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Stédile nega trégua e lança campanha por sementes
 
Larissa Magrisso
 
Reuters
O coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile
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O líder do Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, pode ser considerado um veterano do Fórum Social Mundial, tendo participado das três edições do evento. Para este ano, ele programa o lançamento de uma campanha mundial pela democratização das sementes e contra os alimentos transgênicos. "Está em jogo a sobrevivência dos pequenos agricultores e camponeses. Está em jogo a soberania alimentar dos povos", disse ele em entrevista via e-mail ao Portal Terra. Stédile também refutou a possibilidade de dar uma trégua ao governo Lula: "enquanto no Brasil houver latifúndios de um lado e trabalhadores sem-terra de outro, sempre haverá ocupações de terra".

Terra - O Fórum Social Mundial deve servir de instrumento para levar a experiência do MST a outros movimentos similares pelo mundo? É a globalização da luta pela terra?

João Pedro Stédile - O FSM é um espaço de debate, de intercâmbio, de oportunidade para trocar idéias e sonhos. É um Porto. Cada vez mais alegre e internacional, em que ancoram durante uma semana pessoas do mundo inteiro que querem mudá-lo. Em relação aos movimentos camponeses, nós temos uma articulação internacional, que é a Via Campesina, e também sempre aproveitamos o FSM para nos reunir e trocar idéias. Primeiro entre nós dos movimentos camponeses, e depois também com outros movimentos sociais, nas assembléias mundiais que temos realizado. Mas também com outros setores sociais.

De certa forma, você tem razão, estamos produzindo uma globalização da luta pela terra. Porque nos últimos vinte anos o capital financeiro internacional e suas multinacionais têm tomado conta da agricultura, das agroindústrias e do comércio agrícola em todo mundo. Então, o capital globalizou as formas de exploração e trouxe como contradição o fato de que os movimentos camponeses, antes muito corporativos, localizados, agora também se internacionalizam, se conhecem, se globalizam. Agora, na Via Campesina, descobrimos que os principais exploradores dos agricultores do Brasil são os mesmos que estão na Índia, nas Filipinas, na África do Sul, no México, na Europa, ou seja, a Monsanto, a Nestlé, etc.

Terra - Quais são, e de que forma se dão, as relações do MST com outros movimentos de luta pela terra? E a experiência com a causa palestina, quando em 2002 um integrante do MST foi fotografado ao lado de Arafat com bandeira do MST, trouxe algum resultado positivo?

Stédile - Desde o surgimento do MST, sempre tivemos uma visão latinoamericanista, por isso sempre nos encontramos com outros movimentos camponeses. Tanto por que estávamos mais perto, quanto por que os movimentos camponeses do México, América Central e América Andina tinham uma experiência histórica maior do que a nossa. Desse processo, construímos uma articulação latino-americana, que troca experiências, intercâmbio e se reúne em congressos e conferências. Depois, a partir de 1995, construímos a Via Campesina, que é internacional, e reúne hoje mais de 90 organizações de todo mundo, de todos os continentes.

Em relação à Palestina, nossa identidade é de solidariedade com a luta do povo palestino, assim como de qualquer povo do mundo que lute por seus direitos. Precisamente quando o Mario Lill esteve em Ramalá, estava participando de uma comitiva da Via Campesina internacional. O episódio teve repercussão internacional, porque a estada da delegação em Ramalá coincidiu com o ataque ao Quartel de Arafat, que estava cercado. O resultado daquele episódio é que a solidariedade internacional impediu que o Exército de Israel bombardeasse o quartel e até matasse o presidente Arafat.

Mas esse episodio não é isolado. Participamos de muitas outras atividades de solidariedade. Mesmo com o povo de Israel. Temos intercâmbio com os kibutzs, conhecemos, aprendemos com seus erros e acertos. Eu mesmo estive numa missão em 1999 de visita a um cientista israelense, Modechai Vanunu, que está preso há mais de 15 anos porque denunciou que Israel pode produzir a bomba atômica. Fomos visitá-lo numa delegação de entidades ganhadoras de um Prêmio Nobel alternativo. Infelizmente não repercutiu no ocidente e ele ainda continua preso.

