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Google quer ampliar oferta de livros em busca online

7 jan 2009
12h30
atualizado em 3/2/2009 às 17h11

Ben Zimmer, produtor executivo de um pacote de website e software chamado Visual Thesaurus, procurava o uso mais antigo da frase "você não manda em mim." Usando um banco de dados de jornais, ele encontrou uma referência de 1953. Mas ao usar a busca de livros do Google recentemente, ele encontrou a frase em um conto de The Church, um periódico publicado em 1883 e escaneado da biblioteca Bodleian em Oxford.

Equipe do Google que trabalha com livros posa na sede da empresa: a partir da esquerda, Alexander Macgillivray, Daniel Clancy, Nicole Alston, Adam Smith e Jim Gerber
Equipe do Google que trabalha com livros posa na sede da empresa: a partir da esquerda, Alexander Macgillivray, Daniel Clancy, Nicole Alston, Adam Smith e Jim Gerber
Foto: Darcy Padilla / The New York Times

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Desde que o Google começou a digitalizar livros impressos há quatro anos, acadêmicos e outros com interesses especializados têm conseguido acessar diversas informações perdidas em estantes empoeiradas de bibliotecas e sebos.

Segundo Dan Clancy, diretor da engenharia da busca de livros do Google, todo mês os usuários acessam pelo menos 10 páginas de mais da metade do um milhão de livros sem direitos autorais que o Google colocou em seus servidores. A busca de livros do Google "permite a procura de coisas que seriam muito difíceis de serem pesquisadas de outra forma," disse Zimmer, cujo site é visualthesaurus.com.

Um acordo em outubro com autores e editoras que haviam entrado com dois processos sobre direitos autorais contra o Google permitirá que os usuários leiam uma coletânea ainda maior de livros, incluindo muitos que continuam sob proteção de direitos autorais.

O acordo, que ainda precisa ser aprovado por um juiz neste ano, também abriu caminho para que ambos os lados lucrassem com as versões digitais dos livros. A exata oportunidade comercial que o acordo representa é desconhecida, mas poucos esperam que ela gere lucros significativos a qualquer autor individual. Até mesmo o Google não espera necessariamente que o programa de livros contribua significativamente para sua receita.

"Não achamos necessariamente que poderíamos ganhar dinheiro", disse Sergey Brin, um dos fundadores do Google e presidente de tecnologia, em uma breve entrevista na sede da empresa. "Apenas sentimos que isso faz parte da nossa missão central. Existem informações fantásticas em livros. Freqüentemente, quando faço uma pesquisa, o que encontro num livro está muito a frente do que encontro num site."

A receita será gerada pelos anúncios nas páginas de pré-visualização dos livros digitalizados, pelas assinaturas destinadas a bibliotecas e interessados no acesso ao banco de dados de todos os livros digitalizados da coleção do Google, e pelas vendas de acesso digital a livros com direitos autorais. O Google ficará com 37% desses ganhos, deixando 63% às editoras e autores.

O acordo pode dar nova vida a livros impressos esgotados que, em forma digital, possibilitarão que escritores lucrem com títulos que já saíram de circulação há anos. Dos sete milhões de livros digitalizados pelo Google até agora, cerca de cinco milhões estão nessa categoria.

Mesmo se o Google fosse a julgamento e vencesse os processos, disse Alexander Macgillivray, conselheiro-geral associado de produtos e propriedade intelectual da companhia, ele ganharia o direito de disponibilizar apenas uma amostra do conteúdo desses livros. "O que as pessoas querem é ler o livro", Macgillivray disse.

Os usuários já estão tirando proveito dos livros fora de circulação digitalizados e disponíveis para download grátis. Recentemente, enquanto Clancy monitorava as expressões usadas nas buscas, uma que dizia "moldes para fontes de concreto" chamou sua atenção. A busca encontrava uma versão digital de um livro desconhecido de 1910, e o usuário havia passado quatro horas lendo suas 350 páginas.

Para acadêmicos e outros que pesquisam assuntos que não podem ser encontrados na Wikipédia, o acordo irá fornecer acesso a milhões de livros com apenas um clique. "Alunos de pequenas cidades dos Estados Unidos terão muito mais coisas ao alcance de seus dedos", disse Micheal A. Keller, bibliotecário da Universidade de Stanford. "Isso é muito importante."

