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Fórum Social Mundial
Governo paralelo no Rio é pura bobagem, diz Yuka
 
Márcio Brodt
 
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Um "sobrevivente de uma guerra civil não declarada". É assim que se define o músico Marcelo Yuka, ex-baterista e compositor da banda O Rappa. Em novembro de 2000 o músico levou nove tiros que o deixaram paraplégico ao tentar impedir um assalto.

Yuka deu seu testemunho e participou de painel do Fórum Social Mundial neste sábado, em Porto Alegre, e disse que não deixará a mídia transformá-lo em herói ou alguém digno de pena por estar em uma cadeira de rodas. "Vou aproveitar o espaço que me dão para divulgar minhas idéias, que são radicais, e, quando eu me levantar, a mídia vai ter que me engolir."

Ele também disse à platéia - na maior parte jovens, que o ovacionaram na entrada - que acredita que algo de novo está acontecendo no mundo só pelo fato de mais de 100 mil pessoas terem participado da marcha de abertura do FSM e ouviram o discurso de Lula sem haver incidentes graves de violência e uso de drogas.

Para Yuka, a ética do futuro é a amor no plural. "Só vamos conseguir existir na sociedade quando aprendermos a amar no plural. O amor a todos é que irá manter a saúde das comunidades". Yuka terminou seu discurso pedindo aplausos para os "cabeças brancas" do Fórum, porque eles sonham há mais tempo.

No final do painel, já cansado por todo o tempo que permaneceu na mesma posição em sua cadeira, Yuka conversou com o Terra. Sempre bem disposto, Yuka deu suas impressões sobre a violência no Rio e disse que não há um governo paralelo. Para Yuka, por haver um pacto entre polícia e bandidos, tudo acaba sendo uma única coisa, logo, não há paralelismo.

Terra - Como você vê atualmente a situação da violência no Rio de Janeiro?

A gente teve um trabalho muito bom, muito corajoso com a governadora Benedita da Silva. Um trabalho exemplar, acredito, para todo o Brasil. Foram apenas 8 meses, e ela pegou um governo falido. O Anthony Garotinho entregou de propósito o governo daquela maneira. Mas a mando de Lula, ela aceitou. O Lula me contou que queria ter a primeira governadora negra do país. Ela tinha uma equipe muito boa de segurança. Nenhum dos homens fortes de segurança dela era da polícia, e eles fizeram um trabalho fantástico, acima de tudo porque peitaram os traficantes.

A bandidagem no Rio de Janeiro mudou muito. O chamado governo paralelo nunca foi paralelo porque a polícia era conivente totalmente com os bandidos. Então não era paralelo porque polícia e ladrão eram um negócio só. Quem fala que há um governo paralelo no Rio, fala uma grande mentira. Outra coisa é que os governantes sempre fizeram um pacto com os bandidos. Um não incomodava o outro. E por quê? Porque o Rio de Janeiro tem como grande negócio o turismo. Então, se fosse declarada a "guerra", atrapalharia o turismo. Nesse pacto, só perdiam os moradores da camada mais pobre da sociedade, que convivia diretamente com o narcotráfico. Então isso não afetava muito os cartões postais da cidade porque os bandidos não atuavam tanto nestes locais. A Benedita acabou com esse pacto.

Terra - E a questão das drogas?

No Rio de Janeiro, até nos locais mais ricos da cidade, você tem ao fundo os morros. Então, nessa questão das drogas, o filhinho de papai consome as drogas, só que a droga foi privatizada. Como assim? O filhinho de papai vai comprar a droga do bandido e a polícia o pega. O que a polícia faz? Pede um dinheiro para soltá-lo. O filhinho, então, liga para o pai, que dá R$ 500 para a polícia, que o solta. Não existe problema social das drogas. O pai rico paga para soltar o filho e todos ganham: o policial e o dono da boca, que ganham uma grana, o filhinho, que continua usando drogas, e tudo bem. Só que o filho de pobre, quando é pego com drogas, não tem dinheiro para pagar. Então, ele entra na porrada ou é morto na polícia.

O problema das drogas no Rio é só para pobre. Esse negócio de "legalize já" é balela para rico. Se você for perguntar para um pobre se ele quer que a droga seja legalizada, ele irá responder que não. O pobre já tem tantas coisas para se preocupar, são tantas as necessidades, que esse negócio de fumar maconha é a última coisa para pensar. Agora, já houve até passeata no Rio para legalizar a droga. É coisa para menino rico.

Terra - Que idéia você teria para começar a combater isso?

A Benedita, por ser uma mulher muito corajosa, encarou a questão de frente. Mas isso não foi de hoje. Teve no Rio um chefe de polícia, o Hélio Luz, que enfrentou os riquinhos. No posto 9, lugar no Rio onde se fumava maconha tranqüilamente, inventaram o apitaço, em que todo mundo começava a apitar quando a polícia aparecia. Vários artistas e gente com grana iam fumar lá. O que o Hélio Luz disse: "quando a galera fuma na zona norte, vai todo mundo preso e leva porrada. Por que não isso na zona sul?" Só que a zona era de artista, logo não podia.

Quer dizer, isso caracterizou que tem dois pesos e duas medidas para a lei no Rio. Pobre vai preso. Rico é artista. "Só porque fuma um baseado vai prender o cara?" Eu também acho que ninguém deva ser preso por causa de um baseado. Mas acho que a lei deve ser para os dois lados, a zona norte e a zona sul. Se não pode ir preso quem fuma no posto 9, também deve ficar livre quem fuma onde eu moro, certo?