Eu também gostaria de aproveitar o tema para denunciar. O governo de Israel, do senhor Sharon, proibiu de sair do país, para vir a Porto Alegre, um convidado especial do FSM. Trata-se do monsenhor Atalla Hanna, bispo da igreja ortodoxa de Belém, com mais de 70 anos. As autoridades seqüestraram seu passaporte, pois ele é cidadão de Israel e não poderá estar conosco em Porto Alegre.

Terra - De que forma o MST e a Via Campesina podem contribuir para derrubar as barreiras comerciais aos produtos agrícolas brasileiros na Europa e nos EUA?

Stédile - O MST e a Via Campesina estão discutindo há muito tempo como as empresas multinacionais manipulam alguns governos, manipulam a OMC e impõem suas condições para obter mais vantagens e mais lucro. Nós defendemos a idéia de que o comércio internacional dos produtos agrícolas e alimentos não podem se reger pela regras da OMC. O comércio internacional deve estar subordinado à soberania alimentar. Ou seja, todo país tem o direito e o dever de produzir os alimetnos necessários para seu povo. E apenas vender o excedente, e comprar o essencialmente necessário, o que não consegue produzir.

Somos contra a padronização alimentícia, que é um perigo e um crime contra a diversidade cultural de nossa civilização, que as multinacionais querem impor. Hoje, trigo, soja, milho e arroz representam mais de 85% dos grãos consumidos no planeta. Isso gera uma dependência muito grande da população.

As politicas de subsídios e de protecionismo praticadas nos Estados Unidos e Europa não beneficiam seus pequenos agricultores, beneficiam apenas as grandes multinacionais, que aí obtêm vantagens comparativas para competir justamente contra os países do terceiro mundo e, vendendo de forma subsidiada, nos deixam dependentes. Nós discutimos muitas formas de mobilização e luta contra essa política agrícola internacional. E estamos planejando grandes mobilizações em todo mundo para o próximo mês de setembro, durante a reunião da OMC em Cancun. A OMC não tem direito, não pertence ao sistema da ONU, não pode criar regras para a humanidade. O mundo está precisando reorganizar todo seu sistema de organismos internacionais. Começando pela ONU, que só obedece as ordens dos Estados Unidos e não consegue fazer com que Israel cumpra suas portarias. Nem mesmo os Estados Unidos cumpre.

Terra - A atuação do movimento social deve ser modificada com a chegada ao poder de um grupo que simpatiza com suas idéias? É intenção do MST manter a trégua ao governo Lula, ou esta postura pode representar um atraso às conquistas do movimento? As ocupações vão continuar ocorrendo?

Stédile - Os movimentos sociais de todo mundo, e também aqui no Brasil, devem manter total autonomia dos governos, do Estado, dos partidos e das igrejas. É daí que vêm sua legimitade e sua força. Organizar o povo de forma independente. Toda vez que um movimento social ficou dependente de partido, Estado ou governo, acabou. Pode até continuar no papel, no timbre, mas acaba sua força.

O que mudou aqui no Brasil é a correlação de forças, não a forma dos movimentos sociais atuarem. Com a vitória eleitoral de Lula, o povo disse claramente que quer mudanças. E deu essa força ao Lula. Então, agora, no caso da reforma agrária, evidentemente que o latifúndio perdeu força, e que o governo Lula vai nos ajudar a combater o latifúndio.

Da mesma forma em relação às formas de luta. Os movimentos sociais têm autonomia para decidir suas formas de luta. E estas formas não são resultantes da vontade de dirigentes ou de acordos. Elas são expressão apenas do nível de contradição social que se cria na sociedade, por suas desigualdades e injustiças. Pode escrever em maísculas: enquanto no Brasil houver latifúndios de um lado e trabalhadores sem-terra de outro, sempre haverá ocupações de terra. Assim como enquando houver especulação imobiliária na cidade e muita gente sem casa, haverá ocupações de terrenos urbanos.

Terra - É cada vez maior a pressão para que países pobres adotem alimentos transgênicos como alternativa para combater a fome. Na opinião do MST, a resistência a estes alimentos será viável em um futuro próximo?

Stédile - O problema da fome do mundo não é falta de alimentos. Não é falta de produção de alimentos. É falta de distribuição da comida. Sobra comida na maior parte dos países. O que falta é o povo ter dinheiro, renda para poder comprar. Agora, as pressões que existem para adotar sementes transgênicas provêm das multinacionais, não mais de dez que querem controlar as mentes em todo mundo. E como somente elas detêm a tecnologia dos transgênicos, na biotecnologia, então querem impor.

