| IISD/Divulgação |
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| Marcelo Furtado, diretor do pograma contra poluição industrial do Greenpeace |
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O Greenpeace vai ao Fórum Social Mundial para lembrar que as questões sociais e ambientais não devem ser tratadas de forma isolada. Para isso, o diretor da campanha contra a poluição industrial para a América Latina da organização, Marcelo Furtado, quer trazer ao evento a discussão sobre a responsabilidade das empresas na emissão de poluentes. "Achamos importante ter essa discussão no Fórum: um mundo melhor tem que ser tanto socialmente quanto ambientalmente melhor", disse ele em entrevista por telefone ao Portal Terra.
Terra - O Greenpeace elegeu como um dos temas principais de
discussão no Fórum Social Mundial a responsabilidade das empresas em
relação aos seus poluentes tóxicos. Na sua avaliação, está havendo uma
maior conscientização em relação a este problema ou a situação está
piorando?
Marcelo Furtado - São três os temas principais de discussão:
alimentos transgênicos, energias renováveis e responsabilidade corporativa. O abuso cometido pela indústria de contaminar pessoas, o meio ambiente e futuras gerações é uma questão que queremos levar aos movimentos sociais.
Acho que a discussão sobre a responsabilidade das empresas foi um dos
poucos pontos positivos da Cúpula da Terra (realizada em agosto em
Johannesburgo, África do Sul). Lá, mais de 180 países concordaram em
desenvolver um instrumento internacional para regulamentar a responsabilidade social e ambiental das empresas. Se quisermos pôr um fim nos abusos em uma economia globalizada como a que temos, isso tem de ser feito de forma internacional. E os países concordaram que as Nações Unidas
seriam o órgão adequado para viabilizar este instrumento, que envolve também questões de direitos humanos e direito à informação.
Terra - Como tem sido a reação das indústrias nesta discussão? Já há
uma conscientização sobre a necessidade de se utilizar recursos
renováveis?
Marcelo - Em Johannesburgo, esta discussão envolveu não só
organismos ambientais como representantes de diversos segmentos, inclusive
das empresas. Há um mito de que a produção limpa encarece o produto,
mas quando você internaliza os verdadeiros custos (sociais, ambientais e de saúde) de produzir usando energia e materiais poluentes você vê que eles não são tão baratos. Hoje, quem fica com os custos sociais é o Estado, e não o gerador do poluente.
Sobre a energia, já temos alternativas que estão disponíveis a custo competitivo, como eólica, biomassa moderna (que utiliza bagaço de cana) e
pequenas hidroelétricas. Com a expansão da matriz energética renovável seu custo tende a ser barateado. A energia eólica precisa de uma política de fomento. A solar ainda é muito cara em função de escala e precisa de uma maior infra-estrutura na produção das células fotovoltaicas. Precisa haver mais empresas produzindo mais painéis. O Brasil reúne condições climáticas e ambientais perfeitas para o desenvolvimento de todas estas energias limpas.
Terra - As mudanças vão ocorrer a partir da conscientização das
empresas e consumidores ou os governos precisam intervir regulamentando e
fiscalizando a produção?
Marcelo - Acho que terá que ser uma combinação. Acordos voluntários
que existiram para responsabilizar as empresas têm se mostrados
ineficientes. Outros exemplos nos mostram que, quando a empresa faz ações
para compensar desastres industriais, faz de forma incompetente. Achamos que políticas públicas e ações voluntárias devem ser implementadas e para isso trabalhamos também junto aos governos, sugerindo leis.
Terra - Como a presença do Greenpeace no Fórum Social Mundial pode
contribuir para chamar atenção para esta causa?
Marcelo - Em Johannesburgo ficou claro que, em geral, não existe
vontade política nem recursos nos paises ricos destinados para atacar
seriamente a degradação social e ambiental. As duas questões têm que ser
integradas. Como um grupo ambientalista, temos que unir forças com os movimentos sociais para convencer o governo e as empresas. Achamos importante ter essa discussão no Fórum: um mundo melhor tem que ser tanto socialmente quanto ambientalmente melhor.
Terra - Recentemente,o Greenpeace devolveu à empresa Dow Química o
lixo tóxico recolhido em Bhopal (Índia) após um desastre industrial
ocorrido em 1984. A estratégia de vocês inclui também negociação nos
bastidores, com industriais e políticos, ou a base são os protestos?
Marcelo - Trabalhamos em vários lados: nas políticas públicas,
sugerindo instrumentos, na educação ambiental, na promoção de soluções. É
muito óbvio para nós que não existe desenvolvimento sem energia, mas
desenvolvimento sustentável precisa de energia renovável.
O desastre de Bhopal faz da Dow Química um ícone da irresponsabilidade empresarial. A empresa comprou a indústria Union Carbide, responsável pelas mais de 8 mil mortes por contaminação na Índia em 2001 e se recusa a assumir o passivo social e ambiental. Gasta milhares de dólares para promover sua preocupação ambiental na imprensa e não quer gastar nenhum tostão limpando a área contaminada ou provendo auxílio médico e compensação aos sobreviventes. Isto é maquiagem verde e não responsabilidade corporativa.
Terra - A alternativa defendida pelo Greenpeace é a Produção Limpa,
que pressupõe que a empresa seja responsável por seus detritos tóxicos e
que faça mudanças em materiais e métodos de produção. Qual a viabilidade de
aceitação desta proposta no atual modelo econômico?
Marcelo - Com o modelo atual é possivel fazer mudanças. Com um
modelo melhor dá pra fazer mudanças mais rapidamente. É preciso entender
que a Produção Limpa não é ficção cientifica, é olhar pro seu processo e
fazer pequenas mudanças: subtituir materiais, trocar energia poluente por
energia renovável, agir com responsabilidade.
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