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Guerra no Iraque
Segunda, 24 de março de 2003, 01h35  Atualizada às 07h08
Oscar vira palco de manifestações pacifistas
 
Andréia Fernandes
 
Reuters
Pedro Almodóvar dedicou sua estatueta aos que lutam pela paz
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A Academia prometeu e cumpriu: por conta da guerra no Iraque, a 75ª edição do Oscar teve um tom mais sombrio e muito menos glamour. A decisão afetou, inclusive, um dos momentos mais tradicionais da festa: o tapete vermelho, que acabou reduzido para dentro do teatro Kodak, em Los Angeles. Os protestos contra a ação das forças aliadas no Oriente Médio, porém, não foram contidos. O ator mexicano Gael Garcia Bernal, intérprete dos filmes O Crime do Padre Amaro e E Sua Mãe Também, foi o primeiro artista a manifestar sua opinião. "A possibilidade de paz no mundo não é um sonho, é uma realidade", declarou, antes de chamar Caetano Veloso e Lila Downs ao palco para cantar Burn it Blue, concorrente na categoria de melhor canção por Frida.

O diretor norte-americano Michael Moore, que levou o prêmio de melhor documentário por Tiros em Columbine, fez, sem dúvidas, o discurso mais contundente da noite. Ele chamou ao palco os diretores concorrentes na categoria que disputou e pregou: "nós gostamos de realidade e vivemos em tempos fictícios. Vivemos em um tempo onde temos resultados eleitorais fictícios que elegeram um presidente fictício", disse, referindo-se à confusão na apuração da eleição presidencial de 2000, entre Al Gore e George W. Bush. "Nós vivemos em uma época onde temos um presidente que nos manda para uma guerra por motivos fictícios, seja a ficção da fita adesiva ou a ficção de alertas laranjas. Nós somos contra esta guerra, senhor Bush, vergonha", dizia, no momento em que teve seu microfone cortado para a entrada da música. A platéia ficou dividida: enquanto alguns aplaudiram em pé a ousadia do diretor, outros vaiaram.

Susan Sarandon decepcionou quem esperava algum discurso político inflamado de sua parte. A atriz, conhecida por defender causas humanitárias, apenas fez o sinal de paz e amor antes de apresentar uma das categorias.

Mas Adrien Brody, eleito o melhor ator por viver justamente um sobrevivente do holocausto em O Pianista, veio na seqüência para "tapar" o vazio deixado por Sarandon. Depois dos agradecimentos pessoais, o ator pediu para a orquestra interromper a música que encerra (ou corta) as declarações dos vencedores e fez um o discurso mais belo da noite. "Sinto tristeza por aceitar este prêmio num tempo estranho. Este filme me deu a consciência do que realmente é uma guerra. Se você acredita em Deus ou Alá, não interessa. Peça apenas para que ele cuide de nós e reze para que isso tudo se resolva". Antes de descer do palco, o ator ainda mandou um recado para um amigo que está combatendo no Kuwait: "rezo para que você volte logo".

Nicole Kidman, vencedora na categoria de melhor atriz, falou por todos os presentes. "Por que vocês vieram à entrega do prêmio quando o mundo está tão tumultuado? Porque a arte é importante, e porque vocês acreditam no que fazem e querem honrar isto, e é uma tradição que precisa ser mantida. Há um monte de problemas no mundo e desde 11 de setembro houve muita de dor em termos de famílias perdendo pessoas, e agora com a guerra mais famílias perderão mais pessoas. Deus as abençoe".

Até Frank Pierson, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográfica que durante uma semana ficou no impasse de realizar ou não a cerimônia, se manifestou. Antes de chamar a atriz Olivia de Havilland (de ...E O Vento Levou) para homenagear os grandes vencedores do Oscar, Frank pediu que "nossos rapazes voltem logo. E que a paz surja no Iraque".

O diretor espanhol Pedro Almodovar, vencedor na categoria de melhor roteiro original por Fale com Ela, ofereceu o prêmio para "todas as pessoas que estão levantando suas vozes para a paz". Ao final da premiação, o apresentador Steve Martin dedicou a cerimônia aos soldados americanos que estão no Oriente Médio. "Aos jovens que estão lá, esperamos que tenham gostado. Esta festa foi para vocês".
 

Redação Terra