O luxo (des)vendado

Quarta, 17 de maio de 2006, 15h24

Enquanto as notícias que chegam pela mídia sempre mostram o Golfo Pérsico como um lugar de conflitos, repressão e vida miserável, o mercado do luxo e da excentricidade naquela parte do planeta continua se desenvolvendo com bastante avidez.

De 8 a 11 de maio aconteceu mais um salão de alta costura em Abou Dhabi. As mais famosas maisons de moda como Valentino, Emanuel Ungaro e Givenchy estavam presentes, claro, visto que o Oriente Médio representa 40% de todo o mercado de alta costura do mundo. São da Arábia Saudita as mais desejáveis clientes dessa indústria devido ao alto poder aquisitivo oriundo do petrodólar.

O salão tem suas peculiaridades: nos quatro dias de exposição desfilam, nessa ordem, criadores italianos, americanos, britânicos e franceses, com direito a jantares de gala e muita gentileza. De jóias a iates, tudo é negociado com certa simplicidade.

Várias missões brasileiras fizeram suas incursões pelo Oriente Medio, e uma das mais antigas fornecedoras de jóias brasileiras às princesas árabes dos Emirados acaba de completar 40 anos de profissão. Clementina Duarte, a designer pernambucana que transfere para metais e gemas a elegância estética brasileira lançou um livro onde conta sua internacionalmente premiada trajetória profissional.

Clementina, que tem pontos de venda em Recife, Brasília e Washington e é uma referência nesses mercados, a partir desse mês tem suas peças comercializadas também em São Paulo.

Exemplos de sucesso do ramo da moda e design de luxo não são poucos. A Harvey Nichols, famosa loja de moda de Londres, tem lojas em Riad, na Arábia Saudita e Dubai, nos Emirados. A Villa Moda, uma empresa de shoppings de moda 100% árabe, com clients como Prada, Louis Vuitton e Yves Saint Laurent, possui lojas no Catar, Dubai, Síria e Kuaite.

Nestes espaços de consumo não existem caixas registradoras. Os clientes escolhem as mercadorias, elas são transportadas pelo serviço de conciergerie, e pagas na saída, onde os veículos já aguardam seus proprietários com todas as compras arrumadas no porta-malas.

A Villa Moda vai mais além, tem planos pra inaugurar sua maior loja de luxo no complexo comércio-cultural Power Station a ser inaugurado em 2009, na antiga estação de energia Battersea, às margens do rio Tâmisa, Londres.

É interessante perceber que o Oriente Médio não é somente um grande filão para produtos de moda e design. De fato, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Catar (mais conhecido por aqui como a sede da TV Al Jazeera), o Bareine e o Kuaite completam o polígono árabe do consumo "Over Premium".

Uma das indústrias mais promissoras na região é a da construção civil, com a implantação de mega-projetos comerciais e residenciais. O condomínio Durrat Al Bahrain, é um dos exemplos disso. Um novo estilo de vida é proposto nesse começo de século: residências tipo "resort" com alto padrão em design e urbanismo.

O complexo, previsto para ser inaugurado em 2012, inclui nos seus 20km2 de área uma nova costa com 13 ilhas artificiais, atóis e praias privativas, em pleno Golfo Pérsico: residências, hotéis de luxo, restaurantes, parques, shoppings, spas, marina, campo de golfe, além de espaços reservados para diversos tipos de esportes aquáticos e terrestres. Sugestões podem ser acrescentadas ao projeto original de acordo com as necessidades dos consumidores.

A Riviera Árabe, como está sendo chamada, tem ainda, no mesmo estilo do anterior, o condomínio The Pearl, no Catar, que começa a receber moradores no ano que vem. O sistema de ilhas permite uma maior segurança e privacidade.

Mas os projetos não param por aí. A corrida mundial pelo edifício mais alto do mundo inclui o Burj Dubai (com 705 metros) que deverá ficar pronto em dezembro de 2008. Além de apartamentos residenciais, o Burj Dubai vai abrigar o primeiro hotel de luxo com a assinatura de Giorgio Armani.

Ao redor do edifício, outros grandes projetos, como o maior shopping do mundo, o Dubai Mall, um lago artificial, restaurantes, hotéis, biblioteca, observatório, academia de ginástica, parque aquático, spa, recreação, entretenimentos e boates.

Mas, como a estação da hora no hemisfério sul é o inverno, agora é possível esquiar no deserto arábico, mais precisamente em Dubai, Golfo Pérsico (onde mais?). O maior parque fechado de esportes de neve foi inaugurado no final do ano passado. Voltando à moda, a roupa e o equipamento estão incluídos no bilhete de entrada. Detalhe: as tradicionais roupas árabes são proibidas para a prática do esqui.

Se o céu parecia o limite para o mercado de luxo, o futuro já conta com lançamento de luxuosos submarinos (ao invés de iates): evitam paparazzi, são discretos e oferecem um estilo de viagem nunca antes experimentado. Dois modelos já estão à venda, com preços a partir de 20 milhões de dólares. Um deles inclui um minisub para embarque e desembarque de passageiros em pequenos portos.

Como visto, o império do Luxus de Omar Pasquim na novela Cobras e Lagartos não passa de um bangalô na vida real.


De volta ao tanque

Qual o consumidor que nunca se viu xingando uma marca por ter estampado a frase "lavar a seco" em sua etiqueta? Pesquisas indicam que muitas empresas têm colocado essa etiqueta no intuito de se proteger da responsabilidade da deformação das roupas após o uso.

Com a globalização de mercadorias e as exigências de proteção ao consumidor, as empresas estão se sentindo mais vulneráveis. Elas alegam que os testes são caros e a dinâmica da moda não permite muitos ensaios.

Muitos consumidores se sentem lesados pela obrigação de seguir as recomendações dos fabricantes para terem os seus direitos assegurados. Algumas ações já correm na justiça européia quanto à desnecessária indicação de lavar a seco em muitos produtos.

O mercado de lavanderias, em conseqüência, deu um salto, na medida que mais gente passou a solicitar o serviço. O estilo de vida agitado também tem proporcionado o oferecimento de serviços de coleta e entrega de roupas a domicílio, inclusive com conta mensal, independente do número de peças.

Além da despesa alta, nem todo tecido é realmente apropriado para ser lavado com solventes e vapores. Pensando nisso, a empresa The Laundress ("a lavadeira" em inglês), acaba de lançar uma linha de produtos para a manutenção das roupas. Xampus, condicionadores, amaciantes, tira manchas e detergentes para diferentes composições de fibras e tipos de sujeiras.

O apelo vai no sentido de que roupas caras muitas vezes perdem o glamour por não serem tratadas com o devido carinho. As fundadoras, uma ex-executiva da Chanel e uma ex-designer da Ralph Lauren sugerem a lavagem manual como o melhor tratamento que você pode dar à sua querida roupinha.

O site da empresa dá dicas de lavagem, oferece um serviço para tirar dúvidas, exibe vídeos de como lavar e secar em casa, passo a passo. A empresa oferece ainda um serviço de "Day Spa" para peças em lã e cashmere, que retornarão à sua proprietária no final do dia como se fossem novas, acabadas de sair da loja.

No momento os produtos são oferecidos apenas ao mercado de luxo e em lojas transadas como a Colette em Paris. Se a cozinha, por conta dos "chefs", estava sendo considerada a área mais "cool" de uma casa, ela acabou de perder o posto para a lavanderia.


Maria Alice Rocha é doutoranda em moda na University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

Terra Magazine

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