Outra coisa, os bandidos hoje são muito novos. Então, o bandido muito novo não tem o respeito da comunidade. Por exemplo, existe um moleque que tem o apelido de Cabeção. Eu o vi jogando bola de gude. Então, para mim, ele é o Cabeção e acabou. Ele é magrelo, tem uma cabeça grande e é feio. Eu sei que o pai dele chama seu José e a mãe dele dona Lourdes. Então, por exemplo, estou subindo o morro, encontro o Cabeção e falo "vai pra casa", dou uma porrada e ele some. Só que quando chega aos 12 anos, o Cabeção não estudou e quer ter as coisas que a televisão ensina. E a televisão ensina o que ter, não como ter. Essa idéia que pobre não quer ter coisas, é errada.

Terra - Como assim?

Pobre quer ter o que qualquer um quer ter. Então, o Cabeção também quer ter. Ele vê novela (para começar, novela sempre começa na Europa com mulheres mais bonitas de calcinha e tal) e quer ter mulheres tão bonitas como as da TV. Por que ele quereria uma mulher feia? Só que trabalhando de peão, não dá. O pai do cabeção é operário e ganha um salário mínimo. Para trabalhar como fogueteiro (que avisa o morro, através da queima de fogos, quando a polícia chega), ele ganha R$ 500 por semana, que é a média. O Cabeção vê o pai dele envelhecer rápido e ganhar R$ 300 para quebrar pedra. Logo, ele resolve soltar fogos. Até um cara oferecer para ele uma arma e um salário de R$ 1 mil por semana. Aí ele pega a arma e vai para a rua. Só que a comunidade continua sem respeitá-lo. Sabe o que o Cabeção faz?

Ele pergunta para o dono do morro e pergunta quando vai ter uma ação. Mesmo que o dono do morro diga que ele é muito jovem para isso, o Cabeção insiste e vai para a ação. Nela, ele mata 10 pessoas, que não fizeram nada. No dia seguinte, toda a comunidade comenta que o Cabeção matou 10 sem motivo e ele passa a ser respeitado, ele conquistou a moral da noite para o dia. O respeito que ele nunca teve na vida, foi conquistado através da violência. E ele viu isso.

Desse momento em diante, ele vai trucidar, vai fazer as maiores aberrações na favela. Uma recente estatística mostrou que 95% das famílias de traficantes são dilaceradas pelo alcoolismo. Então, apanhando quando criança, sem ter estudado, ele não é nada. Com a arma na mão, todas as mulheres o acham lindo. Eu, por exemplo, já vi modelos famosas na boca de fumo achando os traficantes as coisas mais maravilhosas do mundo. Isso é a relação de poder.

Terra - Então, para reverter isso...

Veja bem, há um país em que um cara não tem nada, é um boçal, entra para o Big Brother e vira um sucesso, tem poder. Estamos em um país em que não importa a maneira como um cara consegue ter dinheiro. Ele tendo dinheiro, consegue as melhores mulheres, ele é até simpático. Certa vez a Rede Globo mostrou o Castor de Andrade - um bicheiro que enriqueceu ilicitamente, e que não é mistério para ninguém - no Sambódromo desfilando, por mais de um minuto, e dizia: "Lá vai o Castor de Andrade, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel". Olha, não era patrono nada. Ele era um bicheiro que ficou rico e, por isso, bancava uma escola de samba.

Não dá para mostrá-lo como um símbolo, como um cara que fez bem à comunidade porque ele enriqueceu ilicitamente, ele era um marginal, um criminoso. Os valores ficaram tão trocados que não importa como você consegue as coisas, importa se você tem poder. Para o traficante "de menor", a televisão fica mostrando o dia todo "você tem que ter", sem mostrar como conseguir.

Terra - Você falava antes do poder paralelo não ser paralelo. Com a Benedita houve alguma alteração nisso?

A Benedita deu uma mudada radical. Essa mulher é muito inteligente e corajosa. a Benedita chegou e falou o seguinte: "Acabou o pacto, acabou." O Luis Eduardo Soares, que estava no governo Garotinho como chefe de polícia disse: "existe na polícia a banda podre que ganha dinheiro". Sabe o que fizeram com ele? A polícia tentou matá-lo e ele foi exilado em Nova York. Imagina o chefe de polícia ser caçado pela própria polícia! Agora, a Rosinha entrou no governo e tudo foi por água abaixo. Ela colocou como chefe de polícia Josias Quintal, que é um corrupto. A sorte é que o Lula botou como chefe nacional de segurança o Luis Eduardo Soares. O Josias vai ter que engolir o Eduardo.

Terra - Esse tipo de discussão sobre violência nas cidades, como a que houve hoje no Fórum, tem que tipo de importância para mudar a cabeça das pessoas?

As pessoas devem pensar que a grande mudança para acabar com a violência seria ter um país mais igual social e economicamente. Isso vai demorar anos para acontecer - se acontecer. Não acredito que o Lula consiga isso com um mandato só. O que se pode fazer imediatamente seria a sociedade civil requerer o fim do comércio de armas de fogo no país. E não vejo ninguém fazendo isso. Passeatas pedindo o "fim da violência" são muito vagas. Isso é pedir por nada. É preciso pedir coisas efetivas e sérias para ser realizadas.

A coisa mais séria hoje é pedir pelo fim do comércio de armas de fogo. Só que essa é a indústria mais lucrativa do mundo. Eles estão infiltrados no Congresso Nacional e não vão deixar isso barato. Arma lucra mais do que drogas, e olha que droga não paga imposto e eles pagam.
 

Redação Terra