Uma velha conhecida voltou a assustar o trabalhador brasileiro em 2002: a inflação. O Banco Central bem que tentou, aumentando a taxa básica de juros (Selic) para 22% ao ano. Mas a inflação não perdoou e bateu recordes de alta no mês de outubro. Com a disparada do dólar, gasolina e alimentos ficaram mais caros. Tarifas de serviços públicos como telefone ou luz também ficaram mais salgados, fazendo a estabilidade de preços do Plano Real cair por terra.
Especialistas já projetam uma inflação de dois dígitos em 2002, na casa dos 10%. A última vez que o índice atingiu dois dígitos foi em 1995, quando o IPCA ficou em 22,41%, primeiro ano após a implantação do programa que criou o real em julho de 1994.
O Brasil já estourou a meta de inflação deste ano, cujo teto é de 5,5%. É o segundo ano consecutivo que o País excede a meta. Em 2001, a inflação pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ficou em 7,67%, quase dois pontos acima do teto da meta, refletindo a série de choques que abateu a economia como o racionamento de energia e a desaceleração econômica mundial. Nos primeiros dez meses deste ano, a inflação medida pelo IPCA já atingiu 6,98%, puxada pela alta do dólar e pelo aumento dos preços administrados pelo governo.
O dólar deu uma folga, já acumula uma alta de 50% no ano. Isto quer dizer que os preços não devem cair tão cedo. Especialistas acreditam que a partir de fevereiro o consumidor comece a perceber reajustes para baixo.
A última ata do Copom (Comitê de Política Monetária) projeta uma inflação de 6% para 2003. A nova projeção para 2003 ainda pode estar abaixo do teto da meta para o período, que é de 6,5%, mas já estourou a chamada "meta ajustada" de 6% que estabelece o "alvo" que a política monetária deverá mirar.
O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, não acredita na volta da inflação em 2003. Segundo ele, a alta dos preços foi conseqüência da especulação com o dólar durante o processo eleitoral. Enquanto isso, o presidente Fernando Henrique Cardoso minimiza o risco de que a inflação deste ano contamine a inflação do ano que vem, desde que Lula "atue de forma competente".
Apesar do otimismo, cálculos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que a inflação medida pelo IPCA deu um salto desde agosto, confirmando que a alta, antes restrita aos preços administrados, como combustíveis e energia, passou a ser generalizada. Segundo o instituto, nem mesmo em 1999, ano da desvalorização cambial, houve uma variação tão grande no patamar da inflação.