Nós do MST e da Via Campesina continuamos nos defendendo com todas nossas forças. E aumenta cada vez mais o apoio da sociedade em todo mundo, contra os alimentos transgênicos. Assim como fica cada vez mais claro que as sementes transgênicas não são mais produtivas, não são mais rentáveis e continuam produzindo estrago no meio ambiente. A propóstio, estamos trazendo para depor no FSM um agricultor canadense, o senhor Percy Shemeister, que tem uma luta histórica contra a Monsanto, que usa no Canadá todos os métodos mais perversos possíveis para impedir que os agricultores tenham suas próprias sementes. O que está em jogo, na luta contra os transgênicos, é o controle ou não das multinacionais sobre os alimentos e a agricultura. Está em jogo a sobrevivência dos pequenos agricultores e camponeses. Está em jogo a soberania alimentar dos povos. E nós lutaremos até o fim e temos certeza de nosso vitória.

A humanidade se desenvolveu até os dias atuais porque a produção de sementes era democratizada, qualquer camponês poderia produzir sua semente. Agora, as multinacionais querem o monopólio. Não permitiremos. Por isso também lançaremos no FSM, na tarde do dia 24, uma campanha internacional, chamada As Sementes São Patimônio da Humanidade. E essa campanha será levada em todo mundo, para que os agricultores produzam suas próprias sementes. Depois, faremos uma atividade no assentamento de Charqueadas para lançar a campanha para nossa base brasileira, com a presença de diversas personaldiades como Noam Chomsky, Peter Rosset, Pat Money e Silvia Ribeiro.

Terra - A ação do MST sempre foi bastante forte e ao mesmo tempo polêmica no RS. Depois das denúncias da utilização de uma cartilha com instruções aos integrantes e a mudança do governo, que ações o movimento planeja para 2003 para o Estado e para resgatar a simpatia da sociedade gaúcha?

Stédile - O polêmico na nossa sociedade é como se explica que, em pleno terceiro milênio ainda tenhamos a propriedade da terra concentrada em tão poucas mãos. Polêmico é por que um banco precisa ter terra, por que a Vasp precisa ter fazendas. Por que um burguês qualquer da cidade precisa ter fazendas... Isso é polêmico. E os pobres do campo têm o direito de denunciar.

O MST do RS não é polemico, ele é lutador. O que diferencia dos outros Estados é que, aqui no RS, temos o monopólio dos meios de comunicação mais concentrado, onde uma empresa como a RBS manipula, mente freqüentemente e se transformou num partido da burguesia. Extrapolou completamente suas funções. Durante quatro anos fez uma campanha clara, explícita, mordaz contra o governo popular e contra o MST e todos movimentos sociais.

Espero que um dia a sociedade gaúcha se dê conta dos males que esse tipo de comportamento faz para a democracia e a justiça social. A sociedade brasileira e gaúcha tem muita simpatia pelo MST e pela reforma agrária. Se não fosse isso, ja teríamos acabado. A RBS fez uma campanha hedionda contra nossa escola de Veranópolis, mas a sociedade de Veranópolis, que nos conhece, nos defendeu. As pessoas sensatas, e mesmo as autoridades do novo governo gaúcho sabem, que enquanto houver tamanhas contradições entre o latifúndio improdutivo e milharess de sem-terra, sempre haverá conflitos sociais.

Terra - É o terceiro ano em que você participa do Fórum Social Mundial. Qual é a sua avaliação sobre a contribuição do evento às causas sociais?

Stédile - Como disse, o FSM é um porto. Não é uma articulação, não organiza nada. Mas ele tem sido um espaço importante para debater idéias. E isso tem sido fundamental nessa conjuntura internacional e nacional, de hegemonia do neoliberalismo e da ampliação do monopólio das comunicações. Graças ao FSM, os temas sociais, as causas do povo voltaram a ter espaço, e foi possível dizer que não é verdade que o neoliberalismo é o fim da história. Então, a contribuição maior do FSM foi para o debate.

E espero que, com o novo governo Lula, se abra um período de debate na sciedade brasileira. Todos sabemos as limitações de mudanças que o governo enfrenta. Mas a saída é o debate, é a formar grandes correntes de opinião pública, é a reoganização das pessoas, é a participação popular. É a mobilização da sociedade.
 
Redação Terra