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Entenda o conflito
Terça, 15 de abril de 2003, 21h32 
Análise: o custo da reconstrução do Iraque
 
Jeremy Scott-Joynt para BBC Brasil
 
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Quem quer que enfrente a responsabilidade de reconstruir o Iraque depois que o conflito acabar, vai assumir um negócio dispendioso. As estimativas dos danos causados à infra-estrutura do país em duas décadas de guerra e sanções variam muito, assim como as estimativas dos custos de reconstrução.

Em 1991, a ONU (Organização das Nações Unidas) disse que isso custaria US$ 22 bilhões - US$ 30 bilhões em valores atuais (R$ 98 bilhões) - simplesmente para que o Iraque retornasse às suas condições antes da invasão do Kuwait e à derrota na subseqüente Guerra do Golfo. Levando em consideração a magnitude da tarefa, estudos recentes dizem que a conta gira em torno do valor estimado pela ONU em até US$ 400 bilhões (R$ 1,3 trilhão).

Receio

Esse, coincidentemente, é aproximadamente o mesmo valor atribuído às dívidas do Iraque, de acordo com Bathsheba Crocker, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. Não que haja muita discussão sobre esse estoque de dívida de US$ 383 bilhões no momento, o que causa receio à acadêmica, receio que é compartilhado por outros estudiosos, analistas, funcionários da ONU e, até mesmo, governos.

"Assim que o regime de Saddam Hussein tiver sido realmente encerrado, muita gente estará cercando o Iraque como abelhas ao redor de um pote de mel", disse Crocker. "É impressionante que o assunto não esteja sendo tratado agora, nem mesmo, pelo que se pode perceber, em reuniões privadas", afirmou.

O que é necessário, diz a acadêmica, é uma moratória - ou suspensão temporária - da dívida acordada, por algo como cinco anos.

Restos

Mas isso poderia ser problemático. Nem os Estados Unidos, nem a Grã-Bretanha estiveram dispostos a dizer à BBC se têm planos para as dívidas do Iraque. Ninguém em Washington parece estar pronto para abandonar a posição segundo a qual o vencedor terá de lidar com os restos, apesar de a Grã-Bretanha e outros países europeus insistirem que a dívida, como a reconstrução, deve ser tratada de forma multilateral.

E a ONU tem seus próprios problemas. Sua dependência de doadores significa que seus funcionários no Iraque não estão dispostos a desafiar as regras americanas. Em particular, eles acreditam que o enfoque americano vai causar mais problemas no futuro. "Em todas as coisas que os governos dos Estados Unidos e de outros países dizem, a questão da dívida tem sido deixada de lado para ser tratada depois", disse um funcionário da ONU. "Achamos que o assunto é muito mais complicado do que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estão preparados para admitir".

Petróleo por comida

O funcionário declarou ainda que ninguém realmente chegou a uma conclusão sobre como lidar com um país destruído, que detém a segunda maior reserva de petróleo do mundo. "Inevitavelmente, o novo governo terá de enfrentar exigências para que comprometa futuras receitas com a venda de petróleo com os pagamentos da dívida", disse. "Se algum dinheiro vai começar a chegar ao Iraque, é difícil imaginar esses investidores sentados, esperando retorno só para daqui a dez anos".

O Iraque extrai oficialmente 1,7 milhão de barris por dia para o programa de troca de petróleo por comida da ONU, tendo recebido em troca mais de US$ 10 bilhões (R$ 32,7 bilhões) em 2002. Barris de petróleo contrabandeados, majoritariamente, pela fronteira com a Síria elevariam a produção iraquiana diária para 2,5 milhões de barris.

Mas alcançar de novo o nível pré-1991, de 3,5 milhões barris diários, provavelmente custaria pelo menos US$ 5 bilhões por ano, em um período de até três anos. Uma fatia desse gasto provavelmente já está incluída nos custos do processo de reconstrução, já que as contas americanas destinam menos de US$ 2 bilhões (R$ 6,5 bilhões) para recuperar o nível de produção de petróleo.

Bens iraquianos

Os bens iraquianos congelados pelos Estados Unidos - no valor de US$ 1,7 bilhão - devem aliviar o peso dessas despesas para os americanos, apesar de outros países não poderem fazer o mesmo com recursos de iraquianos sem a sanção do Conselho de Segurança da ONU. Com uma variedade de companhias de petróleo pressionando para que os Estados Unidos privatizem a exploração da atividade no Iraque, podem não sobrar muitas receitas para as necessidades do país.

E as agências multilaterais, além da ONU, estão de, certa forma, afastadas do caso. A velocidade do ataque americano e o impasse diplomático de que ele emergiu não deixaram espaço para a construção do consenso sobre a ação necessária. "Nós não temos uma relação formal com o Iraque desde nosso último empréstimo, em 1973", informou um funcionário do Banco Mundial.

Enquanto isso, os credores estão fazendo fila. Somando contratos pendentes (US$ 57 bilhões - R$ 189,6 bilhões), sem falar na compensação pela invasão do Iraque em 1991, é possível ter uma idéia que as demandas serão pesadas.

Argumento anglo-americano

A Rússia, por exemplo, está ansiosa por receber os pagamentos devidos pelo Iraque, e há uma série de empresas que não vão querer esperar. O pesado custo de reconstrução e os profundos problemas econômicos podem forçar os Estados Unidos a ter uma visão mais multilateral sobre o assunto.

Promessas não cumpridas no Iraque, assim como aconteceu no Afeganistão - onde apenas metade dos recursos prometidos foi providenciada -, podem destruir o argumento anglo-americano pela guerra, segundo o qual Estados Unidos e Grã-Bretanha estão liberando os iraquianos para um futuro melhor e mais democrático.

Bathsheba Crocker ressalta que a pressa em produzir lucros após o fim do conflito ou o comprometimento de futuras receitas de petróleo podem acabar em desastre. "Se realmente queremos levantar a economia iraquiana do chão, isso não pode acontecer".
 

BBC Brasil

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