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Fórum Social Mundial
Brasil inicia o caminho contra a violência escolar
 
Márcio Brodt
 
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O Brasil está apenas descobrindo agora o caminho para combater a violência escolar. A conclusão é da pesquisadora em Educação Miriam Abromovay, que conduziu em 14 capitais brasileiras uma pesquisa para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Intitulado Violência nas Escolas, o trabalho indica que 90% dos crimes relacionados aos jovens têm início no ambiente escolar.

Professora da Universidade Católica de Brasília, Miriam Abramovay vem se dedicando ao estudo dos jovens escolarizados do Brasil. Formou-se em Sociologia e Ciências da Educação pela Universidade de Paris, na França, e possui mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

Entre muitos trabalhos publicados destacam-se Gangues, Galeras, Chegados e Rappers (Garamond, 1999), Escolas de Paz (Unesco, 2001), e Violências nas Escolas (Unesco, 2002). Sobre esse trabalho, Miriam apresentou seu depoimento ontem no seminário Violência nas escolas e estratégias de superação, durante o Fórum Mundial de Educação.

Em entrevista ao Portal Terra após o seminário, Miriam enfatizou que o Brasil está descobrindo os seus caminhos contra a violência escolar, mesmo que essa discussão seja recente e que a banalização da violência a faça entrar de maneiras distintas no ambiente escolar.

A senhora disse durante o seminário que a violência entra sem rosto nas escolas. Qual a pior maneira "sem rosto" que existe?

Quando eu falo "sem rosto", quero dizer que ela entra de muitas formas, sem uma única cara. Então, a violência pode entrar de fora pra dentro ou pode ficar nos arredores da escola. A maneira como ela se mostra pode ser através da violência física, dos roubos, das brigas, e através da arma (de fogo ou não) também. Há outra forma de violência que é a simbólica, que faz parte do cotidiano da escola e está relacionada ao racismo, gritos, abuso de poder por parte dos professores e agressões verbais dos alunos. Outra violência é a institucional, que é, por exemplo, a certeza do jovem de que com a formação que tem ele não vai conseguir entrar na faculdade. Então é nessa amplitude da violência que ela entra sem rosto.

Também durante o seminário, a senhora afirmou que violência não é determinante, que a escola não é violenta, mas que ela está violenta.

Por exemplo, a Maria Helena (da Silva Ramos, outra participante da mesa, diretora do Colégio Estadual Guadalajara, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, que diminuiu a violência com trabalhos de integração entre a escola e a comunidade local) citou uma escola muito violenta, em um bairro muito violento, barra pesada do Estado do Rio de Janeiro. A Maria Helena passou por situações de muita violência que ela nem citou. E a mudança que ela conseguiu na sua escola foi feita através de uma coisa do cotidiano. Ela mudou as relações na escola, abriu a escola à comunidade, às famílias e também transformou o local em um espaço de cultura onde os alunos pudessem ter voz. Bastou esse trabalho, aparentemente simples, para mudar completamente a situação vivida. A escola pode estar em um bairro violento "como o dela", com tráfico de drogas, um bairro onde, inclusive, tem que existir negociação com o tráfico, mas é possível procurar um caminho sem violência. Agora, não é um oásis de paz, mas, a situação de violência, de caos, no Colégio Guadalajara mudou por uma atuação da diretora Maria Helena e por toda uma idéia do que é educação.

Essa violência está ligada necessariamente à criminalidade?

O Violência nas escolas não é um estudo de vitimização. Eu não pergunto ao aluno "você sofreu violência", eu pergunto "você viu uma violência na escola". E o que é pior? É tudo que implica no ferimento e na morte. Como, por exemplo, quando os alunos ferem outros perto da escola ou quando eles utilizam arma na porta da escola. E isso é o pior porque implica na morte. Que não tem volta. Mas tem o sofrimento cotidiano da escola, o que eu chamo de as pequenas incivilidades, as microviolências, que são muito fortes e que implicam em um sentimento de insegurança por parte de alunos e de professores, e por um sentimento de que as pessoas não possam exercer a sensação de ser cidadão no talvez único espaço destinado a isso: a escola.

Mesmo que a discussão sobre a violência nas escolas seja recente no Brasil, dá para fazer uma diferenciação entre essa violência aqui e em outros países?

Evidente que dá. Na França, por exemplo, o que importa é a incivilidade, por isso eles fazem grupos de mediação. Isso é fácil lá porque o país tem civilidade. Há os "roubinhos", como chamam, a questão dos empurrões, de falar mal com o outro. Aqui, no Brasil, estamos entrando em uma questão de vida e morte, que é diferente da dos Estados Unidos. Lá há os serial killers. Aqui, não. Aqui entra a questão dos roubos, do tráfico de drogas nas escolas. Se a gente for dizer onde existe mais violência, podemos dizer que é nos EUA devido aos serial killers, mas se você for ver em questão de números, entra aquele dado: os jovens são os que mais matam e mais morrem no Brasil. Então entra aquilo da falta de espaço para o lazer. Os jovens bebem, brigam ou pegam o carro embriagados, etc.

O Brasil pode aprender com outro país uma maneira de solucionar a violência escolar? Ou esse é um caminho muito próprio?

Acho que o Brasil está aprendendo. Trazer a discussão à sociedade e o professor Cristovam (o ministro da Educação, Cristovam Buarque) colocar essa questão como uma das prioridades da sua política pública mostram que o Brasil está no seu caminho. Na França, por exemplo, a violência nas escolas é tema de discussão da campanha presidencial. O Brasil está aprendendo. Em novembro houve um congresso internacional sobre violência nas escolas em Brasília. Vieram especialistas do Canadá, França. Outro fator que mostra esse aprendizado é que está se fundando um Observatório Brasileiro sobre Violência nas Escolas, ligado à França pelo Observatório de Bordeaux, que não é só francês, é europeu. Então o Brasil já está com uma relação com o França para fazer pesquisas, trabalhos, trazer experiências. No começo de 2003, no Canadá, vai haver a segunda grande conferência de violência nas escolas, em que o Brasil estará representado. E em 2005, a terceira grande conferência será no Brasil.

O respeito aos direitos humanos dentro das escolas seria um caminho ideal para pôr fim à violência?

Seria ideal que isso acontecesse, mas não só na teoria. Por exemplo, trabalhar a questão do racismo desde a raiz, dizendo desde cedo que não é brincadeirinha chamar um colega de "picolé de breu" ou "picolé de asfalto". A partir do momento que você coloca a paz em prática, pode começar a funcionar.
 

Redação Terra