Quando o acordo foi anunciado em outubro, ambas as partes o saudaram como um marco que permitiria a continuidade do projeto de digitalização do Google e ao mesmo tempo protegeria os direitos e interesses financeiros de autores e editoras. No entanto, as partes não chegaram a um consenso sobre se a digitalização de livros por si só violava os direitos autorais de escritores e editoras.

Nos meses que se sucederam ao anúncio, ambas as partes do processo ¿ e também aqueles, como bibliotecários, que serão afetados pelo acordo ¿ tiveram a oportunidade de examinar o documento de 303 páginas e tentar digerir seus prováveis efeitos.

Alguns bibliotecários disseram temer que o Google estipule preços altos pelas assinaturas de acesso ao banco de dados à medida que ele crescer. Embora grupos sem fins lucrativos como o Open Content Alliance estejam construindo suas próprias coleções digitais, nenhum outro concorrente significativo do setor privado está no negócio. Em maio, a Microsoft encerrou seu projeto de digitalização de livros, efetivamente deixando o Google com o monopólio do segmento.

David Drummond, chefe jurídico do Google, disse que a companhia desejava oferecer o banco de dados de livros para o maior número de bibliotecas possível. "Se o preço aumentar demais," ele disse, "simplesmente não vamos ter bibliotecas que possam arcar com sua aquisição."

Para leitores que desejem comprar acesso digital a um livro digitalizado, disse Clancy, o Google provavelmente venderá pelo menos metade dos livros por US$ 5,99 ou menos. Alunos e professores de universidades que tiverem assinatura do banco de dados poderão acessar o conteúdo integral de todos os livros de graça.

Para o autor típico, "isso não é uma mudança do jogo" no sentido econômico, disse Richard Sarnoff, presidente da Associação de Editoras Americanas e do grupo de investimentos em mídia digital Bertelsmann, empresa que controla a Random House, maior editora de livros do mundo.

"Eles receberão pelo uso de seus livros, mas se isso será tanto a ponto de poderem viver com luxo ¿ acho que é uma fantasia", Sarnoff disse. "Acredito que alguns autores receberão uma quantidade significativa de dólares com isso, mas um vasto número ganhará um valor insignificante".

Mas, acrescentou ele, "algumas centenas de dólares por cada autor podem equivaler a uma soma considerável para uma editora com direitos de 10 mil livros". Até agora, as editoras autorizaram o Google a oferecer versões digitais para pesquisa de livros impressos recentes que tiveram pouco retorno.

A Macmillan, companhia que controla editoras como Farrar, Straus & Giroux e St. Martin's Press e representa autores como Jonathan Franzen e Janet Evanovich, oferece 11 mil títulos para busca no Google. Em 2007, a Macmillan estimou que o Google ajudou a vender cerca de 16,4 mil cópias.

Os autores consideram a possibilidade de leitores encontrarem seus livros fora de circulação como uma vitória cultural mais do que financeira.

"Nossa cultura não é apenas o último romance de Stephen King ou o novo livro do Harry Potter", disse James Gleick, membro da diretoria da Authors Guild. "Ela é também os mil livros desconhecidos que têm apelo, não ao um milhão de pessoas que comprou o livro do Harry Potter, mas a 100 pessoas."

Alguns acadêmicos receiam ser provável que os usuários do Google pesquisem informações reduzidas ao invés de ler extensivamente. "Devo dizer que, pedagogicamente e em termos de avanço acadêmico, me preocupo que as pessoas serão incentivadas a usar os livros de um modo fragmentário", disse Alice Prochaska, bibliotecária da Universidade de Yale.

Outros dizem acreditar que os leitores continuarão a apreciar textos longos e que a busca de livros do Google simplesmente ajudaria a encontrá-los.

"Não existe uma maneira curta de apreciar Jane Austen e espero que esteja certo sobre isso", disse Paul Courant, bibliotecário da Universidade de Michigan. "Mas muita leitura vai acontecer pela tela. Uma das coisas importantes sobre esse acordo é que ele fornece à literatura do século XX uma forma que os alunos do século XXI conseguirão encontrar".

A busca de livros do Google já entrou na cultura popular, na versão para o cinema de Twilight (Crepúsculo, em português), baseada no romance de Stephenie Meyer sobre uma garota adolescente que se apaixona por um vampiro. Bella, um dos personagens principais, usa o Google para encontrar informações sobre uma tribo indígena local. Quando a busca retorna um livro, o que ela faz? Vai até uma livraria e o compra.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
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