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O historiador Átila Roque, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), disse em entrevista exclusiva ao Portal Terra que a América do Sul deveria se unir à Europa para tentar barrar um conflito armado entre Estados Unidos e Iraque.
Roque ressaltou que o Brasil está correto em sua diplomacia com relação à crise na Venezuela e que uma suposta vitória de Carlos Menem nas eleições presidenciais da Argentina colocaria em risco a união da América do Sul. Leia a entrevista abaixo:
Terra - Foi discutido no painel de hoje que seria interessante uma união entre a América do Sul e a Europa para tentar barrar a possível guerra entre os Estados Unidos e o Iraque. O senhor acha que a América do Sul tem um peso político forte capaz de conseguir um feito como este?
Átila Roque - Acho que sim, sobretudo considerando a cena política brasileira. A eleição de Lula trouxe um elemento novo no cenário, guardadas as devidas proporções. A gente sabe que no equilíbrio de forças mundiais, o Brasil é um ator de menor porte sob o ponto de vista econômico e militar. Mas a força que ele tem hoje é moral, é a força das idéias, é a força de um governo com muita legitimidade. É um governo que regionalmente tem muito peso e muita importância. Num contexto em que você tem uma estratégia dos Estados Unidos de avançar a hegemonia sobre as Américas, através da Alca, acho que nós termos um governo claramente identificado com os valores do Fórum muda tudo um pouco. É claro que isso faz parte da luta política. Mas que o Brasil tem a possibilidade, junto com outros países de porte médio, de ressituar o debate sobre esses temas, não tenho a menor dúvida.
Terra - O presidente do PT, José Genoino, disse em uma entrevista que o Brasil deve ter uma política externa ofensiva e ativa. Como o senhor vê a posição do Brasil com relação à crise na Venezuela?
Átila Roque - O Brasil está tendo um papel histórico nessa crise, porque está reforçando a idéia de que é preciso respeitar o processo democrático conforme a diplomacia brasileira, mas que nem sempre foi exercida de forma positiva. Acho que o governo está de acordo com a tradição na diplomacia, mas dando um passo à frente ao estar aceitando um papel de ator principal nesta articulação, já ensaiando um papel de liderança. Ao mesmo tempo, faz isso valorizando as instâncias multilaterais, construindo um grupo de países amigos da Venezuela, discutindo junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), e trazendo de volta os Estados Unidos para a mesa de discussões, o que é fundamental. Num momento em que a idéia de multilateralismo está ameaçada pela estratégia unilateralista dos EUA, o Brasil colocar o tema da Venezuela no marco da democracia e da multilateralidade, acho muito importante.
Terra - Ainda sobre diplomacia, foi falado neste painel que uma possível vitória de Carlos Menem nas eleições presidenciais da Argentina colocaria em risco uma união da América Latina porque os Estados Unidos poderiam novamente ter uma presença muito forte naquele país caso a moeda seja novamente indexada ao dólar. O senhor acha isso possível?
Átila Roque - Tudo que acontecer na Argentina terá um peso muito forte em toda a América Latina e para o Brasil e mercosul. Esperamos que não tenhamos o pior cenário, que seria a volta de Menem, que certamente vai comprometer um pouco as possibilidades (de união). Mas acho que o principal é o respeito ao processo democrática. Se isso ocorrer, o governo Lula e todos que tenham uma visão de articulação norte ¿americana vão ter que lidar com a situação. Vamos ter que esperar para ver.
Terra - Também foi falado no painel de hoje que os Estados Unidos querem "esmagar" a Colômbia e a Palestina? Que resposta a América do Sul daria a uma ação militar norte-americana efetiva e contundente na Colômbia?
Átila Roque - Acho que a posição que tem a diplomacia brasileira é de oposição a qualquer tipo de intervenção. É claro que o Plano Colômbia foi um passo muito forte no sentido de militarização do conflito. A melhor contribuição que nós podemos dar, e esperamos que o governo Lula caminhe nessa direção, é sair da lógica da resolução do conflito pela via militar. Acho que esse caminho é sem volta, sem solução, que só acirra a divisão e a violência. No caso da Colômbia, está cada vez mais clara que precisa buscar uma solução que transcenda a própria Colômbia.Há que se pensar num âmbito do conjunto da sociedade sul-americana e latino-americana. O caminho do Plano Colômbia não vai levar a uma solução, mas ao aprofundamento do impasse. O Oriente Médio é um exemplo de onde isso pode levar.
Terra - O Fórum Social Mundial já está conseguindo apresentar resultados práticos para a sociedade. Ele já conseguiu sair do campo das idéias?
Átila Roque - Basta olhar os workshops, os painéis, e as propostas que são feitas. É o que mais ocorre no FSM. Esse esforço de sistematização do "como fazer", sem cair no modelo tradicional das declarações, da lista de tarefas, etc, vai demonstrar isso muito bem.
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