! Na verdade o sub-solo é hip-hop, o térreo só vende roupa e relógio e nos andares seguintes a maioria das lojas é "do metal!", mas, ah, ROCK! E aí eu pensei, cara, eu quero uma camiseta de uma banda de rock! E aí eu comprei! Dos Pixies! E vesti! E lavei na banheira do hotel junto com um blusão de lã que soltava tinta e deixou ela manchada, mas, ei, ROCK'N'ROLL! Ainda assim, ela contribuiu decisivamente para que eu fosse identificado como um indie em potencial. Próxima vez compro uma do Kiss.
Indies do "não te direi o nome, pátria minha" (cês não curtem Vinicius?): "não me leve a sério, não me leve a mal, me leve pra casa" (mas Engenheiros cês curtem, né?). Eu não tenho problema nenhum em ser ou não ser indie. Até porque a expressão tem sido usada com tantos significados que algum fatalmente deve servir para qualquer um.
Um dicionário online traz como primeira definição do termo como sendo "um filme não produzido por um grande estúdio de cinema". Todo título que participa do festival de Sundande é indie, Mas e os filmes pornôs, onde ficam? ("Geralmente no segundo andar da locadora". Rá, engraçadinho.) Outro caso: o Oasis, assim como toda a banda inglesa com vocalista fanho, recebeu automaticamente o selinho de indie assim que surgiu. Mas vendeu discos demais e deixou de ser: virou ROCK! Com os Los Hermanos foi o contrário: quando estouraram com "Anna Júlia" eram pop, mas com o fracasso inicial do segundo disco, viraram a mais notória banda indie carioca.
No quesito "escritores gaúchos ex-colegas de fanzine eletrônico de vinte e poucos anos e dois livros em cujo quarto já estive", a coisa também é complexa. Clarah Averbuck podia requisitar seu certificado de indie até um tempo atrás, mas agora que a guria já deu entrevista para o Clodovil, a Maria Gabriela e, supremo mainstream, assinou um texto na Playboy, as coisas já começam a se complicar. Daniel Galera, por seu lado, que eu vi com esses olhos que o Terra há de contratar fazendo resenha de "A.I. - Inteligência Artificial" e "Shreck", está mais indie do que nunca. Indie a ponto de ele mandar cinco fotos suas para o caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, nenhuma servir e ele ter de mandar uma ilustração. Quão indie é isso?
Como queriamos demonstrar, indie é um conceito tão amplo que pode se aplicar a todo e qualquer humano brasileiro urbano entre 15 e 35 anos. Talvez a única coisa indie autêntica e inconfundível seja aquilo que me denunciou para meus superiores: o vestuário. (Deixemos claro que oficialmente eu sou um colaborador, de forma que oficialmente eles não são meus superiores, são meus amigos.)
Para homem é mais ou menos aquilo mesmo: tênis All-Star; calça jeans bem surrada, de preferência com a bainha desfeita, camiseta de banda ou com estampa ou com alguma frase maneira ou furada ou bem justa ou bem largona, cabelo à la Strokes. Para as mulheres, coturno, meiona, sainha, blusinha, cabelos curtos ou com franja, de preferência artificialmente pretos pintados com hena. Opcionais para ambos os sexos: pulseira, brinco, piercing, tatuagem, maquiagem, mas nada que transforme você em freak: você é indie.
Pronto, e agora, você faz o quê? Rejeita as convenções da sociedade e sai pela highway, como um beatnik? Busca um estilo alternativo de vida, como um hippie? Se revolta e diz que não há futuro, que nem um punk? Se entope de cocaína e só se importa consigo mesmo, que nem um yuppie?
Claro que esses são estereótipos grotescos, e que esses
termos, se hoje não querem dizer mais nada, já quiseram
dizer alguma coisa. O que acontece com os indies, como já
havia acontecido com os clubbers, e os grunges antes deles,
é que hoje os "movimentos" não surgem, crescem, amadurecem
e, mais tarde, perdem sua alma e significado. Na verdade,
eles já nascem sem nenhum dos dois.
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Colaborou Jayson Blair (© Caio de Camargo Maia).
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"Vamos brincar de indie" é um trocadilho inventado por
alguém que eu não sei quem é. De qualquer forma, parabéns.
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